70 anos da estréia de Estado de Sítio

Barrault, Balthus e Camus - Estado de Sítio - 1948

Há dias que, em cada brecha de tempo, me debruço sobre Estado de Sítio, peça em três atos de Albert Camus, por dois motivos: o primeiro é abrandar a ansiedade, a proximidade da estreia da montagem de Gabriel Villela mexe com esse ser curioso que sou; agravado pelo tempo de espera, foi em março, durante o Festival de Curitiba que Gabriel me falou que esse seria seu próximo espetáculo. O segundo é que a força das palavras de Camus ao mesmo tempo em que permitem que eu fuja um pouco da angústia desses momentos sombrios que vivemos, me ajudam a compreender melhor o quê se passa, afinal a realidade política daqueles anos do pós-guerra, calcada na força e no medo, tem muitas semelhanças com a nossa:

“PESTE: Olhe para mim: eu sou a própria força! 
DIEGO: Tire o uniforme. Dispa-se. Quando os homens da força tiram o uniforme, não são mais bonitos de se ver! 
PESTE: Talvez. Mas a força deles é ter inventado o uniforme.”

 Jean-Louis Barrault, Maria Casarès e Albert Camus 

Relendo alguns artigos e críticas, descobri hoje, que há exatamente setenta anos, jour pour jour como dizem os franceses, no dia 27 de outubro de 1948 acontecia a estréia mundial de Estado de Sítio, mais precisamente no Théâtre Marigny, em Paris. Direção de Jean-Louis Barrault, música de Arthur Honegger, cenários e figurinos de Balthus, no elenco Pierre Bertin, Madeleine Renaud, Pierre Brasseur, Maria Casarès, Albert Medina, Marie-Hélène Dasté (para quem não sabe, filha de Jacques Copeau), Jean-Louis Barrault, Charles Mahieu e Régis Outin. Produção da Companhia Renaud-Barrault.

Companhia  Renaud- Barrault montagem de Estado de Sítio - 1948

Como não acredito em coincidências, mas acredito muito em bruxas, resolvi abrir o blog em edição especial e assim compartilhar – além da curiosidade – uma fotos da montagem de 1948 e do belíssimo teatro de Marigny, localizado ao lado da mais bela avenida do mundo, a Avenue des Champs Elysées. Aliás, depois de cinco anos fechado para obras, o Marigny será reinaugurado no próximo dia 14 de novembro, com uma adaptação para o teatro do filme de Jacques Démy, com música de Michel Legrand, Peau d’âne, grande sucesso de Catherine Deneuve no cinema. 

 Cenário de Balthus para a montagem de Estado de Sítio em 1948

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a peça deixo aqui um trecho da dissertação de mestrado de Sandra de Pádua Castro, Peste e estrangeiridade em Estado de Sítio de Albert Camus[1]

“O tema do absurdo, da injustiça, da revolta coletiva e da solidariedade é apresentando em Estado de Sítio, sob a encarnação da epidemia da peste em uma personagem que é o próprio totalitarismo. A Peste, representada por um homem, depõe o governo, instaura o estado de sítio na cidade de Cádiz, subordina os habitantes e destrói as vidas. Os indivíduos, seviciados, não possuem a coragem necessária à revolta. Dentre eles, Diego percebe a absurdidade, incita os conterrâneos à revolução e enfrenta a Peste e a Morte. No momento em que estava para vencê-las, Vitória, sua noiva é atingida pela epidemia. Ele pactua com a Peste pela vida de Vitória e pela libertação de Cádiz. Entrega-se tragicamente, e a realização dessa tragédia destitui o regime totalitário e afasta a epidemia. Não elimina, mas altera a realidade da Peste. 
A peça possui algumas semelhanças com o romance A Peste (1947), tais como o fato de a epidemia irromper primeiramente nos bairros pobres e o descaso dos políticos. Também há algumas proximidades entre alguns personagens do romance e da peça, tais como, respectivamente, padre Paneloux e o Cura; os balseiros que se apresentaram para repatriar Rambert e o barqueiro mercenário corrompido por Diego para afastá-lo da epidemia; e Cottard e a figura do Nada. Os protagonistas como Rieux e Diego assemelham-se na profissão da medicina, mas divergem na ação e na interioridade: tiveram formas diferentes de encarar o absurdo. Apesar das semelhanças perceptíveis, Camus nega que a peça seja uma adaptação do romance. Porém, certamente, os estudos realizados pelo escritor, para o romance, puderam sustentar a elaboração de Estado de Sítio.”


Jean-Louis Barrault, Arthur Honneger et Albert Camus
Foto: Roger-Viollet

A estreia da adaptação de Gabriel Villela está marcada para 8 de novembro, no SESC da Vila Mariana, com início das vendas anunciado para a próxima terça-feira, dia 30 de outubro. No elenco nomes como Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Arthur Faustino, Cacá Toledo, Daniel Mazzarolo, Kauê Persona, Marco França, Mariana Elisabetsky, Nathan Milléo Gualda, Pedro Inoue, Rogério Romera, Rosana Stavis e Zé Gui Bueno. Ao lado do diretor que também assina os figurinos, o auxílio mais do que luxuoso de J C Serroni na cenografia, Babaya e Marco França na direção musical, Domingos Quintiliano na iluminação, Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo, como diretores assistentes, e last but not least Luiz Alex Tasso na produção executiva e Claudio Fontana na direção de produção.  

Théâtre Marigny onde estreou em 27/10/1948 Estado de Sítio

Eu se fosse vocês não vacilava, só o que nos salva da barbárie é a arte, e o teatro em especial, assinado por Gabriel Villela é tiro certo, e como diria Camus: “Se diz, geralmente, que [o teatro] é o lugar da ilusão. Não acreditem nisso. A sociedade é que vive na ilusão, e vocês encontrarão, certamente, menos maus atores no teatro que na cidade. Tome um desses atores não profissionais que figuram nos nossos salões, nas administrações ou mais simplesmente nas salas dos generais. Coloque-o sobre esta cena, neste lugar exato e despeje sobre ele quatro mil watts de luz, e a comédia não se manterá mais, vocês o verão, todo nu, na luz da verdade.”[1]


[1]Albert CAMUS. Conferénce sur la tragédie. In Théâtre, récits, nouvelles. Préface par Jean GRENIER; édition établie et annotée par Roger Quilliot. Paris: Gallimard, 1962. (Bibliothèque de la Pléiade), p. 1725.

Interior do Théâtre Marigny 
Foto: Julien Benhamou

PS - Gabriel e Claudinho, no dia 7 de novembro próximo Albert Camus completaria 105 anos, posso ver o ensaio geral? Prometo que levo o bolo...

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