Um Tchekhov na cena soteropolitana


     Marcelo Praddo, Isadora Werneck e Gideon Rosa
Foto: Adenor Gondim
 Estava em Paris quando recebi um e-mail comunicando que Gil Vicente Tavares assumiria a direção de um espetáculo da Companhia de Teatro da UFBA. Mesmo sendo um dramaturgo premiado, pendurou o ego no vestiário e escolheu montar nada mais, nada menos que Um Vânia, versão de Tio Vânia, um dos maiores clássicos do teatro mundial e primeira montagem de Anton Tchekhov numa Companhia fundada "com o compromisso de difundir um padrão estético e técnico de excelência para as artes cênicas, (...) logo se transforma num espaço para a integração de ensino e pesquisa teatral, incorporando, no elenco de cada montagem, ao quadro fixo de docentes, alunos estagiários e artistas convidados.”[1]
Em meio a infinidade de noticias ruins que chegavam do Brasil, essa parecia me dizer: nem tudo estava perdido. Vários motivos contribuíam para me fazer, quase acreditar, que um dia ainda daremos certo: o primeiro era ver um ex-aluno da Escola de Teatro, cria da casa, diretor artístico do Teatro NU que não apenas se impôs na cena baiana, como se transformou num dos únicos coletivos da Bahia a frequentar os festivais nacionais e que hoje integra o quadro de professores da instituição. Ou seja, alguém que fez o dever de casa ao longo dos anos e hoje colhe os louros. Filho de Ildásio Tavares, Gil poderia ter optado por viver de “mimimi”, optou pelo trabalho e mais, em Salvador, assumindo um karma ou uma missão. 
O segundo, ver à frente desse “núcleo de pesquisa e extensão, criado em 1981, preocupado em atingir parâmetros de excelência nos espetáculos (...) objetivando divulgar a dramaturgia universal, valorizar a montagem de textos inéditos em Salvador e colocar os alunos em contato com importantes linhas do teatro, levando para a comunidade produções de alto nível, trabalhando com a diversidade e a criação de novos valores e significados.” [2]um nome capaz de honrar o capital cultural e simbólico da Companhia, herdeira da Barca de Martim Gonçalves respeitando os ideais que datam da fundação da mesma, e que, de forma agressiva e equivocada vêm sendo questionados pela geração do tudo lhes é devido e nada lhes deve ser cobrado. 
Como se não bastasse Gil resolve, com Um Vânia, homenagear Gideon Rosa, lenda viva da história da companhia, onde inscreveu seu nome desde sua chegada na Escola de Teatro, em 1981, após ter sido aprovado num concurso para Ator, tendo como função principal auxiliar os então estudantes de teatro nas diversas produções da Escola e posteriormente integrando o elenco da companhia. Por motivos de saúde desde 2011, quando fez Fim de Partida, ao lado de Harildo Déda, com encenação de Ewald Hackler, Gideon estava afastado dos palcos, entretanto ele não fala em retorno, mas de um “(...) momento marcante de uma trajetória interrompida que teve o privilégio de encontrar mestres no teatro e na vida,a exemplo de Zoila e Ari Barata, Yumara Rodrigues, Harildo Déda, Deolindo Checcucci, Ewald Hackler, Cleise Mendes, Paulo Dourado, Nelson de Araújo e outros colegas de cena que foram deixando suas marcas em mim. Indeléveis.”[3]
