Bendito seja o teatro de Gabriel Villela...
Ensaios do Auto da Compadecida na Toca da Cutia
Foto: Deolinda Vilhena
Em milhares de teatros nos quatro cantos do planeta Terra hoje, com certeza, haverá uma estreia. Nenhuma delas me interessa tão particularmente quanto a estreia do Auto da Compadecida, no teatro do SESC Pompeia, em São Paulo. Entretanto, eu não quero escrever sobre o Auto da Compadecida, não a obra-prima de Ariano Suassuna e muito menos sobre o seu autor, muitos já o fizeram melhor do que eu, como minha colega Idelette Muzart considerada pelo próprio Suassuna como “o crítico com o qual todo escritor sonha...uma francesa, apesar de seu definitivo abrasileiramento, de sua bela nordestinização, que não importa em nenhum abandono de sua França, a de Rabelais e de Molière, que é tão minha quanto sua, assim como o Brasil verdadeiro, o de Euclides da Cunha, é tão seu quanto meu.”. E muito mais tinta haverá de correr nos tempos que virão, pois o texto é um clássico do teatro brasileiro.
Faço aqui uma pequena concessão, tentativa de lembrar aos esquecidos, em número incalculável no Brasil, que a obra já foi adaptada diversas vezes para o cinema, para a televisão e para o teatro, tendo como inspiração e mote as aventuras picarescas de João Grilo e Chicó que começam com o enterro e o testamento do cachorro do Padeiro e de sua Mulher e acabam em uma epopeia milagrosa no sertão envolvendo o clero, o cangaço, Jesus, Maria e o Diabo. Dessa vez o que me importa mesmo é a concepção, a criação e a encenação de Gabriel Villela, escreverei sobre o Auto da Compadecida do Gabriel. Escolha pertinente, afinal, num país onde a tendência é sempre cultuar e cultivar a mítica brasileira do herói sem caráter, optei por cultuar meu herói teatral com caráter absoluto e talento total.
Essa escolha se explica também porque, no nosso atual momento político-social, poucas coisas devem ser tão incensadas quanto a montagem de uma peça de teatro. Particularmente, se ela for produzida a partir de um financiamento coletivo, por um grupo de teatro de rua, o Maria Cutia, nascido e estabelecido em Belo Horizonte, logo, à margem, porque fora do eixo Rio-São Paulo e mais incensada ainda deve ser, quando penso na mensagem recebida via WhatsApp, ao descer do avião em Salvador, voltando dos dias de ensaios vividos em maio passado em Belo Horizonte, mais especificamente na Toca da Cutia:
“Ali naquela 'meiagua' singela como uma casa caipira nossa, contém a ideia de um atelier renascentista parodiado, adaptado. Um espaço uterino onde atores e marionetes encontram eixo e prumo para suas almas. Alminhas que se multiplicam milhões de vezes por dia. Milhares de explosões microscópicas fazendo renascer o homem em seu estado divino. O homem revelado ao homem. Entusiasmado, o homem/milagre! A humanidade como picles em conserva. Esse homem teatreiro não é perecível, é um triunfo da vida sobre a morte. Ah o teatro!”
Gabriel traduzira em palavras a beleza que eu acabara de presenciar, ao vivo e em cores. Bendito seja o teatro que nasce nessas condições e ganha vida própria a ponto de embriagar o público, do jeitinho que eu gosto: de caipirinha com poesia...
O estandarte do Bloco da Cutia
Foto: Deolinda Vilhena
Foi em Paris, mais precisamente no dia 21 de janeiro desse ano, que recebi uma mensagem do Gabriel falando do Auto da Compadecida, desde então, mesmo distante fisicamente, acompanhei passo a passo a montagem. A cada mensagem uma nova informação, um traço, uma foto do processo de criação e foi assim, entre o embevecida e abençoada pela Compadecida, que entendi as palavras de Dib Carneiro Neto, em seu texto Arroubos e Delicadezas de um Arcanjo Mineiro, onde ele diz: “participar de seu ritual de criação, a meu ver, é como assistir ao desabrochar completo de um canteiro multicolorido, na alta primavera. É exatamente isso. A criatividade ilimitada de Gabriel Villela, para mim, que pretendo ser seu eterno aprendiz atento, equivale aos prazeres de uma primavera ininterrupta. Como é bonito vê-lo florindo. Depois, no pomar de suas abundâncias, quem colhe os frutos é o teatro brasileiro.”.
