A MEDEA DE SÊNECA E DE GABRIEL COMO EU VI

“Vou atacar os deuses, vou convulsionar o mundo. 

Só terei descanso quando o universo desabar. 

Que tudo desapareça comigo. 

É agradável um condenado arrastar alguém à ruína.”

 (Medea - Sêneca)


Rosana Stavis, Walderez de Barros e Mariana Muniz, as três faces de uma só Medea
Fotos: João Caldas 

Entre os muitos privilégios que o teatro tem me ofertado ao longo desses quase 50 anos de vida em comum, um deles me é muito precioso: poder, já há alguns anos, estar presente aos três últimos ensaios e as três primeiras apresentações das criações do Gabriel Villela. Mas em matéria de privilégio, existe um, que é com certeza o mais precioso de todos: poder ver um espetáculo da coxia e ao lado dele. Foi assim que, após assistir aos ensaios e ter visto da plateia a estreia, vi a terceira representação da Medea, de Sêneca – e agora do Gabriel – nas coxias do Teatro Anchieta.  

É esse momento mágico que tentarei contar para vocês, destacando a expressão de afeto e confiança, a demonstração explicita da imensa generosidade do artista que é Gabriel, a ponto de permitir que ele divida esse templo com uma amiga, que compartilha com ele a mesma incomensurável paixão pelo teatro. Conheço muitos diretores, até perdi a conta, sou amiga de vários, trabalhei com outros tantos, mas nunca vi sequer um deles permitir a presença de um “estranho” nesse ninho chamado coxia.  

Aqueles que, como eu, são de teatro sabem exatamente o quê significa estar numa coxia durante a representação de uma peça. Os que não são de teatro, por certo, alguma vez em suas vidas já desejaram estar no avesso da cena. 

As coxias, habitualmente, são proibidas a qualquer pessoa estranha a equipe do espetáculo, e isso é válido tanto para os ensaios, quanto para as representações. Por vários motivos práticos, lógicos e objetivos, mas prefiro acreditar que faz parte das muitas tradições (superstições?) que foram imputadas ao teatro, esse bichinho tão cheio de manhas e manias, ao longo dos séculos. Na minha modestíssima opinião, o quê se passa nas coxias deve permanecer em segredo, como algo que não pode e nem deve ser desvendado. 

Entretanto, com o aval do diretor, cá estou tentando colocar em palavras – e em fotos feitas com um simples celular, por uma pessoa que não um milésimo do talento de João Caldas para a fotografia – toda a poesia de ver o avesso desse bordado perfeito que é a Medea do Gabriel. 

Contudo, todavia, porém, antes de levar os eventuais leitores até as coxias da Medea, preciso dizer para vocês que Sêneca é uma descoberta bastante recente em minha vida. Fui apresentada a Sêneca e a tragédia romana por um garoto chamado Thomas Jolly. 

Ele, já há alguns anos, ao lado de Ariane Mnouchkine e Gabriel Villela, completa a minha Santíssima Trindade no quesito direção teatral. Explico. Em comum, além do imenso talento, eles fazem um teatro que dispensa manual de instruções para ser visto, na linha direta de Antoine Vitez, grande nome do teatro francês. Vitez, quando dirigiu o Théâtre National de Chaillot, cunhou a frase “teatro popular é o teatro elitista para todos” tentativa de conciliar exigência artística e democratização cultural. Mnouchkine por sua vez, vai além, ao dizer: “o teatro popular – que, para mim, não se opõe ao teatro erudito – é o melhor teatro. (...). Não se diminui as ambições ao reivindicar fazer teatro popular, muito pelo contrário. Molière era popular; Shakespeare era popular.”. 
  
O nome de Thomas pode não ser familiar a vocês, muitos de vocês nunca viram uma peça encenada por ele, ou na qual ele atuasse, é um ator esplêndido, mas com certeza muitos de vocês estavam entre os mais de trinta e cinco milhões de telespectadores que viram, apenas no Brasil, a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris em 2024 nas telas. Thomas Jolly assinou a direção artística desse megaevento. 

Após montar Henrique VI, na íntegra e Ricardo III, consagrando-se como a maior revelação da década no teatro francês, em 2018, convidado por Olivier Py para abrir o Festival de Avignon, a escolha de Thomas recai em Thyeste (guardo a grafia francesa por puro hábito), a mais cruel – sempre na minha opinião – das tragédias de Sêneca. 

