Nuon ou quando a Ave Lola pousa no Rio

Helena Tezza em Nuon
Foto: Maringas Maciel

Lendo o release de Nuon, que estreia no Rio hoje, encontrei essa frase, segundo dizem, um ditado oriental: “contra a dor, só a beleza”. Achei duplamente perfeita. Em primeiro lugar para o que sinto sempre que vejo os espetáculos de Ariane Mnouchkine, Gabriel Villela e Omar Porras, por vezes acontece de encontrar outros antídotos, mas dessa trinca de ases é fatal. Em segundo lugar porque me preparava para fazer algo que não faz muito o meu tipo: escrever sobre um espetáculo que não vi, mas que eu sei ser feito por gente capaz sim de criar o belo e de curar muitas dores. Por ter a certeza de que no momento atual, o que mantém vivo o teatro são pessoas como as que compõem uma trupe como a Ave Lola, afirmo sem medo de errar: eles são fundamentais. 
Conheci Ana Rosa Tezza por intermédio de Jean-Jacques Lemêtre, sim o todo poderoso mago da música teatral, mundialmente conhecido e reconhecido por sua parceria com a feiticeira dos meus sonhos teatrais, Ariane Mnouchkine. Jean-Jacques sempre me falava da Ana Rosa e da sua Ave Lola. Graças as redes sociais e a internet começamos um contato virtual, se não me falha a memória, em 2011. 
Em março desse ano, quando da estreia de Hoje é dia de rock, texto de José Vicente poeticamente encenado por Gabriel Villela, no Teatro Ipanema, vi no programa a foto e o nome de Helena Tezza, imediatamente identifiquei como filha da Ana Rosa e descobri naquela noite uma belíssima jovem atriz. Ao abraçar Helena, ao final da apresentação, pedi a ela que avisasse sua mãe que nosso encontro tinha os dias contados: eu iria ao Festival de Curitiba acompanhando Omar Porras.

Almoço na sede do Ave Lola dia 29 de março de 2018

O encontro comprovou que tudo aquilo que o Théâtre du Soleil reúne é por demais precioso, afinal dizem os franceses qui se ressemble, s’assemble. Passei um dia inesquecível na Ave Lola, a generosidade da acolhida, o afeto estampado nos olhos, a cumplicidade nos sonhos, o almoço delicioso, a vontade de voltar. Não, mais que isso, a vontade de ficar. De fazer parte. Voltei para ver a Batalha de Improvisação da Cia. dos Bondrès com Thomas Nogueira, sim o filho da Fabianna Mello e Souza que conheci ainda menino num distante maio de 2000, em chefe de trupe. Voltei no domingo com Omar Porras, ele também seduzido pelos meninos e meninas queria conversar com eles, e com Babaya Morais. No mesmo dia estava por lá o Eduardo Moreira, sim um pedaço do Grupo Galpão. Sem falar na Maria Adélia. Ou seja num mesmo momento o espaço da Ave Lola recebia o Teatro Malandro na figura de Omar, uns raios eternos do Soleil, uma parte do Galpão e via Babaya um muito do Gabriel Villela. Ou seja: a minha família teatral. Precisava de motivo maior para recomendar Nuon mesmo sem ter visto o espetáculo? 

Foto: Maringas Maciel

Nuon, o espetáculo

Partindo da guerra do Camboja  Nuon fala de todas as guerras. Porque “todas as guerras são iguais na medida em que empurram as pessoas à perda dos valores simbólicos que os estruturam enquanto indivíduos, seres civilizados e enquanto sociedade. 
Ainda que o assunto abordado possa sugerir uma forma épica, a encenação de Nuon opta por um caminho intimista e constrói cenas que evidenciam a dor das pessoas no momento em que se dão conta de sua impotência frente ao caos gerado por decisões políticas e sociais das quais elas não participam. 
A perda dos afetos, da educação, da civilidade, da solidariedade humana e principalmente a interrupção de sua capacidade de gerar poesia e valor simbólico. Tudo o que constitui a ideia de humanidade fica suspenso e sucumbe à barbárie. 
Nuon aborda temas atuais. Os personagens se encontram em situações onde estão obrigados a escolher entre viver em meio a dor e a brutal desconstrução de suas referências ou morrer em uma tentativa de resgatar, ainda que por um último instante, sua humanidade. 
Por meio da beleza estética que o oriente inspira, a peça faz uma reflexão sobre guerra, refugiados, fronteiras, imigração e a perda dos valores humanos. 
A obra escolhe o silêncio, o belo e a poesia para falar da dor do atroz e da perda de tudo. 
A temporada de Nuon em Curitiba foi coroada com 11 indicações para o Gralha Azul (2016) – maior premiação teatral do Paraná – e premaiada em seis categorias: melhor ator coadjuvante – Marcelo Rodrigues de Oliveira, melhor atriz coadjuvante – Janine de Campos e Helena Burmann Tezza,  melhor iluminação – Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski, melhor figurino – Eduardo Giacomini e melhor sonoplastia – Mateus Ferrari.


