Estado de Sítio: alegoria contra todas as formas de opressão
Foto: João Caldas
Por isso o que vocês lerão aqui é sem compromisso de começo, meio e fim. Escrevi textos soltos e intercalados por fotos, podem ler trechos, podem ler tudo, podem simplesmente ver as fotos, mas o importante é dizer a vocês que nesse momento há no palco do teatro do SESC Vila Mariana, de quinta a domingo, apenas até o dia 16 de dezembro, quatorze atores em cena, respaldados por uma equipe amorosa e competente, regidas por um maestro da cena, que atende pelo nome de Gabriel Villela, a quem tenho vontade de colocar no colo e, tal e qual uma devota, agradecer pelo talento incomensurável, mas acima de tudo pela sua generosidade em compartilhar com simples mortais toda a sua genialidade.
Além do texto longo, outro problema se apresentou: escolher as fotos para ilustrá-lo. Missão quase impossível. Buscando uma solução, optei por criar uma galeria, mostrando não apenas as imagens da peça, que mais se parecem a quadros e como tal estarão para sempre expostos no meu museu pessoal, mas também algumas fotos das coxias do espetáculo, lembrando uma das muitas frases de Bibi Ferreira que orientam minha vida: não existe bom espetáculo se as coxias não forem amorosas e delicadas.
Sim, o texto é longo, mas longo foi o tempo investido por Gabriel e toda a sua equipe para colocar em cena um espetáculo digno de ser assim chamado. Agradecer a cada um deles tornou-se imprescindível, poderia dizer simplesmente “obrigada” e disse ao final de cada ensaio e de cada apresentação. Normalmente é tudo o que consigo dizer após um espetáculo que toca fundo as cordas da minha alma. Mas depois preciso de mais, e esse mais está aqui. Leiam, aos poucos se quiserem, mas leiam. E mais do que isso vejam Estado de Sítio porque mais do que falar de opressão e de totalitarismo, eles falam de amor, de união e de esperança, que podem, com certeza, vencer toda e qualquer forma de opressão.
Alegoria contra todas as formas de opressão e ode à liberdade
Foto: João Caldas
Aviso aos navegantes: o texto é longo, mas foi o permitido pelos deuses do teatro, os mesmos que me proporcionaram estar presente nos três últimos ensaios e nas três primeiras apresentações de Estado de Sítio. Impossível contar para vocês, não sou crítica teatral e há muito não exercito textos curtos para jornais, em poucas linhas, o muito que me foi dado ver nesses dias passados no SESC Vila Mariana em São Paulo. Também não é um texto acadêmico, sou antes de tudo uma mulher de teatro e nem todos os títulos, arduamente conquistados, mataram em mim o público de teatro que sou desde os 12 anos de idade. E é como público que falo de mais uma obra de Gabriel Villela. Escrevo com a paixão de quem aprendeu ao longo de 47 anos a ver teatro com o coração, de nada me interessa um espetáculo perfeito se não tocar minha alma. Há muito digo que o belo pelo belo não me interessa. Sou discípula dos versos de Paulo César Pinheiro, por isso, desde sempre, para mim, o importante é que minha (nossa) emoção sobreviva.
Por isso o que vocês lerão aqui é sem compromisso de começo, meio e fim. Escrevi textos soltos e intercalados por fotos, podem ler trechos, podem ler tudo, podem simplesmente ver as fotos, mas o importante é dizer a vocês que nesse momento há no palco do teatro do SESC Vila Mariana, de quinta a domingo, apenas até o dia 16 de dezembro, quatorze atores em cena, respaldados por uma equipe amorosa e competente, regidas por um maestro da cena, que atende pelo nome de Gabriel Villela, a quem tenho vontade de colocar no colo e, tal e qual uma devota, agradecer pelo talento incomensurável, mas acima de tudo pela sua generosidade em compartilhar com simples mortais toda a sua genialidade.
Além do texto longo, outro problema se apresentou: escolher as fotos para ilustrá-lo. Missão quase impossível. Buscando uma solução, optei por criar uma galeria, mostrando não apenas as imagens da peça, que mais se parecem a quadros e como tal estarão para sempre expostos no meu museu pessoal, mas também algumas fotos das coxias do espetáculo, lembrando uma das muitas frases de Bibi Ferreira que orientam minha vida: não existe bom espetáculo se as coxias não forem amorosas e delicadas.
Garanto a vocês que as coxias de Estado de Sítio são tão impressionantes quanto o espetáculo. O talento, o profissionalismo e a vontade de fazer o melhor caminham lado a lado com o respeito, o afeto e a delicadeza. Não sei se vocês precisam disso para viver, para mim, tem sido a cada minuto de vida mais do que necessário, fundamental e paradoxalmente, tão difícil de encontrar.