Durante cinco meses acompanhei graças ao bendito WhatsApp, a construção do universo estético-afetivo de Gabriel, portador da generosidade e do compartilhamento de saberes e fazeres injetados por ele no DNA do teatro que faz. Não por acaso, sem jamais ter assumido o posto de chefe de trupe, Gabriel foi responsável por momentos decisivos na trajetória de grupos como o Galpão e o Clowns de Shakespeare. Por saber disso, não chegou a ser surpresa para mim a proposta dele em montar, pela primeira vez Ariano Suassuna em parceria com o Grupo Maria Cutia.
A curiosidade aumentava dia a dia e, não conseguindo esperar a estreia, voei para BH onde pude assistir os ensaios e me extasiar com a capacidade do Gabriel em trabalhar as metáforas. Encontrei o meu mago da cena, assumindo com engenho e arte as rubricas de Suassuna e mais, fazendo da música o elo de ligação com nossos males contemporâneos. E eu tentava imaginar a cara do Suassuna a cada cena que via, ele que dizia: “não creio que a meus textos de teatro se adapte um espetáculo convencionalmente realista, europeu e ocidental...Creio que o Auto da Compadecida – como todo o meu teatro – exigiria uma montagem criadora e livre, que, como o texto, se baseasse na invenção dionisíaca e espetacular do Bumlba-meu-Boi, do Mamulengo, da Nau Catarineta, do Pastoril. (...) Se eu fosse montar no teatro o Auto da Compadecida, fá-lo-ia assim: com músicas e danças...” .
E o que diria Suassuna ao ver e acariciar os figurinos de Gabriel Villela? O que diria ele dessa proposta de concepção de cenário e figurino que apresenta um sincretismo entre a estética oriental presente nas tapeçarias, o cangaço de Pernambuco e o barroco mineiro com motivos chineses da Igreja de Nossa Senhora do Ó de Sabará?
A riqueza dos figurinos do mago da cena
Foto: Deolinda Vilhena
Detalhes dos figurinos de Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
A visão dos figurinos é a prova da existência da beleza, assim como a certeza da necessidade do esplendor para ousar encarar as tragédias contemporâneas, confirmação que chega nas palavras de Gabriel contando ter ficado imaginando, em um determinado momento, como seria a indumentária dos santos locais se Brumadinho estourasse em cima de uma igreja barroca? Ao lado de José Rosa ele fala da pesquisa feita para o espetáculo, cujo resultado revelou que existe diferença do barro de Brumadinho para o de Mariana. Tal descoberta os levou a trabalhar com a oxidação “colocando materiais de envelhecimento, até chegar naquilo que eu entendi que fosse aquela nata de barro. E a partir dele, a gente criou uma cartela quase monocromática, para depois entrar com a policromia por baixo”.
Aprendi com Ariane Mnouchkine que o teatro é a arte do tempo presente...Só podemos contar o passado, invocá-lo, evocá-lo, encarná-lo se o trouxermos para o presente mais absoluto. O teatro é aqui e agora. E vi Gabriel fazer isso ao buscar inspiração em Arthur Azevedo e em nossas revistas de ano, para inserir no espetáculo intervenções críticas trazendo para a cena assuntos dos dias de hoje aproveitando-se do festival de besteira que assola o país.
Hugo da Silva e Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Mariana Arruda e Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Marcelo Veronez e Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Jimena Castiglioni e Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
E nem conto para vocês o amor de Gabriel pelos seus atores. Nesse caso, os integrantes do Maria Cutia: Hugo da Silva, Leonardo Rocha e Mariana Arruda, aos quais se somaram os convidados especiais: Lucas De Jota Torres, Jimena Castiglioni, Malu Grossi, Marcelo Veronez e Polyana Horta. O resultado desse amor, por enquanto, vocês podem conferir nas fotos feitas durante os ensaios, em breve vocês verão em cena. Se do olho de Gabriel nada escapa, de suas mãos saem o cuidado necessário para burilar a maquiagem ou para ajustar o figurino. Sua voz poderosa irrompe na sala de ensaio com observações ora doces, oras mordazes, mas sempre precisas. Diversas vezes ele me disse: “sou bravo”. E eu sorria. Bravo não, perfeccionista sim. Normal, afinal, só visando a perfeição se alcança a beleza, mas uma vez penso em Ariane.
