O Fantasma da Ópera existe e está em SP

Grande elenco, coro, balé, orquestra, cenários e figurinos luxuosos isso é um musical
Foto: Divulgação

Gaston Leroux, autor do Fantasma da Ópera abre o prólogo do seu romance afirmando: “O Fantasma da Ópera existiu, não é produto de imaginação”. Acredito piamente e, digo mais, ele está vivíssimo. Só quem não conhece ou não leva em contas os números dessa história, pode duvidar da existência do dito cujo. Não fosse assim, como explicar as inúmeras adaptações desde o primeiro filme, em 1925, até a atual montagem brasileira em cartaz no Teatro Renault em São Paulo? Como justificar os números impressionantes dessa história que, não sei se é de amor, de medo ou pura obsessão, mas que, talvez exatamente por essa estranha mistura, seduza há mais de um século públicos os mais diversos?
Em janeiro desse ano O Fantasma da Ópera completou 30 anos em cartaz na Broadway, em Nova York, alcançou a marca de 140 milhões de espectadores em 35 países e 160 cidades, foi traduzido para 15 idiomas e tornou-se, em 2014, a primeira produção teatral da história a atingir faturamento mundial de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões). 
O fato de já ter sido montado no Brasil (2005), ter permanecido dois anos em cartaz, com um público de 880 mil espectadores, não impediu que a nova temporada nos palcos paulistanos fosse um megassucesso. Aliás, prorrogada até fevereiro de 2019, traz novos nomes no elenco, que, se não estão habituados aos palcos dos musicais, são assíduos frequentadores dos palcos onde impera a ópera, como o tenor Thiago Arancam e a soprano Lina Mendes. Em comum com a primeira montagem a grandiosidade que fascina e o auxílio luxuoso da evolução tecnológica da última década. 

Sandro Christopher, Bete Diva e Marcos Lanza
Foto: Divulgação 

O elenco tem a força necessária ao conjunto, como pedem os musicais, não se faz musical só com “primeiros violinos”, os papéis secundários são fundamentais, e lembrando a máxima de Constantin Stanislavski “não há papéis pequenos, apenas atores pequenos”. Ainda assim sempre existem os destaques e o grande privilégio de não ser uma frequentadora assídua dos musicais é o encantamento proporcionado pelas descobertas. 
No caso do Fantasma da Ópera, numa única noite fui apresentada a muita gente boa: Giulia Nadruz, dona de uma voz e de uma capacidade de interpretação que a colocam em condições de fazer uma Christine impecável, fundamental pela importância da personagem; Fred Silveira, fazendo um Fantasma em que atuação e canto estão no mesmo diapasão, o que nem sempre é possível – soube depois que ele é a terceira opção, depois de Arancam e Leonardo Neiva, confesso que esse, aliás, era quem eu queria ter visto no papel, mas ele tinha feito a sessão da tarde;  Bete Diva como Carlotta e Marcos Lanza como Monsieur André são simplesmente impagáveis. Ao lado deles, a imensa presença de Sandro Christopher, dono de uma voz que faz dele um dos nomes mais presentes nos elencos dos nossos musicais, com uma trajetória no canto lírico e a experiência internacional de quem estudou e trabalhou por 18 anos ora nas escolas e palcos americanos, ora nas escolas e palcos europeus, e que, como ator é um dos maiores especialistas em roubar cenas, seu Monsieur Firmin ao imprimir um toque de humor em suas cenas, acaba sendo la cerise sur le gâteau

O famoso lustre de uma das mais esperadas cenas 
Foto: Divulgação

Para uma produtora os números da produção do Fantasma da Ópera são surpreendentes: são 720 cenas, distribuídas em 2h40 de espetáculo, um cenário de 100 toneladas e um corpo de 130 pessoas envolvidas diretamente, dentre elas atores, músicos, diretores, técnicos, etc.
O famoso lustre, uma das estrelas do espetáculo, pesa cerca de 450 quilos e é composto por 30 mil bolas que imitam cristais. E se isso não impressionar o meu leitor, saiba que existem dez máquinas de fumaça em funcionamento e 7.700 metros de tecido utilizados nas cortinas dos cenários. Isso sem falar nas 230 peças do figurino, das 111 perucas, das 35 máscaras para uma única cena – a do Carnaval, 15 manequins e um elefante em tamanho natural. 
Para completar a festa 40 pessoas no palco, entre elenco principal, coro e balé e no fosso, uma orquestra composta por 14 músicos que executam à perfeição verdadeiros clássicos da história dos musicais. 
Em síntese: se você é adepto do teatro feito por dois atores, uma mesa, duas cadeiras e um tapete, passe ao largo do Teatro Renault, mas se você é adepto do luxo e se os efeitos técnicos o seduzem, e se ao lado disso você é capaz de admirar o trabalho – admirável! – de mais de bem mais de uma centena de pessoas, diretamente envolvidas na produção, não tenha dúvidas, tome o rumo da avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411. 