Não satisfeito ainda, Gil fez mais. Reconhecendo o valor da prata da casa, formou um elenco de ex-alunos da ETUFBA: Alethea Novaes, Marcelo Flores e Marcelo Praddo. Atores cujas carreiras bem sucedidas, os desobrigariam de qualquer compromisso com a Escola de Teatro, ainda que tenham nela as suas origens, mas, leais que são, cultivam o respeito à casa e aos mestres. Gil foi ainda mais longe e abriu às portas da companhia a geração que ainda está em formação, foi assim que selecionou por meio de audição Isadora Werneck presenteada com o papel de Sonia. Aluna então do quarto semestre da graduação ela agarrou a oportunidade e retribuiu recebendo uma indicação para o Braskem de Melhor Atriz, não é de Revelação, é de Melhor Atriz. 
Para completar a equipe, Gil fez uma série de audições para assistente de direção, assistente de iluminação, assistente de cenografia, assistente de produção, assistente de comunicação e de mediação cultural, engajando assim os alunos de hoje num projeto da companhia que, mesmo sendo um projeto de extensão dos professores, sempre foi de todos, desde que guardado o devido respeito. Abriu ainda duas vagas para assistentes de figurinos. 
Com essa atitude Gil permitiu que a companhia exercesse com plenitude sua função de contribuir para a formação do alunado, permitindo que nossos alunos vejam montagens que jamais verão nessas terras, terras onde reza a lenda “farinha pouca meu pirão primeiro” e onde se faz um teatro incestuoso, misto de ação entre amigos, onde muitos se interessam em falar de si em atitude de total desprezo para com o público, que por preferir que falassem com e para ele, acabou por abandonar as salas de espetáculo. 
A vontade de montar Tio Vânia acompanhava Gil Vicente há pelo menos sete anos, mas as dificuldades são inúmeras e montar um clássico da dramaturgia universal nas terras do Senhor do Bonfim, nas terras de Borba Gato também, é uma aventura. Ao contrário do que se passa nas grandes capitais europeias, e mesmo nas pequenas, onde os grandes clássicos são montados e remontados anualmente. Gil alega que “os problemas de mentalidade, falta de visão das gestões públicas, falta de interesse da iniciativa privada e um público cada vez mais disperso e desmotivado fazem com que Anton Tchekhov permaneça sem ter suas obras primas nos palcos da Bahia.”, mas nada disso foi suficiente para fazê-lo desistir da ideia. Exatamente por acreditar na força do texto de Tchekhov, na receptividade dele pelo público soteropolitano e por ter consciência da necessidade e da importância de fazê-lo. Gil revela programa do espetáculo que resolveu montar a peça “dando a ela um caráter diferente, na encenação. Concentrei-me na trama dos cinco personagens principais da peça escrita para nove atores, e estou buscando a proximidade do público para que o drama de Tchekhov chegue mais perto e acaricie a plateia com palavras, suores, olhares e gestos ao alcance de uma mão.”
O diretor não se enganou. Em diversos momentos, aproveitando-se da não existência de coadjuvante nesse teatro, onde todos os personagens têm o mesmo valor humano, temos a certeza de que a felicidade que todos estão a buscar, por mais inatingível que pareça, encontra-se na plateia. Personagens habitados pela desilusão, pelo desencanto e pela frustração, mas que num olhar ou numa frase dita para a plateia, deixam subentender que ainda não se apagou a última chama, que garante a esperança e a coragem.


