#barracoBACO - A Virada de Eros


A bela arte de Guto Chaves marca do nosso # barracoBACO

“Quando eu entrei no TMG – Teatro Martim Gonçalves, para o início da virada cultural celebrando o centenário de nascimento do fundador da Escola de Teatro da UFBA senti uma vibração estranha. Estranha porque feliz, uma energia de celebração, comunhão, algo destoante dos tempos sombrios que parecem rondar o tempo todo as políticas, as relações, os poderes.”. As palavras do meu colega Gil Vicente Tavares traduzem com fidelidade o sentimento que invadiu a todos nós que vivenciamos os primeiros momentos do #barracoBACO – A Virada de EROS
A nossa ideia de celebrar o Centenário de Martim Gonçalves nasceu no dia 12 de agosto, numa reunião do Departamento de Técnicas do Espetáculo, da vontade de um grupo de professores – Cristiane Barreto, Deolinda Vilhena, Gil Vicente Tavares, João Sanches e Luciana Liège – ao qual somou-se a professora Elisa Mendes, do Departamento de Fundamentos do Teatro, grupo inconformado com a possibilidade de data tão importante passar em brancas nuvens em razão da falta de verba para organizar um evento. 

A ideia encontrou eco e apoio junto à direção da Escola de Teatro, na pessoa de seu diretor, Cláudio Cajaíba, que levou para a Congregação a decisão de oficializar o evento. Juntaram-se aos professores, estudantes, técnicos-administrativos e terceirizados da comunidade da ETUFBA. Não tínhamos um único centavo em caixa, mas tínhamos muita vontade de festejar, não apenas o centenário de Martim Gonçalves, mas a necessidade de soltar o grito preso há meses na garganta, um grito de alerta, com a intensidade necessária, para dizer que não temos medo, que fazemos teatro, que vamos continuar a fazê-lo e que nada e ninguém nos impedirá de seguir o caminho traçado há pouco mais de 60 anos pelo nosso, agora centenário, patrono. Foi assim que A Virada de Eros tomou corpo.

E ainda fizemos a Pré-Virada, no dia 12 de setembro, com a apresentação do PRETato – Teatro Preto de Resistência Antirracista, no Teatro Martim Gonçalves, sob a coordenação do aluno Dêvid Gonçalves.

Nossa aposta era alta, afinal na cidade da Bahia não existe a tradição de festas que comecem às 23h59, mas resolvemos bancar, e não é que deu certo? Por volta das 22h o público começou a chegar e confesso que quando Jorge, nosso bilheteiro e fiel escudeiro, me informou que havíamos ultrapassado a senha de número 100 respirei aliviada, minha previsão de que teríamos entre 70/80 pessoas havia sido ultrapassada. 

O antigo Solar Santo Antônio, também conhecido como o Casarão do Canela, referência ao bairro onde está localizado, sede da Escola de Teatro da UFBA estava com portas abertas para apresentações artísticas as mais diversas por 24 horas.
Público e convidados mostravam-se admirados com a iluminação e a novidade maior: o estacionamento transformado em praça da alimentação. Mesas e cadeiras esperavam e acolhiam a todos. O cheiro da comida seduzia os que sabiam que a madrugada seria longa e que saco vazio não para em pé. E um brechó variadíssimo despertava vontades e desejos.

Paulo Paiva revelando tudo o que Jussilene Santana não nos havia contado
Foto: Diney Araújo

Começamos pontualmente às 23h59, com Paulo Paiva, de casaco de pele iniciando as homenagens a Martim Gonçalves, numa sexta-feira 13 em noite de lua cheia, as gargalhadas eclodiam pelo estacionamento-palco da performance. Conduzidos por ele tomamos todos o rumo do Teatro Martim Gonçalves onde, ao som de Os mais Doces Bárbaros, nos esperavam nossos apresentadores – Márcia Andrade, Thiago Romero, Wanderley Meira e Zeca de Abreu para dar sequência a próxima atração: Meia-Noite se Improvisa. Criado na década de 60 por João Augusto, na época diretor do Teatro Vila Velha, o projeto foi retomado em 1995 e durou até 2004. Marcio Meirelles não apenas nos cedeu o uso da marca para essa noite de #barracoBACO como aceitou meu convite para ser o primeiro a se apresentar. E com um trecho do texto As Palavras de Jó, de Matéi Visniec, que parecia escrito para a ocasião, tanto necessitamos hoje acreditar na humanidade.