O Fantasma e Christine
Foto: Divulgação 

A história de Gaston Leroux é mais ou menos assim: um gênio deformado que vive no subsolo da Ópera de Paris, passa a dar aulas de canto a uma jovem cantora órfã, Christine Daaé, que acredita ter como professor o Anjo da Música. Devido às aulas e a misteriosos acontecimentos envolvendo o adoecimento da prima donna Carlotta, Christine consegue o papel de cantora principal, encantando a todos com sua belíssima voz. No entanto, ela não contava com a obsessão que seu professor, que se apresenta depois como o Fantasma da Ópera, desenvolveria por ela. O Fantasma já era conhecido pelos frequentadores da Ópera, mas muitos não acreditavam em sua existência. Enciumado quando Christine declara-se apaixonada por Raoul, seu amigo de infância, o Fantasma mostra um lado chantagista e obsessivo, provocando uma série de acidentes. Christine vê-se acuada diante da ameaça da explosão da Ópera por ele, caso ela não aceite seu pedido de casamento. Ao ver Raoul, seu noivo, dentro de uma armadilha, sucumbe à chantagem. No último segundo, o Fantasma, cujo nome é Erik, sente-se tocado pela moça ter feito por ele o que fizera e decide deixá-la partir com Raoul, para em seguida, morrer de amor. 
Ou seja, tudo pode começar com uma boa mistura de terror, suspense e romance, mas o resultado  vai solicitar ingredientes mais sofisticados. Algo como as canções musicadas por Andrew Lloyd Webber – que sabe tudo de canções e arranjos para musicais clássicos; as letras de Charles Hart, cantadas em português; um elenco afinado e coeso, não apenas do ponto de vista do canto, mas também da interpretação; uma orquestra que seja é um dos pontos altos do espetáculo; cenários suntuosos; figurinos impecáveis; o know-how de uma produtora como a Time For Fun, capaz de não medir esforços para que a produção pudesse ser fiel ao apresentado em outros países e talvez tenhamos a explicação para a resposta do público, mais do que nunca em busca de entretenimento e emoção.  

Cena do Carnaval
Foto: Marcos Mesquita

Quando saio do teatro após ver um musical como O Fantasma da Ópera ou como Annie, do meu amado Miguel Falabella, a produtora e pesquisadora na área da produção teatral que sou, normalmente, encontra-se em estado de êxtase. Teatros lotados. Teatros com capacidade para 1.500/ 2.000 pessoas, fazendo em média seis sessões por semana, todas lotadas. Prova de que existe público, logo existe mercado para o musical no Brasil. Isso significa emprego para artistas e técnicos, sem falar nos indiretos, no fortalecimento da economia da cultura, ainda que nossos estudos na área sejam tão incipientes quanto as nossas políticas públicas para o financiamento do teatro nesse país. 
Graças as leis de incentivo avançamos em muitos pontos, regredimos em outros, nada é perfeito. Mas trocamos as produções caseiras e artesanais por produtos vendáveis e rentáveis, nos profissionalizamos, mesmo que ainda sejamos tão dependentes de editais e de incentivos fiscais. Eis um dos assuntos sobre o qual gosto de falar, e sobre o qual falo com muita propriedade: o uso das leis de incentivo fiscal no Brasil. Até porque no quesito financiamento à cultura eu sou mais à esquerda que a extrema esquerda brasileira, uma vez que minha formação é totalmente francesa, e na França a cultura é um negócio de Estado, pelo menos desde de Luís XIV. 
Há pouco tempo anunciavam aos berros no tribunal de inquisição das redes virtuais que a produção do Fantasma da Ópera havia recebido mais de 28 milhões do Ministério da Cultura graças à Lei Rouanet. Mais uma vez eu dizia: perdoai-os Pai, eles não sabem o que dizem. Pela milésima vez repito: a Lei Rouanet não dá dinheiro a ninguém, apenas uma autorização para que seja feita uma captação de valores aprovados por uma comissão depois da avaliação do projeto. Vamos conferir?
A empresa T4F Entretenimento S/A (de acordo com informação disponível e acessível a qualquer mortal nas páginas do Ministério da Cultura) apresentou um projeto, para a montagem do Fantasma da Ópera orçado em R$ 34.237.830,45. A comissão do MINC aprovou, ou seja, autorizou a captação de R$ 28.645.546,12 e o apoiado, ou seja o captado até agora, junto às empresas foi de R$ 11.276.657,03. Na página dedicada aos dados básicos do projeto consta ainda a seguinte informação: “liberado para movimentar conta bancária em 25/09/2018”. Detalhe: o espetáculo estreou dia 1 de agosto.
O seu projeto não consegue captar? O seu grupo não consegue se manter? Você acha que a lei está errada? Articule-se, não há voluntarismo político que resista a falta de articulação de uma categoria, agora quando um e outro são inexistentes não adianta transformar a sua incompetência em ira contra a competência alheia.
Quero mais é um sem número de musicais do porte do Fantasma da Ópera produzidos por ano. Na universidade alguns colegas me acusam de não ter “foco acadêmico”, minha resposta é: “foco acadêmico para mim é aluno meu empregado ao final de quatro anos de universidade”. Preciso acreditar e investir no mercado para que eles tenham trabalho.
A título de curiosidade para quem fala muito e não procura se informar, nem todos os ingressos do Fantasma da Ópera custam R$ 300, esse é o preço máximo. Na verdade, metade das entradas é vendida nos valores definidos pela empresa, com preços que oscilam entre: R$ 75 a R$ 300 (e entre esses tem a parte obrigatoriamente destinada à meia entrada). Outros 20% atenderiam o Vale-Cultura (R$ 50) e 30% seriam gratuitos, parte voltados a ONGs e alunos da rede pública. 