Gideon Rosa como Alexandre Serebriakova
Foto: Adenor Gondim
O elenco é um presente para qualquer encenador. Sempre concordei com Barbara Heliodora que dizia que não há “nada como o prazer de ver mais uma vez comprovado, em cena, que o melhor teatro é feito de texto + ator, tratando da condição humana”. 
Começando pelo grande homenageado. Gideon Rosa integra o grupo seleto dos atores baianos que, na simples entrada em cena informam que um ator está no palco. E quando ele diz a primeira fala, impossível não pensar na afirmação de Procópio Ferreira: o ator é o atleta da palavra. Que voz! Que dicção! Não se perde uma palavra. Numa terra como Salvador, onde pelo menos duas gerações estão comprometidas com a falta de trabalho vocal e a insistência em microfonarem salas com menos de 200 lugares, o prazer de ouvir um ator é incomensurável. 


Marcelo Praddo é Vânia
Foto: Adenor Gondim
E o que dizer de Marcelo Praddo? No mínimo, que faz um Vânia comovente. Impossível não se tornar cúmplice quando ele faz o balanço de uma vida dedicada ao cunhado, ouvir com tristeza o lamento de quem perdeu sua vida por dedicá-la ao outro. No embate entre Vânia e Alexandre, quem ganha é a tristeza, a tristeza de dois homens que constatam não ter conhecido a felicidade e acabam obrigando os que estão ao seu lado a suportar o peso da velhice. Mas em verdade, quem ganha mesmo é o público. 


Marcelo Flores e Alethea Novaes
Foto: Adenor Gondim
Marcelo Flores tem a responsabilidade de dar credibilidade a Astrov, uma das personagens mais caras a Tchekhov, além de médico dedicado é um ativista social, preocupa-se com o progresso, planta árvores, desenha mapas, admira o belo, não por acaso é na boca de Astrov que Tchekhov coloca a frase: “Numa pessoa tudo deve ser bonito: o rosto, o vestuário, a alma, os pensamentos”. Marcelo faz com muita verdade, intercalando em doses exatas, humor e melancolia, ao ouvi-lo dizer o texto abaixo, num dos momentos mais verdadeiros do espetáculo, cheguei a me questionar se era mesmo Tchekhov ou se as mãos do dramaturgo Gil Vicente Tavares haviam resolvido optar pela delação premiada e entregar a vida na nossa província: 

“Os nossos conhecidos mais próximos são, sem exceção, limitados no pensar e no sentir, não enxergam um palmo adiante do nariz – ou seja: são estúpidos. Os mais inteligentes ou de mais valor são histéricos, consumidos pela análise, pela reflexão... Esses vivem se lamentando, se odiando, caluniam uns aos outros de modo doentio, nos abordam de esguelha e nos olham de viés e constatam: “Oh, esse é um psicopata:”, ou “esse é um tagarela”! E quando não sabem como nos tachar, então dizem: “Sujeito estranho, aquele, muito estranho!” Eu gosto dos bosques – isso é estranho; não como carne – isso também é estranho. A relação com a natureza e com as pessoas não é mais uma relação espontânea, pura e livre... Não é não.”.  

Alethea Novaes é Helena 
Foto: Adenor Gondim
Alethea Novaes faz uma Helena que ao mesmo tempo expõe a chama brilhante da mulher bonita que atrai todos os homens e mostra a tristeza de uma mulher casada com um homem muito mais velho. Tristeza sentida na frase "Oh, eu pensei que era isso o amor, eu não sabia, eu era muito jovem". Mas ao falar de Astrov com Sonia, ela parece ter descoberto tarde demais, o que é o amor: “Minha querida” – diz Helena a Sonia – “é o talento! E tu sabes o que é o talento? A coragem, a cabeça livre, a ampla visão... Planta uma árvore e já adivinha o que daí resultará dentro de mil anos, já vê o bem-estar da humanidade. Os homens assim são raros, é preciso amá-los...”.


Marcelo Flores e Isadora Werneck
Foto: Agenor Gondim
Isadora Werneck faz com delicadeza e graça, a solitária Sonia. Unida ao tio por um misto de ternura e decepção com a vida, Sonia tem um comportamento mais adulto que o do próprio Vânia, mesmo ao ver sua solidão ampliada quando, em lágrimas, compreende que o amor por Astrov é um amor sem futuro. Isadora não se intimidou diante do desafio e para ela deixo as palavras de Ariane Mnouchkine ditas durante a formatura 75ª turma da Escola Nacional Superior das Artes e Técnicas do Teatro: 

“Eu creio na imaginação, na liberdade, mas também na pontualidade, eu creio na fantasia das palavras, mas também na cordialidade, esse mínimo da ritualização de nossa vida cotidiana. Eu creio na generosidade do jogo cênico e da ação, mas antes de tudo eu creio na generosidade da escuta. (...) Vocês precisam terrivelmente uns dos outros. Se não quiserem compartilhar o saber, a prática, vocês serão menos fortes, menos felizes, menos satisfeitos.”