Sim, o texto é longo, mas longo foi o tempo investido por Gabriel e toda a sua equipe para colocar em cena um espetáculo digno de ser assim chamado. Agradecer a cada um deles tornou-se imprescindível, poderia dizer simplesmente “obrigada” e disse ao final de cada ensaio e de cada apresentação. Normalmente é tudo o que consigo dizer após um espetáculo que toca fundo as cordas da minha alma. Mas depois preciso de mais, e esse mais está aqui. Leiam, aos poucos se quiserem, mas leiam. E mais do que isso vejam Estado de Sítio porque mais do que falar de opressão e de totalitarismo, eles falam de amor, de união e de esperança, que podem, com certeza, vencer toda e qualquer forma de opressão.
Foto: João Caldas
Foi durante o Festival de Curitiba, em março passado, que Gabriel me contou que montaria Estado de Sítio, de Albert Camus. Desde então não foram poucas as vezes em que, em segredo, questionava a escolha. Por que montar uma das peças menos conhecidas de Camus? E mais, o que o leva um diretor a escolher uma peça que na estreia, em 27 de outubro de 1948, no Théâtre Marigny em Paris, obteve uma recepção tão negativa da crítica a ponto de Camus defini-la como um grande "fiasco" e Barrault confessar ter sido essa estreia seu "primeiro desgosto no teatro"?
Lembrei-me que recentemente Estado de Sítio tinha sido uma opção de Emmanuel Demarcy-Mota, diretor do Théâtre de la Ville e do Festival de Outono de Paris, a montagem, em 2017, obteve sucesso de público e fez turnê internacional, mas dividiu a crítica, sem nem de longe repetir o fiasco da montagem de Barrault que saiu de cartaz após 23 apresentações. Mas, ainda assim, provocou comentários ácidos de Fabienne Darge, crítica do Le Monde, que usou uma frase, nada gentil, de André Gide: “é com bons sentimentos que fazemos literatura ruim”, lamentando a escolha de Demarcy-Mota em “exumar uma peça desconhecida de Camus”. Não estava sozinha no meu espanto. Ainda que, ao contrário de Fabienne Darge, eu seja apaixonada pelo texto de Estado de Sítio, mas a crítica do Le Monde é ela.
Lendo uma entrevista de Demarcy-Mota encontrei a chave para a resposta. Ao falar de sua trupe, o Théâtre de la Ville tem uma trupe permanente, ele afirmava que uma pergunta comum os motivava nos dias de hoje: “que papel a arte pode desempenhar diante de perigos tão terríveis quanto os que estamos passando? E esta questão gostaríamos de responder: a arte pode nos servir para duvidarmos juntos, para questionar certezas, convenções, preconceitos, para avançar o pensamento, a verdade e não a escuridão. Diante dos instintos de morte, exaltar os poderes da vida.”
Fiquei pensando e cheguei a conclusão que a escolha de Gabriel não poderia ser mais acertada, afinal o que pode ser mais importante nesse século XXI que escolher uma peça que aborda temas como: a luta por valores humanistas contra os poderes do terror; a força do povo através de suas renúncias e revoltas; a impossibilidade de alguns aderirem a uma crença, a um ideal de qualquer espécie e à maneira como os leva a tolerar o pior; a autoridade dos "pais", reais ou simbólicos; o poder do amor, a liberdade inalterável dos indivíduos?
Conhecedor da obra de Camus, de quem já havia dirigido Calígula e da realidade brasileira, Gabriel optou por uma adaptação, e de cara acertou ao diminuir o número de atores, na versão original eram vinte e seis, ele trabalha com quatorze – número suficiente para inviabilizar uma produção no Brasil – e ao reduzir, de maneira considerável, a duração da peça, das três horas iniciais chegamos a uma hora e meia.
De forma inteligente e com total respeito ao texto de Camus, ele reorienta a peça para o essencial: o controle pelo medo que pode exercer o poder. Pontuando o mais importante do texto, que mesmo sendo permeado pela ideia do medo e o que ele provoca, o que resta para o espectador – pelo menos comigo foi assim – é o hino à liberdade, não por acaso é a obra que o próprio Camus achava mais parecida com ele mesmo.
Ou seja, Gabriel estava certíssimo, Estado de Sítio é atualíssima, gostem ou não é um texto que deveríamos, todos, estar lendo neste momento político incerto e controverso que atravessa não apenas o Brasil, mas o mundo, ou nos esquecemos que populismos e fascismos renascem na Europa?
