Abecedário Festival da Palavra #FRONTEIRA
Folder com o Programa do Festival da Palavra
No dia 9 de novembro do ano passado estava no SESC Vila Mariana para ver a segunda apresentação de Estado de Sítio, texto de Albert Camus encenado com força e poesia por Gabriel Villela. Via Facebook havia marcado encontro com Marta Porto, amiga virtual que no real só havia encontrado em eventos ligados à arte e à cultura, área de atuação que nos une. Marta estava acompanhada de um casal de amigos, Susana Prudêncio e Carlos Moura-Carvalho. Depois das apresentações de praxe, eu falante como sempre, devo ter contado minha vida em cinco minutos, e dito a eles que não conhecia Portugal. Depois do espetáculo nos encontramos no mesmo local, tive a oportunidade de apresentá-los a Gabriel Villela, conversamos mais um pouco, e antes da despedida, deixamos claro que uma pessoa que anualmente faz escala em Lisboa, a caminho de Paris, com o histórico que tinha e chamando-se Deolinda – que é nome de um grupo de música popular portuguesa inspirado pelo fado e pelas suas origens nas terras de Pessoa – precisava se redimir. Quem diria que após tantos anos de espera essa viagem tivesse origem num foyer de teatro na Pauliceia?
Graças ao meu grande amigo Facebook mantive contato com Carlos Moura-Carvalho e foi assim que, dois meses depois, eu recebia um convite para participar da primeira edição do Abecedário Festival da Palavra: #FRONTEIRA.
Depois de pedir autorização a Universidade Federal da Bahia, pois a viagem ocorreria fora do meu período de férias e mais grave ainda, no período de aulas, de ver a publicação da saída autorizada e publicada no Diário Oficial da União pude comemorar comme il faut o convite.
Mais o que é o Abecedário Festival da Palavra?
“É um festival literário promovido pela Cabine de Leitura da Praça de Londres que tem por objetivo apoiar as livrarias de rua fazendo-o através da homenagem a uma palavra.
A palavra escolhida para a primeira edição é FRONTEIRA, cujos vários sentidos serão explorados através da realização de tertúlias, cafés literários e leituras encenadas em vários locais.”.
Entenderam a minha empolgação? Carlos Moura-Carvalho está criando uma excelente oportunidade para “devolvermos a palavra à palavra”. Lembrando aqui do magnífico de texto de Olivier Py, dramaturgo, ator e diretor de teatro francês, intitulado Epístola aos jovens atores para que seja dada a palavra à palavra. Como mulher de teatro, jornalista e professora de uma escola que forma gente de teatro a palavra tem sido minha única e poderosa arma, não por acaso ditadores nos calam – ou tentam nos calar – sempre que a ocasião lhes permite. Sem esquecer que o encontro em torno da palavra, nos possibilita ouvir o outro, exercício fundamental e em completo desuso nos tempos de exaltação à virtualidade.
Por outro lado, estou fascinada com a possibilidade de – enfim – conhecer Portugal, não me chamo Deolinda por acaso, tenho raízes portuguesas e as palavras de Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro embalaram e embasaram a minha formação. Formação essa que fez com que estabelecesse com Portugal a relação de herdeira de uma cultura que não posso, não quero e não devo negar, nunca dei chance ao ranço, tantas vezes em moda, de alimentar entre Portugal e Brasil feridas, soi-disant incicatrizáveis, existentes entre colonizador/colonizado. Pelo contrário, trago em mim o reconhecimento e a gratidão por tudo o que de lá me veio e que faz parte do todo que construí. Afinal, se como diz o poeta, “minha pátria é minha língua” e se a minha língua é a língua portuguesa, estou a caminho de minha outra casa.
E tem algo muito importante, para mim, na criação de um Festival da Palavra. Em 2015, na Universidade de Turim, Umberto Eco afirmava, com convicção: “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”, acredito que reverter esse quadro será, do meu modesto ponto de vista, o grande desafio dos tempos que vivemos.