Na época, ao ser questionado sob o motivo dessa opção, a resposta foi clara: 

«Escolhi a tragédia romana pela secura da sua língua e pela sua eficácia árida, que não tem nada a ver com a de Shakespeare, muito mais pomposa e política. Mas, ao trabalhar durante muito tempo com Shakespeare, acabamos inevitavelmente por nos deparar com Sêneca, que é como uma matéria-prima, mineral, uma pedra que Shakespeare teria esculpido e ornamentado.». (Thomas JOLLY – Les Inrockuptibles, 27 juin 2018 – p. 36 Les joies de la tragédie, textes : Hervé Pons et Patrick Sourd)

Recentemente numa entrevista a André Marcondes, da Folha de S. Paulo, Gabriel afirmou que a ideia de enveredar pelos caminhos da tragédia senequiana, tinha ligação com o seu tempo de estudante de direção teatral no Departamento de Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ideia essa que reapareceu durante a pandemia da COVID 19, e completa: “retomei os estudos pós-Hamlet e só me vinha à cabeça que o próximo passo deveria ser Sêneca.”. E a declaração dele vai ao encontro do que disse Thomas Jolly anos atrás, o que não é uma coincidência, mas uma conclusão natural para dois encenadores que, mesmo sendo de gerações e continentes diferentes, têm em comum a forte ligação com a obra de Shakespeare, sem falar na admiração que ambos cultivam pelo bardo. 

O sucesso de Thyeste despertou em mim o interesse pelo Sêneca tragediógrafo, e logo depois descobri que Artaud o tinha como “o maior autor trágico”. Comprei a edição francesa do Théâtre complet (Teatro completo) de Sêneca, com tradução e apresentação da Florence Dupont, latinista respeitadíssima e responsável por uma espécie de redescoberta do autor na França. Florence acompanhou a equipe ao longo do trabalho de preparação e pesquisa para a montagem da peça. Antes mesmo de ver Thyeste em cena já estava completamente seduzida pela beleza do texto, foi um típico caso de amor à primeira leitura. E naturalmente, após ver cinco vezes Thyeste, convencida por Atrée que, ao lado dele, Ricardo III era um aprendiz, fui ler todas as outras tragédias. 

Foto: Deolinda Vilhena

Entretanto, nada disso fez ou faz de mim uma especialista nem em tragédia, seja ela latina ou grega, sequer latinista ou helenista, mas reforçou meu lado de palpiteira que acredita cegamente em suas paixões. O fato de ser incapaz de julgar as traduções, por exemplo, não me incomoda, o que sei é que a língua utilizada por Florence Dupont me satisfaz e gosto muito das colocações dela sobre o desafio que é traduzir Sêneca para o teatro contemporâneo, enfatizando a importância de transmitir o efeito emocional ao espectador sem trair o sentido original do autor latino, buscando equilibrar a aproximação ao público moderno e o respeito ao distanciamento do texto clássico para garantir uma experiência teatral envolvente. 

Eu já sabia da escolha pela tradução portuguesa, assinada pelo pesquisador português Ricardo Duarte, para essa montagem, mas foi ao ler uma entrevista do Gabriel, concedida a Maria Fernanda Vomero, da Revista Carta Capital, onde ele dizia claramente que “queria o texto em um português mais sisudo, mais robusto” que entendi o motivo. 

Não creio que seja absurdo entender a opção feita como um ato de resistência à atrofia do pensamento, como costumo chamar o efeito causado pela invasão das telas que destroem todo e qualquer interesse por algo mais do que 150 caracteres e algumas imagens vistas, sem que sejam realmente vistas. Afinal, o teatro é ainda um dos poucos redutos de resistência e Gabriel, meu eterno Dom Quixote. 

Da mesma forma não seria exagero dizer que montar uma tragédia antiga de Sêneca – na íntegra, pelo que consigo ver folheando lado a lado as traduções da Florence e do Ricardo Duarte – no Brasil de hoje, é muito mais que uma opção artística ou estética. Num momento em que a reflexão se tornou rara, agradeço a Gabriel, afinal, em tempos líquidos, oferecer ao público algo que exija dele um pouco de reflexão, já me parece enorme. 