Gabriel, que completa 60 anos em dezembro próximo, chamou para si a responsabilidade da denúncia e colocou em prática uma frase do discurso de Camus ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1957: " “Cada geração, sem dúvida, crê-se fadada a refazer o mundo. A minha, entretanto, sabe que ela não o refará. Mas sua tarefa seja, talvez, maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça.”.
Sua encenação para Estado de Sítio de Albert Camus, é uma ode ao teatro, onde os envolvidos no processo criativo e as visualidades da cena se unem, compondo um mosaico de teatralidades que a cada momento do espetáculo parecem confirmar as palavras de José Carlos Serroni:
Lembrei-me que recentemente Estado de Sítio tinha sido uma opção de Emmanuel Demarcy-Mota, diretor do Théâtre de la Ville e do Festival de Outono de Paris, a montagem, em 2017, obteve sucesso de público e fez turnê internacional, mas dividiu a crítica, sem nem de longe repetir o fiasco da montagem de Barrault que saiu de cartaz após 23 apresentações. Mas, ainda assim, provocou comentários ácidos de Fabienne Darge, crítica do Le Monde, que usou uma frase, nada gentil, de André Gide: “é com bons sentimentos que fazemos literatura ruim”, lamentando a escolha de Demarcy-Mota em “exumar uma peça desconhecida de Camus”. Não estava sozinha no meu espanto. Ainda que, ao contrário de Fabienne Darge, eu seja apaixonada pelo texto de Estado de Sítio, mas a crítica do Le Monde é ela.
Lendo uma entrevista de Demarcy-Mota encontrei a chave para a resposta. Ao falar de sua trupe, o Théâtre de la Ville tem uma trupe permanente, ele afirmava que uma pergunta comum os motivava nos dias de hoje: “que papel a arte pode desempenhar diante de perigos tão terríveis quanto os que estamos passando? E esta questão gostaríamos de responder: a arte pode nos servir para duvidarmos juntos, para questionar certezas, convenções, preconceitos, para avançar o pensamento, a verdade e não a escuridão. Diante dos instintos de morte, exaltar os poderes da vida.”
Fiquei pensando e cheguei a conclusão que a escolha de Gabriel não poderia ser mais acertada, afinal o que pode ser mais importante nesse século XXI que escolher uma peça que aborda temas como: a luta por valores humanistas contra os poderes do terror; a força do povo através de suas renúncias e revoltas; a impossibilidade de alguns aderirem a uma crença, a um ideal de qualquer espécie e à maneira como os leva a tolerar o pior; a autoridade dos "pais", reais ou simbólicos; o poder do amor, a liberdade inalterável dos indivíduos?
Conhecedor da obra de Camus, de quem já havia dirigido Calígula e da realidade brasileira, Gabriel optou por uma adaptação, e de cara acertou ao diminuir o número de atores, na versão original eram vinte e seis, ele trabalha com quatorze – número suficiente para inviabilizar uma produção no Brasil – e ao reduzir, de maneira considerável, a duração da peça, das três horas iniciais chegamos a uma hora e meia.
De forma inteligente e com total respeito ao texto de Camus, ele reorienta a peça para o essencial: o controle pelo medo que pode exercer o poder. Pontuando o mais importante do texto, que mesmo sendo permeado pela ideia do medo e o que ele provoca, o que resta para o espectador – pelo menos comigo foi assim – é o hino à liberdade, não por acaso é a obra que o próprio Camus achava mais parecida com ele mesmo.
Ou seja, Gabriel estava certíssimo, Estado de Sítio é atualíssima, gostem ou não é um texto que deveríamos, todos, estar lendo neste momento político incerto e controverso que atravessa não apenas o Brasil, mas o mundo, ou nos esquecemos que populismos e fascismos renascem na Europa?
Gabriel, que completa 60 anos em dezembro próximo, chamou para si a responsabilidade da denúncia e colocou em prática uma frase do discurso de Camus ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1957: " “Cada geração, sem dúvida, crê-se fadada a refazer o mundo. A minha, entretanto, sabe que ela não o refará. Mas sua tarefa seja, talvez, maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça.”.
Sua encenação para Estado de Sítio de Albert Camus, é uma ode ao teatro, onde os envolvidos no processo criativo e as visualidades da cena se unem, compondo um mosaico de teatralidades que a cada momento do espetáculo parecem confirmar as palavras de José Carlos Serroni:
“(...) é uma obra cheia de metáforas. É uma alegoria da ocupação, da ditadura, do arbítrio e do totalitarismo. Diria, uma peça simbolista. E se falamos em símbolos, em metáforas, em alegorias, em mitos, estamos falando do teatro de Gabriel Villela. Ninguém mais indicado que ele para encenar esse texto. Seu teatro é sempre impregnado de poéticas alegorias cênicas. Sem medos e sempre um elogio ao risco, tão carentes, hoje, em nosso teatro.”[1]
Estado de Sítio traz em si toda a força de revolta própria do ciclo camusiano ao qual pertence, força essa expressa tanto por certos personagens quanto pelo coro, essa voz do povo, que informa o espectador sobre as características vitais da terra e sua resiliência.