Essa constatação, feita por um homem da palavra, reafirma a importância de encontros como o Abecedário Festival de Palavra, pois ao reunir artistas, professores, jornalistas, arte-educadores, pensadores nos leva a refletir juntos e a criar alternativas para demonstrar que não há meio de aprendizado mais eficaz que o livro. No século XXI não podemos ter a pretensão ou a ingenuidade de querer negar e/ou ignorar o mundo virtual, eu mesma sou uma Facebookeira convicta, mas também não podemos permitir que essas ferramentas auxiliares de pesquisa e facilitadoras do entretenimento que são as redes sociais e os motores de busca por exemplo, oferecidos via Internet e que nos chegam por meio de aparelhos eletrônicos sedutores, substituam o livro nas salas de aula e na vida das pessoas. "Um país se faz com homens e livros", disse um dia Monteiro Lobato. Como os seres humanos estão cada vez menos confiáveis, creio eu, que devemos apostar todas as nossas fichas nos livros, fazendo deles nossa luta e nosso objeto talvez consigamos reencontrar o rumo da verdadeira prosa.
Painel: A Cultura não tem fronteiras
Pela forma que me chegou esse convite vocês perceberam que sou uma pessoa abençoada e rogo aos deuses que seja sempre assim. Confiram comigo: em 1976, entrei para o teatro trabalhando na Companhia Maria Della Costa, sem nunca ter feito teatro amador ou universitário. Em 1981 minha entrada no mundo da música aconteceu pelas mãos de Clara Nunes. Em 1988 resolvi atuar no jornalismo e meu primeiro emprego foi como assistente de Hildegard Angel, uma das papisas do colunismo social. Anos depois, ao optar pela vida acadêmica, carimbei meus diplomas na USP e na Sorbonne. Fiz minha estreia como professora universitária no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo. Fiz um único concurso na vida e, como resultada da aprovação, tornei-me professora da Universidade Federal da Bahia. Com um pós-doutorado USP/Nanterre debaixo do braço assumi o cargo que ocupo até hoje: professora dedicação exclusiva da primeira Escola de Teatro, no âmbito de uma universidade, da América Latina. Dois meses depois tornava-me professora do PPGAC-UFBA, primeiro programa de pós-graduaçao em Artes Cênicas nota 6 na avaliação da CAPES.
Eis que de repente a vida me oferece, mais uma vez, uma entrada pela porta da frente: depois de anos de espera, irei a Portugal tendo a honra de dividir um painel intitulado A Cultura não tem fronteiras, ao lado de Eugenia Vasques. Professora e aclamada crítica de teatro, verdadeira referência na cena lusitana, formada em Teatro (Formação de Atores), na Escola de Teatro do Conservatório Nacional, mais tarde, Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Francês), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e doutora em Línguas e Literaturas Hispânicas, na Universidade da Califórnia (Santa Bárbara), com equivalência em Estudos Portugueses, pela Universidade Nova de Lisboa. Professora-Coordenadora jubilada na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde coordenou a área de Teoria. Pesquisadora no Centro de Investigação em Artes e Comunicação/CIAC (Universidade do Algarve/ESTC). Entre 1985 e 2001 foi crítica teatral no semanário Expresso, sem contar as centenas de artigos, sobre teatro, artes performativas contemporâneas e mulheres. Ao ler detalhadamente o currículo de Eugenia Vasques – e me bastou acessar a entendi porque tremi quando Carlos Moura-Carvalho disse-me que era ao lado dela que se daria minha participação na primeira edição do Festival da Palavra.
Como desafios existem para serem vencidos, fui – humildemente como é do meu feitio – fazer a lição de casa e procurar saber mais sobre ela para me tranquilizar ou me desesperar de vez. Por sorte encontrei uma entrevista deliciosa – cujo link divido com vocês https://www.youtube.com/watch?time_continue=1279&v=l8D0o4TcAYg – que me permitiu descobrir inúmeras afinidades com Eugenia, que ultrapassam o amor pelo teatro, pela educação e a ligação com a França. Mais do que isso: ver que Eugenia Vasques fala como gente e não como membro da academia fez com que meu coração acertasse o passo e, mesmo que ainda não tenha finalizado meu texto, estou mais tranquila. Hoje vi no Facebook que ela também ainda não conseguiu finalizar o dela. Respirei fundo e deixei um recado: “se isso a tranquiliza, eu também ainda não terminei o meu”. Pelo que li, vi e ouvi nosso painel, cuja mediação será feita por Sandra Vieira Jürgens, crítica, historiadora de arte e editora, tem tudo para que, daqui a alguns anos eu possa, ao escrever um outro texto, usá-lo como exemplo de mais belo momento em minha vida.
PS – As informações sobre o currículo de Eugenia Vasques foram copiadas da Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugénia_Vasques
SERVIÇO: Abecedário Festival da Palavra: #FRONTEIRA
Programação disponível em:
https://www.facebook.com/FestivaldaPalavra2019/
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