Após diversas leituras – sempre em francês, até conseguir, graças a Claudio Fontana, o texto utilizado por eles em português – tantas que, sou incapaz de dizer quantas vezes li Medea. Após acompanhar os ensaios finais e ter visto três representações, minha paixão pelo texto é ainda maior. Amo o fato de Sêneca atribuir a responsabilidade dos atos humanos aos próprios indivíduos, vivemos nos tempos da geração tudo lhes é devido, mas nada lhes é cobrado, isso soa como música em meus ouvidos. E sou completamente fascinada pela transformação de Medea, e com a cara exposta diante dos olhos do público, passando do sofrimento a um poder destrutivo absoluto, que me deixa incapaz de julgá-la. Por outro lado, o fato de ter compreendido o significado da frase de Florence Dupont: “em Sêneca, torturamo-nos com as palavras” explica plenamente meu embarque total na nau Argo, com a neta do Sol. Nada como a força do verbo. 

Escrito no primeiro século da era cristã, em Roma, o texto dialoga com o tempo presente, o de Sêneca e o nosso, sempre me assusto como os clássicos – não por acaso são clássicos – pois são mais atuais que muitos dos ditos “modernos”, esses, quase sempre os sinto completamente indiferentes à história do mundo. Como Carlos Drummond, Sêneca com certeza preferiria ser eterno a ser moderno. Nele está a violência que corrói nossos dias, dentro de nossas casas e nas ruas, tanta que está cada vez mais normalizada, estão as guerras religiosas, as guerras intestinas, que ocupam o planeta e para as quais não encontramos solução, está também o desrespeito pelas mulheres, trazendo como consequência o feminicídio. Está tudo ali, como se Sêneca estivesse a nos mostrar que a violência e a vingança levam a um beco sem saída. Não importa se contra os homens ou a natureza. Paradoxalmente, ao longo de sua produção filosófica, ele nos incentiva a desenvolver um "tratado de indulgência mútua", no qual possamos buscar entender o outro em sua diferença.

Enfim, como necessitamos de beleza e esplendor para encarar as nossas tragédias contemporâneas, deixemos de lero-lero e passemos agora para as coxias do Teatro Anchieta, onde encontrei abrigo na noite de 31 de janeiro de 2026. 

Fiz esse enorme desvio, páginas e mais páginas, um verdadeiro “nariz de cera” (jargão dos meus anos no jornalismo impresso no século passado), porque achei necessário contar para vocês que ao chegar na fronteira entre o sagrado e o profano, que compõem o teatro, eu já estava completamente seduzida pelo texto da Medea do Sêneca, pela encenação do Gabriel, pelo elenco, reunido por ele, que nos cala com a força do verbo tão bem dito a ponto de silenciar verdadeiramente a plateia. 

Claudio Fontana (Creante), Jorge Emil (Jasão), Plínio Soares (Ama), 
Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro (coro)
Fotos: João Caldas
Ou seja, entrei na coxia ungida e abençoada pelo trabalho de ourivesaria desenvolvido por todos e cada um, sob a batuta daquele que é para mim, o melhor ourives que conheço quando se trata de TEATRO. E ele estava ali, ao meu lado. Ou melhor, eu estava ali, ao lado dele. Quem teria me concedido esse privilégio que me coloca, com alguma frequência, tão próxima de pessoas absolutamente geniais? Logo eu, uma tembezinha (descendente dos Tembé), nascida num país chamado Pará, que nada indicava que fosse sair da Domingos Marreiros, no Umarizal, para transitar entre a elite cultural não apenas do meu país, mas também da capital da França, Paris, desde sempre, e por todo o sempre, minha maior referência. 

A preocupação primeira era segurar a respiração e conter os movimentos para não fazer barulho, nem incomodar com a minha presença, atores e técnicos nesse momento em que eles dão vida a um espetáculo, a mais uma representação. Incorporei Gasparzinho, o fantasma camarada, e misturada aos muitos fantasmas habitantes do próprio teatro ali permaneci muda. 

O burburinho que antecede os minutos anteriores a abertura do pano desapareceu. Instalou-se quase que imediatamente uma sensação de apneia coletiva, diga-se de passagem, já sentida por mim quando vi Medea da plateia, e que muito me impressionou. Tenho um olhar muito crítico em relação ao público brasileiro, que é por natureza barulhento, e essa característica mostra-se de forma mais incisiva na dificuldade em respeitar alguns códigos de conduta exigidos em determinados ambientes. Não raro, celulares tocam, as pessoas tecem comentários sobre o espetáculo, os papéis de bala nunca faltam, mais ou menos como a tosse, essa é presença obrigatória, o verdadeiro arroz de festa das salas de teatro. Não se ouvia nada. 