A ação se passa em Cádiz, cidade marítima da Espanha, onde a passagem de um cometa, anuncia a presença do mal representado pelo personagem da Peste e sua Secretária, que é nada mais, nada menos que a Morte, ambos personagens principais de uma verdadeira galeria de tipos desenhada por Camus. Galeria à qual se juntarão: o provocador e seu niilismo, o Nada; a burguesia representada pelo juiz e sua família, num contexto de tensões; o governador, deposto e transformado em mero executor de ordens; pessoas do povo, pescadores, mulheres, todos aturdidos.
Mas, como a melhor defesa sempre foi o ataque, eleva-se o grau do autoritarismo e o povo deve esquecer a passagem do cometa, a insistência em lembrar vai gerar a punição, afinal deve prevalecer “a vontade do governador”, ou seja, “que nada aconteça em seu governo e que tudo continue bem, como sempre foi”.
O totalitarismo impõe arbitrariedades, mentiras e assassinatos, e instala o terror manipulando as pessoas, mais do que isso, acaba por provocar a dissolução do coletivo: “éramos um povo, agora somos uma massa! (...) Sufocamos nesta cidade fechada.”. Até que um grito seja ouvido, e não apenas de pura contestação retórica, provocando o choque final: a rebelião convocada por Diego despertando as consciências com o objetivo de varrer a ditadura.
Mariana Elisabetsky (Vitória) e Pedro Inoue (Diego)
Foto: Andréia Machado
E essa consciência é despertada por dois jovens, Diego e Vitória, que não têm medo de proclamar que o amor é mais forte que o medo. É lindo ver o romantismo do jovem casal, interpretados por Mariana Elisabetsky e Pedro Inoue, com a força e a delicadeza exigidas, oscilando entre Romeu e Julieta e West Side Story, se misturar à metáfora política. Porque se Estado de Sítio é, de maneira muito transparente, uma alegoria da contaminação de uma ideologia fascista e de resistência à ditadura, a importância do amor diante da expressão da morte, da loucura do poder e da destruição, da solidão do homem diante de seu destino, não pode ser menosprezada, como nos lembra Serroni, no programa da peça:
"Que o espetáculo possa discutir e trazer à reflexão todas as questões levantadas, mas que o cometa que hoje brilhar possa inverter a ordem das crenças, e que Diegos não precisem se sacrificar por outras vidas. Que possamos atender uma vontade de Camus que chegou a dizer: “perceber-se-á bem que Estado de Sítio se trata de uma peça de cólera, mas sobre essa questão terei uma coisa a acrescentar: cheguei a pensar chamar o espetáculo de O Amor de Viver."
Conversando com Gabriel, após o ensaio geral, realizado na véspera da estreia para alunos de diversas escolas de teatro de São Paulo, ele me disse: “queria muito poder estar falando para eles de amor e de esperança”. Lembro-me de ter respondido: “Gabriel, ao despertar esses Diegos você está justamente semeando a esperança no coração de cada um deles.”
Num tempo onde notícias adquirem os mais variados tons de cinza e nos atordoam, a montagem de Gabriel Villela para Estado de Sítio, é imprescindível, porque como dizia Camus “se não podemos suportar tal mundo, devemos denunciá-lo. E, precisamente, a primeira coisa a ser feita é lançar um grito de revolta. Pois pelo menos metade do terror e da fatalidade é feita da inércia e da fatiga de indivíduos frente a princípios estúpidos ou más ações com as quais continuam a envenenar o mundo”.
Vendo a garra e a obstinação demonstrada pelos atores e por toda a equipe de criação, o total empenho em acompanhar Gabriel em seus voos mais espetaculares, Estado de Sítio além de ser, mais do que bem-vindo, cumpre uma missão fundamental em tempos sombrios: “denunciar e gritar, sempre que possível, na medida do nosso talento, por aqueles que estão subjugados como nós.”[2]
[1]José Carlos SERRONI. Um espaço sitiado. Programa do espetáculo Estado de Sítio.
[2]Albert CAMUS. Por que a Espanha? Resposta de Albert Camus a Gabriel Marcel. In: Estado de Sítio. Albert Camus; tradução de Alcione Araújo, Pedro Hussak. 2aed. – Rio de Janeiro: Record, 2018, pp. 228/229.
