Boca de Ouro do Nelson? Não, do Gabriel!
Malvino Salvador é Boca de Ouro
Foto: João Caldas
Existem pessoas que vão ao teatro ver um ator. Outras que vão ao teatro interessadas no autor. Outras ainda vão ao teatro ver um espetáculo assinado por tal diretor. E, outras ainda que como eu, vão ao teatro ver como um certo diretor vai contar a história escrita por um determinado autor.
Quando vou ver o Boca de Ouro de Nelson Rodrigues, não vou pelo Nelson Rodrigues, vou para ver o que o gênio do Gabriel Villela vai fazer de um texto, que dizem os que entendem disso, não está entre os melhores do Nelson. Se fosse pelo Nelson Rodrigues me bastaria ler o texto. Desde que o teatro e minha vida se entrelaçaram, entre a literatura dramática e a encenação, sempre preferi a encenação, desde que bem feita, é óbvio.
No caso de Boca de Ouro ainda mais. Por que? Porque com todo o respeito a Sábato Magaldi, devo confessar que nem toda a admiração que sempre nutri por ele foi capaz de me fazer amar Nelson Rodrigues. Ainda que algumas características da sua obra me fascinem: a crítica social e o humor cruel, cruel porque trabalhado lado a lado com uma feroz ironia. Sem falar na crítica à imprensa, que em tempos de fake news, de redes sociais e de formadores de opinião profissionais, mostra-se atualíssima e confirma a ausência de imparcialidade dos meios de comunicação desde sempre.
Quando anunciaram a estreia de Boca de Ouro dirigida por Gabriel Villela estava eu em Paris, na mesma hora postei na página de Claudio Fontana – o produtor, a seguinte frase: “estou rogando uma praga para essa peça fazer o maior sucesso e ficar muito tempo em cartaz, assim chegarei ao Brasil a tempo de vê-la em cena”. Os anjos disseram amém, estava eu falando de um arcanjo.
Mel Lisboa (Celeste) e Malvino Salvador (Boca de Ouro)
Foto: João Caldas
O fato de Gabriel ser um exímio contador de “causos”, despertou ainda mais a curiosidade de quem estava longe, que cara teria o Boca de Ouro desse homem, que há anos é meu encenador preferido no Brasil? Com o Imaginai! do Dib Carneiro Neto e do Rodrigo Audi nas mãos revia as fotos dos trabalhos desse mago da cena, que nos últimos trinta anos dirigiu mais de quarenta peças, todas trazendo suas impressões digitais na alma. De Shakespeare a Nelson Rodrigues, passando por Calderón de la Barca, qualquer autor visitado por Gabriel será sempre apresentado ao público pelo olhar desse menino grande das Minas Gerais. É exatamente esse olhar que me interessa. É o que tem de Gabriel que em cada texto montado por ele que me seduz.
Assisti a algumas montagens de textos de Nelson Rodrigues, a mais recente foi a encenação de Jorge Farjala para Dorotéia, e cheguei a achar que, apesar da montagem belíssima, gostar de Nelson não caberia jamais na minha cartilha.
Li o texto – obrigada – na época que decidi fazer faculdade de teatro. Aos 18 anos não me interessava em nada um texto que parte de uma reportagem policial sobre a morte de Boca de Ouro, famoso bicheiro que teria mandado substituir todos os dentes por próteses de ouroe cujas as ações se desenvolvem em quatro espaços: o consultório do dentista, a redação do jornal O Sol, a casa de Guigui e, ao final, o Instituto Médico-legal. Nem mesmo o fato de saber que o autor oferece ao público três versões do protagonista, contadas por sua ex-amante, Dona Guigui e todas elas alteradas em função do estado de espírito da criatura, era atrativo suficiente.
Mas isso foi até o momento que vi no palco do Teatro Guaíra um Boca de Ouro que começa com Cidade Maravilhosa, envolto em confete e serpentina e onde dedais imitam à perfeição o som dos dedos no teclado das antigas máquinas de escrever. Mineiro e de circo, Gabriel traz no seu matulão e na sua cartola segredos os mais diversos, mas convenhamos que, se no caso do bicheiro foi elementar para ele tirar da manga confetes, serpentinas e máscaras, para contar a história, afinal ele sabe que o carnaval tem raízes fincadas em Madureira, a ideia genial dos dedais ele foi buscar no fundo do baú.