Uma mulher chefe de trupe: Ana Rosa Tezza e a Ave Lola

Por trás desse sucesso existe uma mulher: Ana Rosa Tezza. A autora e diretora de Nuon é antes de tudo uma apaixonada pelo teatro e dona de um entusiasmo concedido a poucos, graças a essas duas características ganhou o mundo cedo. Atuou em Santiago do Chile na Companhia de teatro Sombrero Verde então dirigida por Andrés Peres Araya, um ex-ator do Théâtre du Soleil e grande figura do teatro chileno. Integrou como atriz e pesquisadora o núcleo de criação teatral do Ateliê de Criação Teatral, coordenado por Luís Melo, onde posteriormente ministrou oficinas de interpretação e participou do projeto de investigação teatral Cartas Cartas Cartas. 


Fundadora e diretora da Ave Lola Espaço de Criação, que se define como “um local onde artistas inquietos sonham e trabalham juntos por um fazer artístico poético e humano inserido no seu tempo histórico”, Ana Rosa é ao mesmo tempo chefe de trupe e coordenadora dos projetos de intercâmbio teatral que a Ave Lola vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos. Entre eles destacam-se os intercâmbios com artistas do Thêatre du Soleil (França), Cia dos Bondrés, Fabiana de Melo e Souza (Brasil – Rio de Janeiro) e Jaime Lorca do teatro “Viajeinmóvil” (Chile). 
Nos últimos seis anos, a trupe montou três espetáculos: O Malefício da Mariposa (2012), Tchekhov (2013) e Nuon (2016), que atingiram um público de aproximadamente 38 mil pessoas em apresentações nacionais e internacionais, com reconhecimento da crítica especializada. A forte presença da trupe na cena paranaense é comprovada pelas premiações nas mais diversas categorias, de todos os espetáculos por ela produzidos. 
Em sua sede, localizada no centro de Curitiba, a Ave Lola possui uma sala de teatro onde realiza temporadas de suas produções teatrais, exposições, oficinas e recebe companhias do Brasil e do mundo que dialogam com sua linguagem. 
Mas, se a base da Ave Lola é Curitiba, as asas batem e eles voam cada vez mais distante e a trupe não esconde sua vontade de conquistar o Brasil e o mundo. Com o projeto Ave Lola Rumo ao Rio Negro vencedor do prêmio Myriam Muniz da Funarte e com o Brasil Fronteiras do Norte patrocinado pela Petrobras, ambos executados em 2015, a trupe conseguiu levar o teatro para as comunidades ribeirinhas da região norte do país, percorrendo em apenas três meses aproximadamente 7.000 km entre sete cidades, abrangendo mais de 20 comunidades ribeirinhas. 
Vocês que chegaram até aqui não podem perder a ocasião de ver Nuon nessa temporada carioca, mas acima de tudo façam um alerta Google com o nome de Ana Rosa Tezza e outro com o nome da Ave Lola, assim vocês serão prevenidos quando eles baterem as asas pelos lados de vocês e quando isso acontecer, não percam a oportunidade de conhecer uma trupe, no mais nobre sentido do termo, que aposta na beleza para curar as dores da humanidade e como se isso não fosse suficiente, eles fazem isso com um sorriso nos lábios, reflexo do que trazem no coração.  

Foto: Maringas Maciel

FICHA TÉCNICA NUON
Texto e Direção: Ana Rosa Tezza
Elenco:
Evandro Santiago, como Arun, Kim, Sambath e Diretor do Campo de Refugiados; Helena Tezza, como Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa;
Janine de Campos, como Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan;
Marcelo Rodrigues, como Tã e Mestre Viseth;
Regina Bastos, como Nuon
Músicos: Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari
Composição Musical: Mateus Ferrari
Figurinista: Eduardo Giacomini
Cenógrafo: Fernando Marés
Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski
Plástica do Personagem e Máscaras: Maria Adélia
Operador de Luz: Jean Carlos Sanchez
Design Gráfico: Sergio Trevisan
Contrarregra: Mozart Machado
Cenotécnico: Felipe Gustavo Casagrande
Produção: Dara van Waalwijk van Doorn e Laura Tezza
Comunicação: Larissa de Lima
Realização: Ave Lola e as Meninas Produções Artísticas LTDA
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Foto: Maringas Maciel

SERVIÇO NUON
Local: Teatro Ipanema Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema 
Informações: Tel.: 21 2267-3750 
Horários: sábado, domingo e segunda às 20h30 
Ingressos: R$ 20, 00 e R$ 10,00 (meia-entrada) na bilheteria do Teatro Ipanema. Funcionamento bilheteria: de quinta a segunda-feira, 01h antes de cada espetáculo
Compra antecipada: R$ 24,00 (inteira) / R$ 12,00 (meia-entrada) na pelo Site Ticket Mais / Vendas pelo site: https://ticketmais.com.br/evento/view/26934/nuon / / Capacidade: 193 lugares 
Classificação Etária: 16 anos 
Temporada: até 03 de julho, com sessões extras nos dias 29/06 e 03/07  



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