ELES FAZEM ESTADO DE SÍTIO
Elias Andreato e Claudio Fontana
Foto: João Caldas
Chico Carvalho, Pedro Inoue e Mariana Elisabetsky
Foto: João Caldas
Rosana Stavis, Marco França, Cacá Toledo e Rogério Romera
Fotos: João Caldas e Andréia Machado
Nathan Gualda, Zé Gui, Daniel Mazzarolo, Arthur Faustino e Kauê Persona
Fotos: João Caldas
O CENÁRIO DE ESTADO DE SÍTIO
Observando a relação de Gabriel com seus atores, e esse ano pude ver isso de perto em Curitiba e em São Paulo, uma coisa é clara: ele é um diretor que ama seus atores. Essa constatação me fez lembrar de Fabienne Pascaud falando de Ariane:
“Ariane Mnouchkine ama, adora os atores: vê-los atuar nunca deixa de fasciná-la. E porque eles sentem isso, o vivem a cada dia, os atores do Soleil lhe dão tudo. Como resistir a um senhor de guerra tão carismático? Eles treinam e buscam até a exaustão esse teatro épico, às vezes acrobático, sempre fortemente estilizado, articulado, com o qual sonha sua inspiradora. Com ela, eles aprendem a fortalecer a imaginação e os músculos, para encher esses espaços vazios esplêndidos e ricos de todas as possibilidades que ela venera. E a escutar o outro, a inventar juntos formas novas, e a escalar todos os Himalaias do teatro.”
Gabriel, com o auxílio luxuoso de Claudio Fontana à frente da produção, não mede esforços para que sejam alcançadas as condições necessárias à realização dos seus espetáculos. Visando à perfeição para atingir a beleza ele pode ir ao inferno buscando o que julga fundamental para trabalhar. Nesse caso, não precisou ir tão longe, fez uma curta viagem a Madri, mais especificamente ao Museu do Prado, acreditava que encontraria nas obras de Jheronimus Bosch (1450-1516) a chama da inspiração necessária. Mas, como reza a lenda que na história da arte, não há negro mais negro do que as pinturas negras Francisco de Goya (1746-1828), foi na fase mais sombria da vida de Goya que Gabriel encontrou o que buscava para nutrir o visual deu Estado de Sítio.
A mesma obsessão é vista nos figurinos. Gabriel costuma dizer que o figurino é a primeira pele do personagem, fico imaginando o que significa para um ator vestir um figurino criado como na “haute couture” – em francês porque é mais chic – e para quem não sabe a diferença entre alta costura e prêt-à-porter digo, bem basicamente, que o primeiro é feito com requinte artesanal e sob medida, enquanto o segundo a gente encontra pronto em qualquer Zara da vida. No dia 13 de setembro recebi, via WhatsApp, as primeiras fotos dos atores. Mais de dois meses antes da estreia. A isso chamo profissionalismo, rigor e competência.
Os mesmos cuidados são sentidos na maquiagem, Claudinei Hidalgo realçou o caráter grotesco e não realista dos personagens, e vendo os croquis feitos por ele e acompanhando as primeiras sessões no teatro era difícil não se encantar pelo trabalho. Gabriel acompanha todas as etapas e no caso da maquiagem, ele não hesita um segundo e assume os pincéis para maquiar seus atores.
Um dos pontos altos de suas criações é a excelência do trabalho vocal e musical. Em Estado de Sítio não é diferente. Assinam a direção musical Babaya Morais – responsável também pela preparação vocal e Marco França – responsável também pelos arranjos. Em recente entrevista Babaya explicou: “todas as músicas foram arranjadas em cantos polifônicos e trabalhadas em intensidade distintas, de forma a serem costuradas ao texto falado”. A seleção musical é tão vasta quanto bela, conferindo a cada cena um brilho especial, passeando por Elo Hi, música do bósnio Goran Brecović, ouvida no filme de Patrice Chéreau, A Rainha Margot, pela italiana Fischia il Vento ou pelo Chant des Partisans, mais conhecido como Hino da Resistência Francesa.