O reencontro com o lago da Ópera de Paris
Foto: Divulgação

Preciso confessar que vi O Fantasma da Ópera pela primeira vez, sequer tinha visto uma das versões cinematográficas, mas, como boa francófila tinha lido o romance, em francês bien sûr e comprado na livraria do Palais Garnier, no século passado.
A paixão pelo teatro faz com que seu seja público fácil para histórias que falem e/ou se passem num teatro, se esse teatro for a Ópera de Paris é tiro certo. Logo me apaixonei pelas cenas passadas no “esconderijo” do Fantasma, ao mesmo tempo que me seduziam, me apavoravam, aquele rio nos subterrâneos da ópera oh la la...
Mais recentemente, em 2010, como bolsista do Ministério da Cultura da França participei de um dos mais belos projetos de intercâmbio cultural do governo francês, o Courants du Monde, éramos 150 pessoas de 50 países e na minha turma éramos 25 alunos. Cursávamos Economia e Financiamento da Cultura na universidade de Paris Dauphine, entre os nossos professores um certo Monsieur Jean-Yves Kaced, Diretor de Marketing da Ópera de Paris. Graças a ele, conheci o que existe por trás das cortinas do palco da Palais Garnier. 
Não foi uma visita dessas que você chega e compra seu ingresso, entra e visita os lugares permitidos. 

O lago sob a Ópera de Paris existe e eu vi com meus olhinhos

Fomos recebidos por um guia que, ao nos receber perguntou de que empresa éramos, e ficou surpreso quando dissemos: nenhuma. Explicamos que estávamos na França no âmbito de um projeto cultural. Nos disse que éramos privilegiados, a visita que faríamos era feita raramente e apenas com os potenciais patrocinadores da Ópera Nacional de Paris. 
E ele não nos mentiu. Foram horas inesquecíveis. Em alguns momentos lágrimas rolaram. Segurava nas paredes e nas madeiras das portas como que a me energizar de tudo o que ali foi vivido. Mas sem sombra de dúvida o momento mais impressionante, foi o da descida rumo ao “lago” do Fantasma da Ópera, sim, ele existe. Não vi o Fantasma, mas o “lago” esse eu vi. 

Os bombeiros de Paris treinam nesse lago
Tem até um barquinho e peixes cultivados

Construído em 1860, o Palais Garnier tem um “lago” que serviu de inspiração a Leroux, e que na verdade é um suprimento de água a ser usado em caso de incêndio, por bombeiros especialmente treinados, de forma a extrair a agua necessária para apagá-lo o mais rápido possível, como em 23 de dezembro de 1950, quando foi controlado em quinze minutos.
As cenas do lago, do rio e do barco foram especialmente emocionantes. Revi o barquinho do Palais Garnier usado por um funcionário que alimenta os peixes que são cultivados por lá, ele falou em trutas...será? Sei é que hoje, o lago é inacessível ao público, mas descobri que pode ser visitado virtualmente e em 360 ° com o programa Google Arts and Culture.