Para quem pensa que ao final dos ensaios a aventura terminava, eu digo: tolinhos...Foram horas e horas viajando pelas memórias da sua infância, fui testemunha ocular do encontro dele com duas amigas, numa tarde de domingo num shopping em BH, fui embarcada numa viagem às memórias que alimentam a obra de Gabriel dessa mistura do sagrado com o profano, capaz de unir os cantos das procissões às cantorias das serenatas dos bêbados apaixonados. Tão bêbados e apaixonados pela beleza da arte quanto nós dois num dos bares da vida ouvindo a voz do Suassuna dizendo: “eu acho o barroco uma coisa muito importante para o Brasil. Na minha visão, boa parte dos grandes artistas brasileiros baseia-se no barroco ainda hoje. Normalmente a palavra barroco é usada no sentido pejorativo. Para mim não é. A grande coisa do barroco é que ele é um estilo de arte e uma visão do mundo, que se caracteriza pela unidade dos contrários, o que é muito importante para o Brasil. [...] o lado religioso do barroco tem sua contrapartida nisso que eu estava chamando de estilo picaresco. Eu gosto muito do auto sacramental. Eu gosto muito do auto da linha vicentina, onde se une o pensamento religioso a uma visão cômica e satírica. Para isso se corrige esse excesso de idealismo por um risco realista, do mesmo jeito que acontece em Quixote, que é um sujeito idealista: Sancho o chama a terra de vez em quando.” . E eu ao lado do meu Dom Quixote.
Um Quixote capaz de dar luz a um “céu” tropicalista com Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, a momentos de magia com Caminho das Águas, de Frei Chico e Josino Medina e uma ponta de tristeza, superada imediatamente pela esperança, quando entram os versos de América do Sul, de Paulo Machado, sucesso na voz de Ney Matogrosso na década de 70 e cujos versos engajados pedem “desperta América do Sul” e mais não conto para não estragar a surpresa, ainda que as redes sociais estejam repletas de fotos, vídeos e comentários feitos após as apresentações em Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Passos, cidade do sul de Minas, vizinha a Carmo do Rio Claro onde todo o esplendor do espetáculo, concebido para a rua e para as praças, apesar da hostilidade dispensada às artes no Brasil de hoje, pode ser visto na praça da Matriz, diante da Igreja Senhor Bom Jesus dos Passos.
Final da apresentação no Teatro Paulo Moura - FIT São José do Rio Preto
Foto: Ricardo Boni
Não pude ir à estreia do Auto da Compadecida em Ribeirão Preto, o final do semestre se aproximava e sair de Salvador era missão impossível para a professora de uma universidade federal, mas em julho fui para o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto unicamente para assisti-lo e ao ver a reação da plateia ao final do espetáculo, com quase mil pessoas de pé no Teatro Paulo Moura, entendi porque tenho dado uma atenção especial aos encontros, lembrando que os mais belos da minha vida devo ao teatro. Saí do teatro com uma certeza: assim como eu, tem muita gente nesse mundo que quando entra num teatro busca, mais e mais, um teatro que seja capaz de dialogar com a sua sensibilidade, de gerar luz na escuridão e de unir magia e poesia. Na esperança de ver a delicadeza que acalma e a doçura que tranquiliza, sem anestesiar, devolvidas às nossas vidas pelo curto espaço de tempo de um momento de teatro.
No Brasil de hoje esses momentos de teatro nos têm sido ofertados, com frequência, por Gabriel Villela, filho dileto de Carmo do Rio Claro que se fez o enfant terrible do teatro brasileiro e gosta de se apresentar assim: “eu sou da terra dos contadores de estória. (...) “acho que fundamentalmente nós não passamos de contadores de histórias e contamos estórias. Eu conto para não morrer”. E o teatro brasileiro Gabriel, conta com você para viver.