Aliás, ouvia-se sim, a resposta de uma plateia lotada completamente seduzida pela força, pela crueldade e pela indescritível beleza de um texto ao qual os ouvidos de hoje não estão acostumados, mas o que eles ouvem fala de nós, e isso os cala para aguçar a compreensão. Como dizem no texto do programa, Gabriel e Ivan Andrade – diretor adjunto do espetáculo – discorrendo sobre o pensamento de Artaud, “a corporeidade do verbo senequiano faz com que com que sintamos crepitar cada sílaba, o que cria por si só, uma fala trágica rica de teatralidade”.

A visão oferecida pela coxia fez com que eu perdesse a frontalidade que fortalece o discurso dos atores, mas ao me tirar a visão frontal do espetáculo visto da plateia, afinou meus ouvidos, oferecendo-me como presente contemplar a beleza dos solilóquios e a singularidade das vozes de cada ator, vozes que se misturam aos elementos cenográficos, e assim, mais do que encantada pelo texto, descubro a poesia das palavras tão somente, ditas pela vozes – sem microfones, eventualmente uns potes de barro no papel das ânforas gregas – e a verdade digna dos grandes atores que estão em cena. 

Discípula que sou de Bibi Ferreira, para quem a voz era a única coisa indispensável a quem quisesse ser ator, tenho enorme admiração pela importância que Gabriel sempre deu a voz, a calibração da voz, valorizando ainda mais a força de um texto que precisa ser ouvido. E que vozes temos nesse espetáculo. Em entrevista a Davi Galantier Krasilchik, para a Folha de S. Paulo, Mariana Muniz demonstra a importância da voz “sinto e me alimento das vozes delas (elas são Rosana Stavis e Walderez de Barros) como força para impulsionar minha personagem.”

Como disse logo no início desse texto, eu já havia visto e fotografado três ensaios, assim como os atores em seus camarins, acompanhando a maquiagem feita por Claudinei Hidalgo, sob o olhar atento de Gabriel, tinha descoberto os figurinos e os elementos cênicos, sempre com a ajuda da Ana, fiel escudeira da trupe como toda boa camareira. 

Ou seja, antes de ver Medea da coxia, eu já tinha adquirido uma certa intimidade com tudo o que estava vendo meio que de viés naquele momento. A diferença é que antes vi peça por peça, ator por ator, figurino por figurino, cena por cena, pude tocar em cada um deles, observar os detalhes, mas naquele exato momento, bem pertinho de mim tudo estava em movimento como parte integrante de uma engrenagem que encanta. Quem conhece a estética do Gabriel, se não sabe, pelo menos imagina, a emoção de poder acompanhar esses momentos que o barro termina de virar santo. Esse barro que o liga a sua terra, sua Carmo do Rio Claro, de onde ele nunca saiu, presente em quase todos os seus espetáculos, como que a mantê-lo com os pés na terra já que a cabeça há muito voa com a ajuda de carros alados e ninguém segura. 

Ao lado dele contemplava a sobriedade exuberante da luz de Wagner Freire e observava o casamento perfeito com as cores do cenário – deslumbrante para variar – de JC Serroni. Entre palácios gregos e o circo mambembe da infância do diretor, nos interiores da Gerais, Serroni constrói um espaço lúdico, e arremata com uma cortina de boca de cena simplesmente deslumbrante. Até agora não consegui me decidir qual é a mais bonita, a da Medea ou a do Estado de sítio. 

Foto: Deolinda Vilhena

No programa da peça, Serroni assim explica o que vemos em cena:

“uma encenação onde a natureza apresenta-se representada nos figurinos e na cenografia por meio de vários elementos. Tudo está nas sombras, no escuro, nas cinzas e no desgastado pelo tempo. Algumas pinceladas de vermelho, um pouco de ouro envelhecido das ruinas gregas, mas o que predomina é a violência.”