Difícil dizer o que prefiro no trabalho desse mineiro, mas em boa dinossaura do teatro e ferrenha defensora da frase dita por Procópio Ferreira: o ator é o atleta da palavra, confesso que me emociona ver como “falam” os atores de Gabriel. Não sei para os outros a importância que pode ter um ator falar, articular e se fazer ouvir/entender pelo público. Para mim é fundamental. Há anos o trabalho de voz é negligenciado e maltratado nesse Brasil. Frequentadora assídua de teatro, professora de uma tradicional Escola de Teatro, vejo diariamente, a dificuldade, em particular das novas gerações, em dizer um texto em cena. Falam mal, articulam pessimamente, sem microfone são totalmente incapazes de se fazer ouvir, entender o que dizem muitas vezes é missão quase impossível, e já vi produtor de teatro sugerindo microfonar o Rigoletto no Teatro Muncipal do Rio de Janeiro. Ou seja, lamentável. E esse mal se espalha como erva daninha pelo teatro brasileiro. Muito do prazer de ver as peças montadas por Gabriel vem desse cuidado com a fala, desse respeito à palavra.
Espetáculo começa às 21h, às 17h os atores estão no teatro. Sem reclamação e sem preguiça. Cada um pega seu “balde”, sim cada um tem seu “balde” cheio de equipamentos para exercícios, e o trabalho de aquecimento físico e vocal começa. Não tem essa de chegar quinze minutos antes e achar que está pronto para entrar em cena. Impossível fazer teatro, BOM, sem trabalhar.
Isso posto, preciso dizer a vocês que os atores de Estado de Sítio merecem os mais calorosos aplausos. Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Mariana Elizabetsky, Pedro Inoue, Rosana Stavis, Marco França, Cacá Toledo, Rogério Romera, Arthur Faustino, Kauê Persona, Nathan Milléo Gualda, Zé Gui Bueno e Daniel Mazzarolo formam um belíssimo “ensemble”. Verdadeira orquestra afinada pelas mãos do Maestro Gabriel Villela, mãos que podem ter a força do aço ou a delicadeza da renda, e que sabem com qual delas afinar cada um dos seus instrumentos.
Como em toda orquestra existem os primeiros violinos, não destacá-los seria injusto, por isso vou me permitir dizer que Elias Andreato faz uma Peste impagável, que Claudio Fontana encontrou na Morte um personagem à altura do seu talento, há muito merecendo prêmios e não apenas indicações e que Chico Carvalho confirma a cada espetáculo ser o melhor ator da sua geração.
Numa peça em que, como assinalam o diretor e seus assistentes Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo, um dos maiores desafios enfrentados por eles “foi equilibrar o talento individual de cada ator com a noção de coletividade demandada pelo autor” tenham certeza de que o trabalho de cada um de vocês foi (é!) indispensável para o resultado.
Aliás, o resultado de todo esse cuidado está em cena, estabelecendo um diálogo não apenas com o público, mas com o tempo presente, um presente milenar, nutrido pelas múltiplas tradições que embriagaram Gabriel, só quem transita com desenvoltura e intimidade entre Calderón de la Barca, Shakespeare, José Vicente e Albert Camus, pode alimentar seus atores com o que há de mais luminoso e, por tabela, iluminar a minha, a sua, a nossa escuridão.
A cortina de cena de JC Serroni
Foto: Deolinda Vilhena
“Eu gostaria de ver Estado de Sítio ao ar livre”, essa frase de Albert Camus foi a primeira coisa que me veio à mente quando entrei na sala de espetáculos para ver o ensaio da peça e me deparei com o cenário de JC Serroni.
O dispositivo cênico concebido não apenas permite e atende às necessidades de um dos nossos diretores mais ligados às visualidades da cena, ele mesmo um grande cenógrafo, como parece ter sido feito de encomenda para atender a vontade de Camus, que sonhava com algo “acentuando menos os cenários da cena do que os ouros e veludos do Marigny (alusão ao teatro onde a peça estreou em 1948).
No texto do programa de Estado de Sítio (abrindo parênteses para registrar um elogio à qualidade do programa, não apenas do ponto de vista gráfico, mas, antes de tudo pela qualidade do conteúdo, uma fonte de informação indispensável ao público e aos profissionais que assistem aos espetáculos, no entanto uma preocupação cada vez mais distante dos produtores) Serroni fala da importância de ter como parceiro um diretor com uma abrangente visão teatral e se pergunta:
“Que espaço poderia corporificar o medo? A submissão, a negligência e a omissão dos governantes diante de problemas reais que agonizam uma sociedade organizada, homens de bem? Como simbolizar a peste, um grande mal e uma punição que paira sobre a cidade. Um céu, sempre a enviar em formas de nuvens negras, tsunâmicas e cruéis a destruição.”