Claudio Fontana (Leleco) e Malvino Salvador (Boca de Ouro)
Foto: João Caldas
Desse mesmo baú ele tira as músicas, que são muito mais que aquilo que se estabeleceu chamar de trilha sonora, são verdadeiros diálogos travados com o texto mesmo quando não são contemporâneas ou, sequer conterrâneas dos textos encenados. Tem sido assim a tal ponto, que a cada peça do Gabriel eu levo comigo uma canção de souvenir. Com Boca de Ouro não foi diferente. Canções mais ou menos conhecidas, com destaque para A Noite do meu bem, Na Cadência do samba e Não deixe o samba morrer interpretadas à perfeição por Mariana Elisabetsky, traduzem fielmente os morros e a vida do Rio de Janeiro contado por Nelson.
Entretanto, não posso negar que a inserção de Ne me quitte pas, clássico de Jacques Brel – como Boca de Ouro escrita em 1959 – e De Frente pro crime, da imbatível dupla Aldir Blanc e João Bosco compõem dois dos mais belos momentos do espetáculo, com nota mil para o coro sublime em De frente pro crime, de chorar de tão bonito, de doer de tão perfeito. Aliás, se há uma coisa a pontuar nos trabalhos do Gabriel é o trabalho da direção musical e a preparação vocal, aqui assinadas por Babaya; somado ao trabalho de espacialização vocal e antropologia da voz, aos cuidados da maga italiana Francesca Della Monica.
O requinte e a sofisticação da obra de Gabriel sempre me levam a compará-lo com a alta costura – Eric Ruf convida Christian Lacroix para fazer figurinos na Comédie-Française porque não conhece Gabriel, o Yves Saint-Laurent do teatro brasileiro – e são perceptíveis nos mínimos detalhes. Tive o privilégio de ver Babaya no palco do Teatro Guaíra, antes do espetáculo, sim eles chegam duas horas do espetáculo que com Gabriel ninguém brinca de fazer teatro, e sobre essas duas horas escreverei em outra ocasião.
Fiquei impressionada com o trabalho que vi, a presença de Babaya em Curitiba comprova o que sempre soube e está em cena em cada espetáculo de Gabriel: a exigência desse menino grande das Minas Gerais. A explicação para a necessidade da presença de Babaya era simples: concebido para um teatro de arena de cerca de 600 lugares, a peça seria apresentada no palco do Teatro Guaíra – imenso – com plateia e balcão com capacidade para 2.100 pessoas. Era preciso dar aos atores condições vocais para as apresentações sem microfoná-los individualmente – crime de lesa-majestade no teatro de Gabriel. Num país em que atores se apresentam microfonados em qualquer sala de mais de 180 lugares, tiro o chapéu para o trabalho artesanal desse teatro composto de atos de delicadeza e respeito com o público que paga para ouvir o texto dito pelos atores.
O elenco de Boca de Ouro
Foto: João Caldas
E o elenco nisso tudo? Comecemos pelo protagonista. Malvino Salvador é uma surpresa dupla: pela belíssima presença em cena e por não se intimidar diante de atores do porte de Chico Carvalho, Lavínia Pannunzio, Claudio Fontana e Mel Lisboa.
Chico Carvalho que vi como Ariel em A Tempestade – com Bibi Ferreira apertando com força minha mão a cada intervenção dele – e como Peer Gynt na peça homônima, depois de vê-lo nos papéis de Caveirinha e Maria Luísa confirma minha impressão inicial: é um dos maiores, senão o maior ator da sua geração. E ainda encontra tempo para fazer Doutorado na UNICAMP sob a batuta de Marcelo Lazzaratto, chapeau!
Lavínia Pannunzio, impagável na construção de Dona Guigui fez com que eu me perguntasse por onde tenho andado que ainda não a tinha descoberto, e que voz, potente e agradável desfiando suas versões sobre as verdadeiras (?) histórias do bicheiro carioca. Na cena em que canta Ne me quitte pas ela conquista corações em definitivo.
A dupla Mel Lisboa e Claudio Fontana merece destaque. Mel Lisboa que, como Solveig, em Peer Gynt já tinha mostrado que no palco era muito mais que a ninfeta que um dia, no começo do século, seduziu o Brasil em Presença de Anita, apresenta uma atuação complexa e faz de Celeste seu grande momento no teatro, as indicações para prêmios não me deixam mentir. Claudio Fontana, cria um Leleco que usa e abusa de um certo ar melancólico como que a disfarçar sua falta de caráter, aproveitando a opção da direção pelo melodrama, ele aposta sem medo numa atuação afetada, onde a comicidade funciona como álibi para suas inúmeras safadezas.
