VÁRIAS COMADRES E UMA MESTRA
As Comadres chegaram a Paris. Sim, no dia 23 de novembro de 2021, um grupo de trinta artistas brasileiros chegou a Paris “comme il faut”: à bordo de um avião da Air France, vindos do Rio de Janeiro. Do aeroporto de Roissy-Charles de Gaulle seguiram para o Théâtre du Soleil, em sua sede em meio ao bosque de Vincennes, onde Ariane Mnouchkine – sim, ela mesma, a maior diretora de teatro em atividade no mundo – os esperava “com muito afeto e muita comida” como contou Tiago Ribeiro, figurinista do espetáculo, em uma de suas redes sociais.
Tomara que todos os que fazem e/ou pesquisam teatro no Brasil possam dar a esse acontecimento a importância devida. Muito mais que a realização de um sonho da equipe de As Comadres, essa iniciativa de Ariane Mnouchkine, traz em si uma ação dessas que só mulheres forjadas com a força do aço e a delicadeza da renda são capazes: ajudar artistas em dificuldades.
Uma das inúmeras tarefas que Ariane se impôs ao longo da vida foi um permanente combate a favor da cultura e da liberdade de expressão, logo, em defesa dos artistas. Sem jamais vestir o uniforme da militância e fugindo de toda instrumentalização tão peculiar – e tão em moda – na relação artistas e ativistas. Preferindo sempre os ideais, às ideologias.
Inúmeras foram as causas pelas quais Ariane e sua trupe se engajaram, elas passam pelas tristes ditaduras latino-americanas dos anos 60/70, obscuro passado, do qual nos pensávamos protegidos, foram a inspiração para que ela fundasse, em 1979, a AIDA (Associação Internacional para a Defesa dos Artistas Vítimas da Repressão no Mundo), tendo como grande parceiro o cineasta Claude Lelouch, pela greve de fome no verão de 1995 na luta pelo fim da limpeza étnica na Bosnia, ao lado de Olivier Py, Maguy Marin e François Tanguy e pelo asilo aos 340 “sans-papiers” na Cartoucherie de Vincennes durante as representações de Tartufo.
Em 2018, o olhar dela se voltava para os artistas brasileiros, como em outras épocas olharam para argentinos, chilenos, africanos, argelinos, curdos ou afegãos. Inquieta que estava, como declarou à Rádio France Internacional, com os relatos frequentes de artistas brasileiros sobre a situação de censura, causada pela chegada de Jair Bolsonaro ao poder, ela não poderia ficar alheia ao que se passava no país, aliás, poder poderia, mas não conseguiria:
“O Brasil mudou radicalmente para uma espécie de nacionalismo louco, estou triste e horrorizada”. (...) A tomada de poder por Bolsonaro segue uma metodologia específica, que é a mesma do Brexit e dos movimentos comandados pelo [ex-conselheiro de Trump] Steve Bannon no mundo. No entanto, guardo um profundo otimismo e acredito que os povos vão acabar se rebelando contra este tipo de autoritarismo” (...). É terrível, essa máquina de mentiras funciona muito bem, mas os artistas – e essa deve ser a nossa principal função – , devem trabalhar para encontrar um antídoto”[1].
Em tempos de pandemônio e pandemia, em tempos de Bolsonaro e coronavírus, em tempos de desmonte do teatro brasileiro, ela é a principal responsável por operar esse quase milagre de levar um grupo de trinta pessoas para uma série inicial de 16 apresentações de uma comédia musical, para uma turnê por três cidades francesas: Bordeaux, Mont de Marsan e Paris.
Conhecendo o nome da santa, e sabendo que há quase 60 anos ela realiza milagres na cidade utópica do teatro, mundialmente conhecida como Cartoucherie de Vincennes, nos arredores de Paris, rio sozinha, para ela nada é impossível. Desde 1999 pesquiso o Théâtre du Soleil e acompanho as mais diversas utopias que ela insiste em transformar em realidade, por isso, suas palavras, ditas numa aula magna na UNIRIO (2019) ecoam em meus ouvidos e chego a ouvir sua voz:
“Eu vou dizer o que penso. Acho que se a gente estivesse esperado a captação, encontrar o dinheiro para começar, a gente não teria começado. É por isso que eu estava dizendo que esse projeto parecia impossível, mas que vocês provaram, fazendo o projeto, que era possível. Assim o SESC apareceu, e Curitiba também, e de repente algum dia vai ter um pouco mais de dinheiro. A gente colocou um pouco o carro na frente dos bois, mas se não tivéssemos feito isso, eu acho que a gente ainda estaria discutindo o espetáculo.”