Márcia Andrade, Zeca de Abreu, Thiago Romero e Wanderley Meira
Foto: Diney Araújo

Passava um pouquinho de duas horas da manhã, quando Gil Vicente Tavares acompanhado por Marcio Dubeó, Felipe Guedes e Ivan Huol assumiu o comando da festa com o show De Chico a Chiclete. O foyer do Teatro Martim Gonçalves viveu momentos de muita alegria. Os vídeos disponibilizados nas redes sociais são a prova de que por algumas horas, graças ao poder da arte, vencemos o medo, esquecemos os cortes e as ameaças, nos permitimos ser felizes. Estava na sala da Direção da Escola quando uma das nossas monitoras veio me chamar, Elisa Mendes queria que eu descesse para conferir a alegria instalada. Pouco mais do que união e boa vontade foram suficientes para que problemas e desavenças fossem esquecidos e a festa estivesse realmente instalada.
Ao final do show de Gil e sua banda, Talis Castro teve que pegar pesado para continuar no mesmo ritmo até o amanhecer. O nosso foyer, a nossa Galeria Nilda Spencer transformada em Boate da Madrugada, deve ter provocado gargalhadas nos nossos ancestrais que certamente, em algum lugar do astral, em algum lugar do universo, aplaudiam a nossa ousadia. 

Bárbara Laís lê o texto de Guilherme Hunder que precedeu a lavagem das escadarias
Foto: Elisa Mendes

Nem a chuva, que chegou com o dia, esfriou os ânimos. Verdade que impediu nosso café da manhã nos jardins, mas nada é perfeito, já dizia a mais que perfeita Tônia Carrero.
Inúmeros foram os momentos de emoção. Impossível não se emocionar com os alunos de Mariana Lima, estudantes de teatro em Pojuca e que pela primeira vez pisavam no palco de um teatro. Ao encontrá-los parecia que chovia nos meus olhos, como soube que choveu nos olhos de muita gente que estava por lá aplaudindo Veio do Barro.
Martim Gonçalves nasceu às 10h30 do dia 14 de setembro de 1919, e nos escolhemos lavar a alma e as escadarias da Escola de Teatro nessa hora. Guilherme Hunder preparou um texto belíssimo, dito por Bárbara Laís, nossa atriz prêmio Braskem de Revelação. Essas imagens registradas em vídeos por muitos celulares hão de ficar impressas em que viu nossa Bárbara no alto da escada, transformada em palco para abrigar seu talento e sua força. 

Chegou a hora de cantar parabéns e a sala da Direção, palco de reuniões estressantes e por vezes muito duras, tornou-se o lugar do encontro, do congraçamento e sala da festa com direito a bolo e velinhas e o mais demorado dos parabéns, cantado à moda baiana. Versão especialíssima.

Ao longo de 24h ocupamos todos os espaços da ETUFBA, além do palco do Teatro Martim Gonçalves, o Foyer do Teatro, os jardins, a escadaria, o estacionamento da ETUFBA e a sala 10 do casarão, única sala em atividade em razão das obras de ampliação da Escola de Teatro. Uma equipe de mais de quarenta pessoas se revezou, como toda orquestra tem seu Maestro e seu Spalla, devo fazer um agradecimento especial à Elisa Mendes, que foi o nosso Maestro e à Mila Lapa, nosso Spalla, uma meu braço direito e a outra meu braço esquerdo. Todos sem exceção fizeram o seu melhor, mas as duas excederam. Obrigada.

Depois de um mês e vinte e quatro horas de trabalho eu tinha a sensação do dever cumprido. Conseguimos fazer do nada muito e ao chegar em casa as palavras de Ariane Mnouchkine, minha mestra maior, ecoavam em mim como que um recado aos meus alunos, em particular aqueles que ao longo dessas semanas conviveram com minha irritação, meu cansaço, meu descrédito em determinados momentos, e é com as palavras de Ariane que termino esse texto, pedindo a cada um eles desculpas pelo meio jeito meu “gauche” de ser e que prestem muita atenção as palavras que agora vão ler. Nós, professores e técnicos-administrativos temos um tempo longo a cumprir no Casarão do Canela, nossos alunos ano a ano ganham o mundo, mas enquanto estiverem na Escola de Teatro da UFBA, essa fundada por esse visionário Martim Gonçalves, que eles tenham as palavras de Mnouchkine como guia e lema: 