Dito isso, concluo que em matéria de elenco não há motivo para queixas. Há diferenças? Claro que há. Mas, numa orquestra sinfônica, só no naipe dos violinos, existem o spalla, os primeiros e os segundos violinos, o importante é que cada um cumpra seu papel. É o que acontece em Boca de ouro. Seja com Cacá Toledo, Guilherme Bueno e Leonardo Ventura. Seja com o pianista Jonatan Harold. Seja com Mariana Elisabetsky, atriz-cantora ou cantora-atriz que usa e abusa do timbre de voz à la Dalva de Oliveira para marcar seu território no cabaré parisiense ou na gafieira carioca dos anos 50? Tanto faz, nessa época o Rio era a capital da República e ainda vivia seus tempos de pequena Paris dos trópicos.
O elenco todo joga o jogo do diretor, e nos momentos em que Gabriel os transforma em testemunhas da ação, acaba por reforçar a magia desse “ensemble”, são momentos especiais esses em que os atores “assistem” a história.
Chico Carvalho (Maria Luísa)
Foto: João Caldas
Não posso finalizar sem tocar em algo que mexe muito comigo na obra de Gabriel Villela: a assustadora beleza das cenas de morte, incomoda-me a sensação de ver beleza na morte. Em Peer Gynt cheguei a afirmar que, ao ver a cena da morte da mãe ao som de Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, eu finalmente completava o luto da morte de minha mãe, que não havia feito por estar ausente das cerimônias de despedida. Em Hoje é dia de rock, a cena da morte do pai, Pedro Fogueteiro é outro momento de cortar o coração de tamanha beleza, e foi entre soluços que eu a vi no Teatro Ipanema e na segunda vez, no Guairinha. Em Boca de Ouro, Gabriel excede, morte é coisa que não falta na obra rodriguiana. As mortes de Leleco, Celeste e do próprio Boca são dignas de um capítulo numa tese sobre a presença da morte no teatro de Gabriel Villela.
O que Gabriel, na minha modestíssima opinião devolveu ao texto de Nelson Rodrigues, foi o humor irônico, presente na obra do autor, mas que muitas vezes é deixado de lado. A excessiva valorização do trágico fez com que eu colocasse as obras de Nelson na categoria de teatro desagradável. Afirmo, sem medo de errar, que entre os muitos acertos pontuados no espetáculo do Gabriel, esse é sem dúvida um dos que contribuiu para que eu saísse plena do Teatro Guaíra. Não apenas eu, mas as mais de duas mil pessoas que lotavam o teatro, um feito a ser registrado nos dias tenebrosos em que vivemos, pois como bem disse recentemente Fernanda Montenegro, a cultura teatral brasileira está no fundo de um precipício.
PS1 – Essas são só as impressões da primeira vez que vi Boca de Ouro, na quarta fila do Guairão. Tenho outras muito especiais do dia que, abençoada pelos anjos e ao lado do arcanjo Gabriel, tive o privilégio de ver esse espetáculo da coxia. Aguardem...
PS2 – Boca de Ouro tem apresentações marcadas nos dias 12 e 13 de maio no Palácio da Cultura, em Campo Grande (MS) e de 18 a 20 de maio no Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS). Eu se fosse você não perdia tempo, garanta logo seu ingresso.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela
Elenco: Malvino Salvador (Boca de Ouro), Mel Lisboa (Celeste), Claudio Fontana (Leleco), Lavínia Pannunzio (Guigui), Leonardo Ventura (Agenor), Chico Carvalho (Caveirinha e Maria Luisa), Cacá Toledo, Guilherme Bueno, Mariana Elisabetsky, Guilherme Bueno e Jonatan Harold (ao piano)
Iluminação: Wagner Freire
Direção Musical e preparação Vocal: Babaya
Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica
Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo
Fotos: João Caldas
Produção executiva: Luiz Alex Tasso
Direção de produção: Claudio Fontana







Análise séria, rigorosa, completa, objetiva e emocional ao mesmo tempo. Parabéns pela sensibilidade. Que esse blog dure muitos e muitos anos. Dib Carneiro Neto
ResponderExcluirMeu caro Dib, ter um comentário como o primeiro comentário desse blog é um excelente prenúncio. Beijos soteropolitanos.
ResponderExcluirParabéns, minha querida amiga. Seu texto é belíssimo e absolutamente perfeito, transportando o leitor direto para o espetáculo. É como se estivéssemos todos na platéia, quer dizer, melhor seria se estivéssemos mesmo. Mas deixa a gente com água na boca....lindo mesmo. Sua sensibilidade e seu talento só não me espantam mais porque já conheço ambos há bastante tempo. Parabéns de novo. Beijos e mais beijos.
ResponderExcluir