E sabe por que Gabriel? Porque a tua Compadecida “fica em nossa lembrança: como uma substância miraculosa que pode limpar o nosso coração de sua crosta cotidiana, de sua poeira miúda de sentimentos tristes e vergonhosos, insuflando-lhe ainda a certeza de que somos melhores do que somos, de que chegaremos um dia a viver melhor do que sabemos.”. Essa frase é de um dos nossos mestres da ECA/USP, o Miroel Silveira. Não tenho dúvidas que seria o comentário dele se tivesse visto o que vi na Toca da Cutia e no Teatro Paulo Moura. E que verão agora os que passarem pelo SESC-Pompeia e por onde vocês colocarem esse bloco na rua...
E onde quer que passe esse bloco, na plateia do céu onde se encontra, Ariano Suassuna, eterno “cavaleiro andante da cultura brasileira”, estará aplaudindo de pé a Compadecida de Gabriel Villela, que sabe, como nenhum outro encenador nesse país, fazer de um clássico – da dramaturgia brasileira ou universal – uma declaração de amor ao teatro popular. Repetindo, sem medo de ser repetitiva, aquele do qual nos falava Antoine Vitez: popular é o teatro elitista para todos. Ou como me acostumei a dizer: a mais fina alta costura disfarçada de prêt-à-porter...Ou, como bem disse meu amigo Sérgio Sobreira, “a existência de Gabriel Villela é um elogio interminável à capacidade humana de criar beleza!”.
GALERIA DE FOTOS DOS ENSAIOS
Polyana Horta e Malu Grossi
Foto: Deolinda Vilhena
Marcelo Veronez é o Diabo
Foto: Deolinda Vilhena
Foto: Deolinda Vilhena
Leonardo Rocha e Hugo da Silva
Foto: Deolinda Vilhena
Foto: Deolinda Vilhena
Quem precisa de Christian Lacroix tendo Gabriel Villela?
Foto: Deolinda Vilhena
A delicadeza e a riqueza de detalhes estão em toda parte
Foto: Deolinda Vilhena
Cada cabeça uma sentença e sobre todas a de Gabriel suspensa
Foto: Deolinda Vilhena
Marcelo Veronez e Gabriel Villela
Foto: Deolinda Vilhena
Foto: Deolinda Vilhena
Gabriel com José Rosa o guardião do templo-atelier
Foto: Deolinda Vilhena
Gabriel e Babaya, amiga e parceira de três décadas de trabalho
Foto: Deolinda Vilhena
O time do Auto da Compadecida na Toca da Cutia
Foto: Tati Motta
Ensaio no FIT de São José do Rio Preto - Gabriel e Babaya orientam o elenco
Quando? De 8 de agosto a 1 de setembro de 2019
Horário? De quinta a sábado às 21h, domingo às 18h
Duração? 80 minutos
Onde? SESC Pompeia – Teatro – Rua Clélia, 93 – Pompeia – São Paulo
Quanto? De R$ 12 a R$ 40
Informações? (11) 3871-7700
Concepção e Direção: Gabriel Villela
Grupo Maria Cutia: Hugo da Silva, Leonardo Rocha e Mariana Arruda
Atores convidados: Lucas De Jota Torres, Jimena Castiglioni, Malu Grossi, Marcelo Veronez e Polyana Horta
Assistente de Direção: Lydia Del Picchia
Preparação vocal: Babaya de Morais
Direção musical: Babaya de Morais, Fernando Muzzi e Hugo da Silva
Cenário e Figurino: Gabriel Villela
Assistente de Figurino: José Rosa
Coordenação do Atelier Gabriel Villela: José Rosa
Pintura de Arte: Rai Bento
Iluminação: Richard Zaira e Pedro Paulino – CiaTecno
Fotografia: Tati Motta
Produção: Luísa Monteiro – Grupo Maria Cutia






















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