“Eu creio na imaginação, na liberdade, mas também na pontualidade, eu creio na fantasia da palavra, mas também na polidez, esse mínimo de ritualização de nossa vida cotidiana. Eu creio na generosidade da representação e da ação, mas antes de tudo eu creio na da escuta. 
Eu creio acima de tudo na amizade, que será o filtro, a poção mágica de vocês.
Eu creio que a sua escola não deve fazer de vocês atores de um lado e técnicos do outro, mas homens e mulheres de teatro pura e simplesmente. Um cabo, um projetor, um martelo, uma furadeira, um sentimento, uma boa dicção, um silêncio precavido, uma melodia, um verso, uma escada bem colocada, isso pertence a todos. Vocês precisam terrivelmente uns dos outros. Se vocês não quiserem compartilhar o saber, a prática, vocês serão menos fortes, menos felizes, menos altivos. Eu lhes asseguro, eu lhes asseguro. 
Eu creio que a sua escola não deve preparar vocês para entrar no mercado, mas no imenso canteiro de obras de um mundo melhor no qual, graças à sua arte, cabe a vocês trabalhar agora. 
(...)
Vocês não devem entrar em nenhum compartimento, nenhuma jaula, seus únicos limites são aqueles que o respeito pelo outro, a Justiça, a solidariedade e a ternura humana impõem ao coração e à consciência de vocês.”

Que assim seja! Ano que vem tem mais, sim. Vamos calendarizar o #barracoBACO

O bolo do Centenário de Martim Gonçalves by Mon Petit Douce
Foto: Deolinda Vilhena

OS AGRADECIMENTOS AO QUE FIZERAM A NOSSA VIRADA DE EROS

Eles aceitaram o chamado para integrar a programação do #barracoBACO – A Virada de Eros: Alexandre Geisler, com Sarau para Carolina; Analu Tavares, com Quem é você na fila do pão?; Any Luz Correa Orozco e Brenda Arelli Urbina Bolaños com La Loca; Cida Barreto com Bazofiar, sabedoria  de um corpo poético; Clara Romariz com Nasceu; Daniel Marques, com Dionísio: venho eu; Débora Albuquerque pela instalação do Espaço da Criança pela Materna Arte; Dêvid Gonçalves, com o 3x4 e a apresentação do PRETato na Pré-Virada; Eduardo Sena, com A Bolsinha Mágica; Gabriela Neves Brito, com Fragmento do espetáculo Idiotas úteis; Givaldo Santos, com Invisível; Guilherme Hunder, com a Lavagem das Escadarias; Joice Aglae pelo projeto de extensão, Carne Negra; Laís Santos Almeida, com Sempre Seremos Mulheres; Isadora Werneck e Veridiana Neves, com Poetry: How does it feel now?; Letícia Aranha, com Sereno; Mariana Lima, com Veio do Barro; Lucas Oliveira, com Os Dias “Eram” Assim; Maria Kamilly, com Proceta; Maria Teixeira, com As Três Marias; Martim Palmeira de Carvalho Junior, com O Revolucionário; Otavio José Correia Neto e Bárbara Laís, com Enleio; Raimundo Moura, com Ator Negro Procura; Rayone Borges, com Carta para os atores de Valère Novarina; Sarah Marques Duarte, com a exposição Rejunte; Sophia Coletti, com Eu, Zuzu Angel, agora milito; Tina Tude, com Candombá; Victor Gonçalves, com Um Homem Subindo as Escadas; Victor Hugo Sá, com Solilóquio; Universidade Livre de Teatro Vila Velha, com cenas de Ensaio para a democracia

Eles aceitaram nosso convite para fazer o nosso #barracoBACO ainda mais potente: Márcia Andrade, Thiago Romero, Wanderley Meira e Zeca de Abreu, apresentadores do Meia-Noite se Improvisa, aberto lindamente por Marcio Meirelles;  Gil Vicente Tavares, com o show De Chico a Chiclete acompanhado por Marcio Dubeó, Felipe Guedes e Ivan Huol; Talis Castro com sua Boate da madrugada; João Lima, com O Circo de um homem só; a Banda K16 formada por Ives Ferreira, Saulo Barbosa, Estefano Ferreira e Luiz Alberto, os dois últimos técnicos do Teatro Martim Gonçalves; José Rêgo/Pinduca com a Canastra Real e sua Poética Taluda; Joice Aglae, com As Bodas de Umbigolina Goiabenta; Hebe Alves, com Do fino véu ao céu da boca; finalizando com o Quarteto de Jazz, formado por professores da Escola de Música: Ivan Bastos; Ivan Huol; Rowney Scott e Pedro Dias. 

Nossos apoiadores: Allison de Sá, Ateliê Cenográfico Maurício Pedrosa, Designer Guto Chaves, Gráfica Qualigraf, Mais Cor Tintas, Mon Petit Douce, Psiu Comunicação e Sherwin Williams e a Universidade Federal da Bahia.