SERVIÇO - O FANTASMA DA ÓPERA

Música: Andrew Lloyd Webber
Direção: Harold Prince
Letras: Charles Hart (com letras adicionais de Richard Stilgoe)
ELENCO PRINCIPAL
Fantasma – Thiago Arancam
Fantasma alternante – Leonardo Neiva
Christine – Lina Mendes
Christine alternante – Giulia Nadruz
Raoul – Fred Silveira
Monsieur Firmin – Sandro Christopher
Monsieur André – Marcos Lanza
Carlotta – Bete Diva
Piangi – Cleyton Pulzi
Madame Giry – Taís Víera
Meg Giry – Fernanda Muniz
ENSEMBLE FEMININO
Bianca Tadini
Gabriela Bueno
Joyce Martins
Natacha Wiggers
Natália Hubner
Raquel Paulin
ENSEMBLE MASCULINO
Douglas Tholedo
Gilberto Chaves
Henrique Moretzsohn
Leandro Cavalcante
Leo Diniz
Misael Santos
Paulo Santos
Rodrigo Miallaret
BAILARINAS
Ariadne Okuyama
Carol Paz
Carol Tangerino
Caru Truzzi
Isabella Morcinelli
Yasmin Barbosa
BAILARINOS
Thiago Garça
Victor Vargas
SWING
Swing Feminino – Annanda Samarine
Swing Feminino – Laura Duarte
Swing Masculino – Diego Velloso
Swing Masculino – Vandson Paiva
SWING BAILARINO 
Swing Masculino/Dance Captain – João Luis da Matta
Swing Feminino – Larissa Leão

Onde: Teatro RENAULT – Av. Brigadeiro Luís Antonio, 411 – São Paulo – SP
Preços e horários: 
Quartas, quintas e sextas às 21h
Sábados às 16h e 21h
Domingos às 15h e 20h
Duração: 2h30 com 15-20 minutos de intervalo 
Ingressos: Estão disponíveis para compra online no site da Tickets For Fun (www.ticketsforfun.com.br) e nos pontos de venda espalhados pelo Brasil, com taxa de conveniência e também na bilheteria do Teatro Renault sem taxa, (terças à sábados do 12h às 20h e domingos das 13h às 20h). As formas de pagamento são cartões de crédito na compra pela internet e crédito, débito e dinheiro na bilheteria e pontos de venda.
Os valores são divididos em 9 setores e variam de R$ 37,50 (meia) a R$ 300 (inteira) de acordo com o dia da semana, veja todos os preços por setores:

Quarta 21h / Sexta 21h / Domingo 20h
Plateia VIP – R$ 280 (inteira) e R$ 140 (meia)
Plateia Premium – R$ 260 (inteira) e R$ 130 (meia)
Plateia Gold – R$ 240 (inteira) e R$ 120 (meia)
Plateia Silver – R$ 200 (inteira) e R$ 100 (meia)
Camarote – R$ 260 (inteira) e R$ 130 (meia)
Camarote ZZ – R$ 260 (inteira) e R$ 130 (meia)
Balcão VIP – R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia)
Balcão Premium – R$ 120 (inteira) R$ 60 (meia)
Balcão Economy – R$ 75 (inteira) e R$ 37,50 (meia)
Sábado 16h e 21h / Domingo 15h 
Plateia VIP – R$300 (inteira) e R$ 150 (meia)
Plateia Premium – R$280 (inteira) e R$ 140 (meia)
Plateia Gold – R$260 (inteira) e R$ 130 (meia)
Plateia Silver – R$220 (inteira) e R$ 110 (meia)
Camarote – R$280 (inteira) e R$ 140 (meia)
Camarote ZZ – R$280 (inteira) e R$ 140 (meia)
Balcão VIP – R$170 (inteira) e R$ 85 (meia)
Balcão Premium – R$150 (inteira) e R$ 75 (meia)
Balcão Economy – R$75 (inteira) e R$ 37,50 (meia)

Comentários

  1. Olá. Meu nome é Luíza Cláudia. Assisti ao Fantasma na Broadway há alguns anos. Esta produção brasileira não deixa absolutamente nada a desejar! Destaco a impecável Carlotta Giudicelli.

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