Tchekhov é um mestre entre os mestres, seu teatro é vivo, universal e atemporal, a montagem de Gil Vicente consegue transpor essas qualidades para a cena. Impossível sair do teatro, depois de compreender que a fala de Astrov não era um “caco” do diretor, mas texto de Tchekhov, sem sentir o coração apertado. Um Vânia revelou não apenas as esperanças frustradas e ou momentos desperdiçados pelos personagens de Tchekov, mas os vividos por mim. Essa dimensão humana dos personagens, com todas as suas emoções e fragilidades, fez com eu revisse num curto espaço de tempo a minha própria história: a de uma pessoa que vive num tempo e num lugar em que não se reconhece, sem saber o que fazer para mudá-lo e incapaz de compreender o mundo, seja aquele construído pelos que vieram antes de nós, seja o que deixaremos para os que virão depois de nós. Uma certeza apenas: a imensa província que se transformou o Brasil não é em muito diferente, da entediante e provinciana Rússia do século XIX, com as mesmas apavorantes perspectivas de futuro. Afinal, como bem disse Lévi-Strauss, citação escolhida por Gil e incrustrada no texto de Tchekhov, “aqui tudo parece que é construção, e já é ruína.”. 
E eu entendi ao sair do espetáculo o que disse Patrice Pavis, em 1986, quando da publicação do texto em livro de bolso: a identificação muito forte do público com os personagens; creditando isso a elementos patéticos ou trágicos que asseguram uma certa catarse, muitas vezes temperada por uma ironia sensata. O efeito Vânia é uma mistura de distância irônica, de ternura desiludida, de vulnerabilidade oculta, compartilhada entre Vânia e o espectador, durante o espaço de uma representação.
Segundo Luiz Fernando Vianna, em artigo publicado em O Globo, em 3 de novembro de 2011, “nenhum ator passa incólume pelo papel de Vânia. E nenhum espectador que tenha assistido a uma montagem ao menos razoável da peça de Tchekhov esquece essa história que, mesmo tão fincada no contexto da Rússia do fim do século XIX, poderia se passar em qualquer lugar, em qualquer tempo. Afinal, sempre haverá pessoas com vertigem ao verem que o tempo passou e elas não foram capazes de realizar parte do que desejavam.”[4]
Vocês têm dois dias, sábado e domingo para ir ao ICBA e descobrir uma montagem muitos degraus acima do razoável...eu recomendo! Gabriel Villela, eu se fosse você viria para Salvador.

Foto: Deolinda Vilhena
UM VÂNIA, DE TCHEKHOV
Teatro do Goethe-Institut (ICBA) - Salvador, BA
Avenida Sete de Setembro, 1809, Vitória
19 e 20 de maio – às 19h30
http://www.teatronu.com/um-tchekhov-de-volta-em-curtissima-temporada/




[1]COMPANHIA de Teatro da UFBA. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: 
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao633839/companhia-de-teatro-da-ufba>. Acesso em: 18 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
[2]Raimundo Matos de LEÃO. Abertura para outra cena: o moderno teatro da Bahia. Salvador: Fundação Gregório de Mattos: EDUFBA, 206, p. 237.
[3]Gideon ROSA. Programa do espetáculo Um Vânia. Distribuído ao público no Teatro do ICBA.
[4]Luiz Fernando VIANNA. Grupo Galpão traz de volta à cena Tio Vânia, personagem de Tchekhov que fascina artistas.Disponível em https://oglobo.globo.com/cultura/grupo-galpao-traz-de-volta-cena-tio-vania-personagem-de-tchekhov-que-fascina-artistas-2705839Acessado em 18/05/2018

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