Nossos "patrocinadores" – meus colegas professores do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – PPGAC-UFBA. A “vaquinha” interna arrecadou 950 reais e foi a única verba do nosso # barracoBACO. São eles: Antonia Pereira, Cássia Lopes, Claudio Cajaíba, Cleise Mendes, Daniel Becker, Denise Coutinho, Eliene Benício, Eloisa Domenici, Evelina Hoisel, Fabio Dal Gallo, Gilsamara Moura, Hebe Alves, Ivani Santana, João Sanches, Leonardo Boccia, Luiz Marfuz, Marcelo Sousa Brito, Mário Bolognesi e Meran Vargens. Fica aqui o nosso “muito obrigado”. 

Para finalizar, registro aqui meu agradecimento, mais do que especial, a essa turma que fez o #barracoBACO, sem eles tudo não passaria de um sonho:

Equipe de Produção:
Anna Rodrigues, Bia Araújo, Bira Freitas, Clarissa Gonçalves, Claudia Salomão, Cristiane Barreto, Daiane Nascimento, Débora Albuquerque, Deolinda Vilhena, Eduarda Duarte, Elisa Mendes, Fernanda Nunes, Gil Vicente Tavares, Guilherme Hunder, João Sanches, Karla Coimbra, Leandro Santolli, Letícia Aranha, Luciana Liège, Mila Lapa, Sérgio Sobreira, Sophia Colleti, Thais Patez, Thiago Romero e Victor Hugo Sá.
Monitoria:
Andressa Menezes, Bárbara Laís, Evandro Teixeira, Fabricio Cardoso Barros, Fernando Jorge Nascimento, Hyago Matos, Isabel Santos, Jamila Cordeiro, Kleber Benício, Maria Elissan, Natália Mayan, Nina Andrade, Ronald Fernandes e Vitor Sampaio.
Nossos incansáveis técnicos: Bruno, Estefano, Jorge, Leandro, Luís e Robson e Tiago.
Turma da Retaguarda: Maria Eugênia Farias, Rita de Cássia Santos, Flávia da Balbúrdia e Geraldo Silva.

Valeu galera...em 2020 vamos virar de novo!


GALERIA DE IMAGENS DO # barracoBACO - A Virada de EROS
Zeca de Abreu no colo do público do Meia-Noite se Improvisa
Foto: Diney Araújo
O sorriso lindo do nosso apresentador Wanderley Meira traduzia o espirito da noite
Foto: Diney Araújo
Marcia "Poderosa" Andrade 
Foto: Diney Araújo
Thiago Romero esbanjando charme
Foto: Diney Araújo
Meran Vargens, Marcio Meirelles e Cristina Castro 
Foto: Diney Araújo
 Dani Aprendiz, Roberto Laplagne, Sergio Sobreira e Hamilton Cerqueira Lima
Foto: Diney Araújo
 Claudia Cunha e Eliene Benício na primeira fila do Meia-Noite se Improvisa
Foto: Diney Araújo
 Clarissa Gonçalves e Mila Lapa a equipe produção também curtiucada etapa da Virada
Foto: Diney Araújo
Thiago Romero, Sophia Colleti e Bárbara Laís 
Foto: Diney Araújo
Paulo Paiva que abriu os trabalhos homenageando Martim Gonçalves
Foto: Diney Araújo
Marcio Meirelles lendo As Palavras de Jó de Matéi Visniec
Foto: Diney Araújo
Paulo Henrique Alcântara leu texto de Nelson de Araújo
Foto: Diney Araújo
Fragmentos de espetáculo "Idiotas úteis" dirigido por Elisa Mendes
Foto: Diney Araújo
Gil Vicente Tavares no show de Chico a Chiclete no foyer do TMG
Foto: Diney Araújo
Veio do Barro, de Mari Lima, marcou a presença de Pojuca na Virada
Foto: Divulgação 
Espaço da Criança pela Materna Arte
Foto: Divulgação 
A Universidade Livre de Teatro Vila Velha disse "presente" com Ensaio para a Democracia
Foto: Elisa Mendes
Bazofiar, sabedoria de um corpo poético de Cida Barreto
Foto: Elisa Mendes
Parte da equipe de produção festejando no último minuto o sucesso da Virada
Foto: Divulgação 

Comentários

  1. Que delícia lê-la neste início de dia e, através de suas palavras tão ricas em detalhes também poéticos, imaginar quão linda há de ter sido esta festa. Grata. Parabéns pelo texto que registra a alegria do fazer teatral, diluindo a tristeza do nosso tempo e que serve também como símbolo de que a união faz a força quando nele parece não esquecer nenhum nome e ainda se desculpa pela humanidade das indelicadezas que por ventura tenham surgido e naturais para uma realização deste porte.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

UM OLHAR FRANCÊS SOBRE CLARA NUNES, A TAL GUERREIRA

A MEDEA DE SÊNECA E DE GABRIEL COMO EU VI

O Fantasma da Ópera existe e está em SP