Serroni encontrou as respostas e o encantamento com o cenário e os objetos de composição das cenas, se faz presente durante os noventas minutos do espetáculo, ora com a nuvem a pairar sobre o palco, ora com suas aproximações anunciando tempos sombrios; simbolizando ora momentos de beleza, ora amedrontamento e medo do mal que trazem em si. Isso sem falar nas tramas de galhos secos, cipós e sem esquecer o efeito especial de simples arquivos de papelão. E se nos exuberantes e riquíssimos figurinos assinados por Gabriel Villela, estão presentes mais de cinquenta tons de preto, as cores do cenário me remeteram à luminosidade das muralhas de Jerusalém.
Agora, o que não disse a vocês é que antes de ver tudo isso existe uma cortina na cor das pedras de Jerusalém e com uma enorme estrela, que imediatamente me fez pensar, não na estrela negra obrigatória na porta das casas de pessoas contaminadas, mas na estrela de David que os judeus eram obrigados a usar durante a Segunda Guerra, como que a me lembrar que, se a crítica direta feita por Camus teve por alvo o regime em vigor na Espanha, os horrores da Segunda Grande Guerra não estão ausentes da obra.
Claudio Fontana, Rosana Stavis e Elias Andretato
Foto: Andréia Machado
A delicadeza do presente de JC Serroni para Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Surpresa final: ao lado dos nomes da equipe, os nomes dos agregados
Foto: Deolinda Vilhena
Como se não bastasse a espetacularidade do cenário, Serroni proporcionou a todos nós, na noite da estreia, um presente inesquecível, oferecido a Gabriel: a réplica de um carrinho de cena, trazendo em volta os nomes de toda a equipe e de alguns privilegiados agregados. À emoção em ver meu nome ao lado dos responsáveis pela obra de arte que é Estado de Sítio somou-se outra tão grande quanto, ver Gabriel tal e qual um menino de cinco anos abrir o presente. Vendo a cena pensei nos versos de Chico Buarque, “no tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”.
UM POETA DA CENA JAMAIS DESPREZA O VERBO
Chico Carvalho num dos momentos sublimes da peça
Foto: Andréia Machado
Desde o primeiro ensaio que vi, o Estado de Sítio do Gabriel me fez pensar num texto de Olivier Py, Epístola aos jovens atores – Para que seja devolvida a palavra à palavra, pela maneira como Gabriel transformou as palavras de Camus nesse “amor que encarna na oralidade sob a forma de uma promessa”. Não é de hoje que Gabriel, poeta da cena, não teme a força ativa da palavra, pelo contrário, aposta nelas suas fichas e faz do teatro seu arauto. Como no texto de Py, Gabriel é um diretor que honra o artista com a sagacidade dos seus questionamentos: “Ó poeta, você não é necessário para contar os desencantamentos do mundo, mas para reencantá-lo quem mais?”. Reencantar o mundo segundo Bruno Tackels, é um programa vasto, árduo, que exige uma coragem certa, nem que seja apenas para expor-se a esta fórmula, entre as dores drenar amor e felicidade, qualquer que seja “a insônia da desgraça”. Para que seja devolvida a palavra à palavra. E àqueles que a carregam e a perderam. Quem sabe assim seremos poetas de nossas próprias vidas?
Ou nos restará apenas a fala final do Nada:
“Há uma justiça, sim: a que se fez contra o meu nojo. Sim, vocês vão começar de novo; mas isso não é mais assunto meu. Não contem comigo, para brindar o perfeito culpado, não tenho a virtude da melancolia. Ó velho mundo, é preciso partir, seus carrascos estão cansados, seu ódio torna-se frio demais. Sei muita coisa, mesmo o desprezo teve o seu tempo. Adeus, boa gente, vocês vão aprender isto um dia: não se pode viver bem sabendo que o homem não é nada, e que a face de Deus é horrível”.
Diz o dito popular que, se conselho fosse bom, era vendido e não dado, pois eu, se fosse vocês, não vacilava, corria agora comprar o ingresso para ver Estado de Sítio, só o que nos salva da barbárie é a arte, o teatro em especial, e quando assinado por Gabriel Villela é tiro certo. Acreditem nas palavras de Camus, não por acaso ele recebeu aos 44 anos um Nobel de Literatura:
“Se diz, geralmente, que [o teatro] é o lugar da ilusão. Não acreditem nisso. A sociedade é que vive na ilusão, e vocês encontrarão, certamente, menos maus atores no teatro que na cidade. Tome um desses atores não profissionais que figuram nos nossos salões, nas administrações ou mais simplesmente nas salas dos generais. Coloque-o sobre esta cena, neste lugar exato e despeje sobre ele quatro mil watts de luz, e a comédia não se manterá mais, vocês o verão, todo nu, na luz da verdade.”[1]
Quanto a mim, devo dizer que, desde o primeiro ensaio, saí do teatro abalada com o que ouvira e encantada com o que vira, sem falar da impressão de ter sido vítima, pelo tempo da representação, da síndrome de Estocolmo, porque se toda privação de liberdade for como esse Estado de Sítio, eu quero viver “sitiada”.