Uma das marcas do trabalho de Gabriel é a riqueza dos figurinos, assinados por ele, dos adereços e de todos os elementos que compõem a visualidade da cena, como as máscaras concebidas por Shicó do Mamulengo e Junior Soares. Os tecidos – que ele chama de “paninhos” – garimpados por ele, em cada canto desse mundo por ele andou, anda e andará, transformam-se em verdadeiras obras de arte, alta costura feita artesanalmente, tornando-os praticamente indescritíveis. É necessário vê-los para compreender a força que possuem e o porquê de eles serem fundamentais na construção dos personagens, tenho a sensação de que eles têm vida própria, quando na verdade eles deveriam ganhar vida no corpo dos atores. Em alguns momentos conversei com eles, mas fiquem tranquilos, não me responderam, embora eu tenha entendido tudo o que eles tinham para me dizer. 

Como não falar da sensação de ver a entrada e saída dos atores de cena? Ora para ajustes no figurino, ora para retoques na maquiagem, ora para um gole de água, ora para uma observação do diretor. À exceção de Dame Walderez de Barros, que estava no lado oposto ao que eu estava, acompanhei os movimentos de cada um deles, buscando compreender o que se passa na cabeça de um ator nesse curto espaço de tempo entre uma cena e outra, quando a crueldade do texto exposta nos atos atrozes de alguns personagens ainda são a “realidade”. É possível deixar de ser Medea por três minutos quando uma atriz sai para trocar de roupa? 

Aliás, o trabalho dos atores de Medea, e faço questão de citar nominalmente cada um deles, começando por Walderez de Barros, que aos 85 anos faz uma participação especialíssima emprestando toda a força de sua aura e sua credibilidade à Medea. Sua presença merece todos os aplausos, em cena aberta inclusive. Aos grandes devemos reverências.  Walderez tem a seu lado Mariana Muniz e Rosana Stavis – não menos deslumbrantes – as três com suas características próprias, nos oferecem mais do que a interpretação de um personagem. Elas nos dão verdadeiras aulas de interpretação, de movimento cênico, de utilização da voz, talentos cultivados ao longo dos anos nos palcos desse país. Como gostaria que meus alunos da Escola de Teatro da UFBA pudessem vê-las em Medea.  

Mas a peça, embora se chame Medea, não é um monólogo. Completando o elenco temos Jorge Emil (Jasão), Claudio Fontana (Creonte), Plínio Soares (Ama), Letícia Teixeira (coro) e Gabriel Sobreiro (coro). Observei uma coisa interessante, ao vê-los ensaiar e depois vê-los em cena, corre entre eles uma energia de teatro de grupo, de trupe permanente, tal o patamar de jogo que eles alcançam. Um elenco formidável, cujo nível de atuação reforça a intensidade e a imensidão dos personagens e do texto de Sêneca. E que vozes, senhoras e senhores, que vozes. 

Foto: Deolinda Vilhena

A cada vez que vejo um espetáculo do Gabriel, sinto que renovo não apenas a minha fé no teatro, mas uma forte convicção, que vejo por vezes um tanto quanto adormecida, a me dizer que, enquanto existirem criações como Medea  e tantas outras obras-primas assinadas por ele, não apenas o TEATRO continuará vivo, como não poderemos dizer, apesar do Khamenei, do Trump, do Putin, do Netanyahu, do Xi Jinping e de tantos outros, apesar dos desastres climáticos, do degelo polar aos incêndios criminosos na Amazônia, apesar das Big Techs, que a civilização está morta. 

Por isso, ao me aproximar do fim dessa longa “prosa” virtual, não posso deixar de agradecer a determinação e a perseverança da dupla Claudio Fontana e Gabriel Villela, um produzindo e outro fazendo arte, assim como agradeço ao SESC São Paulo que há anos confia na qualidade dos espetáculos assinados pelos dois. 

Ao final desses dias, e dessa noite em especial, reinserida num mundo do qual ando um tanto quanto afastada, embora há quase cinquenta anos ele seja parte importante da minha vida, depois de ver, vivenciar e apreciar tudo aquilo que me foi oferecido com o requinte e a delicadeza de quem decanta e depois degusta um Romance-Conti, serei obrigada a fazer uma pequena, mas significativa, alteração na fala final de Jasão, quando ele diz para Medea que se prepara a partir: “vai testemunhar de uma vez por todas por onde passares que os deuses não existem.”

