Ao Mestre com Carinho
Jacó Guinsburg em seu escritório
Foto: Divulgação
Conheci Jacó Guinsburg primeiro através dos livros, depois como aluna de Mestrado da Escola de Comunicações e Artes da USP passei a conhecer a legenda Jacó Guinsburg um dos mais respeitados professores daquela casa, onde formaram-se os maiores nomes dos teóricos e estudiosos do teatro no Brasil.
Quando voltei de Paris, com o título de Doutora pela Sorbonne e minha tese debaixo do braço, recomendada por Edla Van Steen e Sábato Magaldi, dois dos meus maiores incentivadores, procurei por ele no escritório da Perspectiva.
Um tanto envergonhada, entreguei a ele os dois volumes da tese Les Modes de production du Théâtre du Soleil à l’aune de production théâtrale française : une exception dans l’exception culturelle?
Jacó folheou com interesse, perguntou-me se poderia deixar com ele e disse: posso publicar, mas não tenho como arcar com as despesas de tradução. Prometi a ele que tentaria usar meus conhecimentos e minha experiência de produtora para buscar o dinheiro necessário.
O tempo passou, a busca por um lugar como professora na universidade ocupou meu tempo e acabei adiando a publicação da tese. Depois que entrei na UFBA voltamos a nos encontrar, mais uma vez prometi que a tradução da tese passaria a ser um objetivo primordial. Mas mais uma vez a universidade atrapalhou meus passos, entrar na universidade é só um detalhe, demarcar seu território e dizer a que veio ocupa muito tempo. E quase doze anos depois da defesa na Salle Bourjac minha tese continua inédita no Brasil.
Em 2009 Jacó Guinsburg foi homenageado pelo Prêmio Shell de Teatro por sua contribuição ao pensamento crítico do teatro no Brasil. Desde 1965, quando fundou a Editora Perspectiva, dividiu-se por longos anos entre o ensino de teatro e a atividade editorial, suprindo a carência bibliográfica das artes cênicas em português, trabalhando não só na publicação, mas na tradução de obras fundamentais sobre o tema. Foi como o homem que ajudou a manter viva uma arte conhecida por sua efemeridade, que foi homenageado pelo Prêmio Shell de Teatro.
Na época escrevia para o Terra Magazine – foram quase sete anos como colunista de teatro, atendendo a convite de Fernanda Verissimo, que indicou meu nome a Bob Fernandes – e fiz uma coluna sobre a publicação de livros e revistas de teatro no Brasil, achei por bem prestar a ela minha modesta homenagem. Reproduzo aqui a parte da coluna de 24 de abril de 2009 dedicada a Jacó Guinsburg, não estava em São Paulo ontem para me despedir dele, faço-o agora, usando palavras muito mais pobres do que as que ele tão bem usava, mas cheias de carinho, gratidão e respeito.
“CHAPEAU” PARA JACÓ GUINSBURG
O grande homenageado do Prêmio Shell
(...) Não sei se entre meus leitores todos conhecem Jacó Guinsburg, na dúvida, aproveito a ocasião para prestar uma homenagem a esse crítico, ensaísta e professor, cuja importância Sábato Magaldi, meu mestre maior, assinala no prefácio de “Da cena em cena”, livro publicado em 2001 e que aborda aspectos relevantes de concepções e correntes estéticas no teatro, no qual diz que Jacó Guinsburg “é ensaísta de primeira grandeza - rigoroso, culto, conhecedor profundo de seu objeto de estudo, e se movimenta com desenvoltura pela estética, pela filosofia e pela arte, em que o teatro se tornou o foco privilegiado, além de dispor de sóbria elegância no domínio do idioma.” Professor de “Estética Teatral”e “Teoria do Teatro”da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, aposentado desde 1991, Jacó foi homenageado, em 2001, com o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo, na qual orientou – e ainda orienta – c muitos dos maiores nomes da pesquisa teatral no Brasil – entre os quais destaco Sílvia Fernandes, Antônio Araújo e Cibele Forjaz.
No mês passado, durante a festa de entrega do Prêmio Shell aos melhores do teatro de 2008 em São Paulo, Jacó foi o grande homenageado da noite e, na hora dos agradecimentos, sua conhecida generosidade se fez presente: fez questão de dividiro prêmio com seus companheiros de crítica Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Maria Teresa Vargas, todos autores publicados pela Perspectiva.
Muitas são as razões para que um prêmio de teatro seja outorgado a um homem que há anos aposta no teatro, mas esse reconhecimento deveu-se em grande parte aos acervos nacional e internacional ofertados por Jacó, enquanto autor e editor, ao público e aos estudiosos de teatro ao longo dos anos. Arquivos dedicados à análise e à difusão do teatro, e dos quais fazem parte, mais diretamente, cerca de 200 títulos, entre peças, críticas e estudos.
Autor, entre outros,de “Stanislávski e o Teatro de Arte de Moscou”; “Leoni de’ Sommi: um Judeu no Teatro da Renascença Italiana”; “Diálogos sobre Teatro”; “Aventuras de uma Língua Errante: Ensaios de Literatura e Teatro Ídiche”; “Stanislávski, Meierhold e Cia.”; além de tradutor de obras de Diderot, Lessing, Nietzsche, entre outras, Jacó é também omais importante especialista em teatro russo e ídiche entre nós, semiologista e teórico do teatro. Na Enciclopédia de teatro do Itaú Cultural, no verbete a ele dedicado encontramos bem mais que Diretor Presidente da Editora Perspectiva, mas como o grande desbravador “especialmente do campo da estética e dos estudos teatrais com uma notável linha editorial, cujos títulos já se constituem em bibliografia obrigatória.”
Vou ficar na torcida para que algum dos meus 17 leitores encaminhe essa coluna ao Jacó e quem sabe a Perspectiva mais uma vez salva a pátria e publica os livros da Béatrice e da Odette Aslan? Afinal, quem não chora não mama, segundo Bibi Ferreira é o “décimo primeiro mandamento”.
Mensagem enviada por Jacó Guinsburg
No mesmo dia, horas após a publicação da coluna no Terra Magazine, recebi essa mensagem de Jacó Guinsburg, com ela a certeza de que só aos grandes à humildade é concedida. Se ele não publicou o livro da Odette Aslan, um outro Meyerhold da Béatrice Picon-Vallin acabou sendo editado. Para felicidade de muitos.
Obrigada Jacó.


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