[1]Albert CAMUS. Conferénce sur la tragédie. In Théâtre, récits, nouvelles. Préface par Jean GRENIER; édition établie et annotée par Roger Quilliot. Paris: Gallimard, 1962. (Bibliothèque de la Pléiade), p. 1725.
SERVIÇO
A invejável equipe de Estado de Sítio
Foto: João Caldas
Estado de Sítio
Onde? Teatro SESC Vila Mariana – Rua Pelotas, 141, Vila Mariana
Quando? De Quinta a sábado, 21h; domingo, 18h até 16 de dezembro
Quanto? R$ 40,00 / R$ 20,00 / R$ 12,00
Duração – 90 min
Texto: Albert Camus
Direção: Gabriel Villela
Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak
Adaptação e Figurinos: Gabriel Villela
Elenco: Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Arthur Faustino, Cacá Toledo, Daniel Mazzarolo, Kauê Persona, Marco França, Mariana Elisabetsky, Nathan Milléo Gualda, Pedro Inoue, Rogério Romera, Rosana Stavis e Zé Gui Bueno
Cenografia: J C Serroni
Assistentes de Cenografia: Gabriela Rinaldi, Nathália Campos e Priscila Soares
Iluminação: Domingos Quintiliano
Operação de Iluminação: Cleber Eli
Direção Musical: Babaya Morais e Marco França
Preparação Vocal: Babaya Morais
Arranjos: Marco França
Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Assistentes de Maquiagem: Patrícia Barbosa e Luís Cambuzano
Coordenação do Ateliê de Figurinos: José Rosa
Fotos: João Caldas Fº
Assistência de Fotografia: Andréia Machado
Diretor de Palco: Alexander Peixoto
Camareira: Ana Lúcia Laurino
Coordenação galpão de ensaios: Mara Santiago
Assistente de Produção: Andréa Marques
Produção executiva: Luiz Alex Tasso
Direção de Produção: Claudio Fontana
GALERIA DE FOTOS
E de repente, não mais que de repente, o Cometa
Foto: Andréia Machado
Chico Carvalho é o Nada
Foto: Andréia Machado
A beleza das cenas desfilando como quadros diante de nós
Foto: Andréia Machado
Chico Carvalho e Pedro InoueFoto: Andréia Machado
Foto: Andréia Machado
Rosana Stavis, Mariana Elisabetsky e Marco França
Foto: Andréia Machado
Uma das incontáveis belas cenas de Estado de Sítio
Foto: Andréia Machado
Deslumbrante, simples assim
Foto: Andréia Machado
Aplausos para esse elenco preciso e precioso
Trabalho vocal sob o comando de Babaya Morais
Foto: Deolinda Vilhena
Com direito a acesso aos camarins
Foto: Deolinda Vilhena
Maquiagem em profusão, cada ator recebe um kit
Foto: Deolinda Vilhena
“Croquis” de Claudinei Hidalgo para a maquiagem do Nada
Foto: roubada do Chico Carvalho
Zé Gui Bueno depois da “séance” de maquiagem
Foto: Deolinda Vilhena
Claudio Fontana e eu, ainda, sem medo dessa Morte
Foto: Claudio Fontana
Marco França visual no ponto para encarar o Juiz e a Benzedeira
Foto: Deolinda Vilhena
Gabriel em “chef d'orchestre”
com Pati Barbosa, Pedro Inoue e Daniel Mazzarolo
Foto: Deolinda Vilhena
Enquanto Claudinei prepara Chico, Gabriel prepara Rosana e Pati observa
Foto: Deolinda Vilhena

























Deolinda, amante sublime do melhor teatro, obrigada por compartilhar com tantas minúcias preciosas esta experiência sensível rara! Vou dar um jeito de me programar partir ver! Imperdível!!
ResponderExcluirDeo, sua língua!! Tres dele vc com uma alavanca, mudariam o eixo do teatr brasileiro. Observo a quantidade de luz q vc injetou nas trevas que deitam sobre o planeta. Uma resenha criteriosa , iluminista, escrita por uma intelectual acostumada a ver o que se tem de melhor teatro na Europa. Obrigado sua presença me encanta e a todos tbem. Seu texto um momento para reflexão e " uma pausa na loucura ," beijo, abraço, aperto de mão,.
ResponderExcluirDesculpas, a abertura deveria ser assim: Deo sua linda! Três de vc...,com uma alavanca....
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