Depois de ter visto a Medea, que era do Sêneca e que hoje é do Gabriel, mas também de cada um de vocês, irei testemunhar por onde passar que os deuses existem. E, em nome desse testemunho, espero que eles continuem inspirando e habitando vocês por muito tempo, concedendo vida longa a essa Medea, que outras tantas pessoas, em muitas outras plateias possam ser ungidas com a força cênica e a explosão de beleza desse espetáculo. E que esses mesmos deuses não me desamparem e me permitam reencontrá-los em muitas outras coxias. 


Deolinda Vilhena

PS – Para quem chegou até aqui informo que publiquei sem revisar, sem me atentar a norma alguma, isso é apenas o meu blog,  considero esse texto, um texto em processo, voltem para conferir ajustes. Vai te parte II - A Missão. 


FICHA TÉCNICA E SERVIÇ MEDEA

Foto: Deolinda Vilhena


FICHA TÉCNICA
Autor: Sêneca
Tradução: Ricardo Duarte
Direção: Gabriel Villela
 
Elenco: Walderez de Barros (participação especial), Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro
 
Cenografia: J. C. Serroni
Figurinos: Gabriel Villela
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora Original: Carlos Zhimber
Diretor Adjunto: Ivan Andrade
Assistente de Direção: Gabriel Sobreiro
Costureira: Zilda Peres
Máscaras: Shicó do Mamulengo e Junior Soares
Assistente de Cenografia: Débora Ferreira
Pintura de Arte e Texturização: Beatriz Leandro, Débora Ferreira, Flávia Bittencourt e 
Camila Myczkowski
Cenotécnicos: Alicio Silva e Douglas Vendramini
Assistentes de Cenotecnia: Theo Piazzi, João Portella e Benilson Alves
Costuras Cenográficas: Flávia Bittencourt
Músicos Convidados: Daniel Doctors, Luca Frazão e Gustavo Souza
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Assistente de Maquiagem: Patrícia Barbosa
Fotografia: João Caldas Fº
Assistente de Fotografia: Andréia Machado
Ilustração do Morcego: Guilherme Crivelaro
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto
Diretor de Palco: Diego Dac
Operador de Luz: Rodrigo Sawl
Operador de Som: Ricardo Oliveira
Camareira: Ana Lucia Laurino
Produção Executiva: Augusto Vieira
Direção de Produção: Claudio Fontana


SERVIÇO MEDEA

Temporada: PRORROGADA ATÉ 15 DE MARÇO 
Local: SESC Consolação (Teatro Anchieta)
Endereço: Rua Dr. Vila Nova, nº 245 – Vila Buarque – São Paulo.
Telefone para informações: (11) 3234-3000
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Valor dos Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia-entrada) e R$ 21 (credencial plena).  
Venda “on-line”, em centralrelacionamento.sescsp.org.br, e no App Credencial Sesc SP
Venda presencial, nas bilheterias do Sesc São Paulo
Duração: 80 minutos
Classificação Etária: 16 anos
Gênero: Tragédia


GALERIA DE FOTOS DE MEDEA POR DEOLINDA VILHENA

Foto: Deolinda Vilhena
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O belíssimo cenário de J.C. Serroni, sempre um espetáculo à parte
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Mariana Muniz (Medea) nada se compara a ver uma grande atriz em cena
Foto: Deolinda Vilhena
Vermelho sangue, vermelho vísceras, e a luz de Wagner Freire
Foto: Deolinda Vilhena
Ivan Andrade, diretor adjunto, faz os últimos ajustes antes do espetáculo com o elenco
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Rosana Stavis poucos momentos antes de entrar em cena 
Foto: Deolinda Vilhena
Papo de coxia entre Claudio Fontana (Crente) e o diretor Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Em busca da perfeição Gabriel ajusta os cabelos de sua Medea (Rosana Stavis)
Foto: Deolinda Vilhena
A beleza das máscaras 
Foto: Deolinda Vilhena
A delicadeza e a poesia estão presentes em todos os acessórios 
Foto: Deolinda Vilhena
Os figurinos de Gabriel, ah os figurinos do Gabriel!
Foto: Deolinda Vilhena
A riqueza dos detalhes, detalhes que fazem a diferença
Foto: Deolinda Vilhena
Tocar nos "paninhos" do Gabriel Villela um sonho de muita gente 
Foto: Deolinda Vilhena
Gabriel, Mariana e Claudio e as flores enviadas pelo SESC - SP
Foto: Deolinda Vilhena
O bom humor de Claudio Fontana, meu produtor preferido, posando para essa que vos escreve
Foto: Deolinda Vilhena













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