Ariane do alto dos seus quase 83 anos – a festejar em 3 de março de 2022 – sabe muito bem o quê diz, não por acaso, a cada vez que desacredito na humanidade, ela é minha referência e suas frases, não raro, adquirem em minha vida a força de um mantra: “me desculpem, o mundo vai mal sim, mas o mundo é muito bonito. É um doente muito bonito.” [2]
[1] Ariane Mnouchkine. https://www.rfi.fr/br/franca/20191010-celebre-diretora-do-theatre-du-soleil-ariane-mnouchkine-inicia-conversas-para-produz
[2] Ariane MNOUCHKINE: 'O teatro é algo concreto, assim como a felicidade' – Rio de Janeiro, Jornal O Globo, Luiz Felipe Reis, 4 de julho de 2018.
CONTINUA EM BREVE
APÓS AS FOTOS TEM O SERVIÇO DA TURNÊ FRANCESA
Elas deram uma banana geral para o coronavírus, para o bolsovírus,
para a pandemia, para o pandemônio e chegaram à França
AS COMADRES (Les Belles-Sœurs)
Texto original – Michel Tremblay
Libreto, canções e encenação – René Richard Cyr
Música – Daniel Bélanger
Direção Musical - Wladimir Pinheiro e Marcello Sader
Supervisão artística – Ariane Mnouchkine
BORDEAUX –Théâtre National de Bordeaux em Aquitaine – de 7 a 11 de dezembro
Terça e quarta-feira às 20h30, quinta e sexta-feira às 19h30 e sábado às 15h e 19h30
MONT DE MARSAN – no Théatre de Gascogne – 14 de dezembro às 20h30
PARIS – Théâtre de l’Épée de Bois de 23 a 31 de dezembro às 20h30
Domingo dia 26 de dezembro às 14h30 e às 17h30
(dia 25 de dezembro não haverá espetáculo)
Duração: 1h45
Maiores informações: https://www.theatre-du-soleil.fr/fr/
ELENCO: Ana Achcar, Sirleia Aleixo, Thallyssiane Aleixo, Janaína Azevedo, Gabriela Carneiro da Cunha, Juliana Carneiro da Cunha,Julia Carrera, Maria Ceiça, Fabianna de Mello e Souza, Sonia Dumont, Iza Eirado, Ariane Hime, Beth Lamas, Julia Marini, Leticia Medella,Leda Riba, Flavia Santana, Ana Paula Secco, Lilian Valeska, Gillian Villa
Anjos no Brasil: Thayane Aleixo, Suelen Gom, Nina Rosa, Amanda Tedesco.
Piano: Catherine Henriques
Percussão: Georgia Câmara ou Karina Neves
Baixo: Marcello Sader
Libreto em português: Julia Carrera
Letras das músicas em português: Wladimir Pinheiro et Sonia Dumont
Cenário original: Jean Bard
Adaptação do cenário brasileiro: Mina Quental com assistência de Ana Clara Albuquerque, Mariana Castro, André Salles et Willian Eduardo dos Santos
Figurinos: Thiago Ribeiro com assistência de Ana Flávia Massada
Luz: Hugo Mercier Bosseny e João Gioia
Som: João Gabriel Mattos com assistência de Adriana Lima
Assistentes de direção: Hélène Cinque e Tomaz Nogueira da Gama
Gravação e montagem do vídeo: Jeanne Dosse
Produção no Brasil: Lindsay Castro Lima com assistência de Luciano Lima,
Julia Carrera, Juliana Carneiro da Cunha, Fabianna de Mello e Souza ;
FMS Producoes Artisticas ; Pagu Produções Culturais
Produçao na França: Théâtre du Soleil em parceria com
TNP - Théâtre National Populaire - Villeurbanne ;
Théâtre national de Bordeaux en Aquitaine ; Groupe Sud Ouest ;
Théâtre de Gascogne - Mont‑de‑Marsan
Apoio: Consulado Geral da França no Rio de Janeiro;
Bordeaux Métropole, no âmbito do plano de recuperação;
Fondation L’Accompagnatrice
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