Entre artesania e poesia, o teatro da delicadeza


Thierry Hancisse, Bakary Sangaré, Jean Chevalier e Véronique Vella
Foto: Brigitte Enguerand

Eu fui ao teatro. O que pode ter de especial ir ao teatro para quem no próximo dia 26 completa 45 anos como profissional de teatro? Tem que de repente, um vírus nefasto impediu a aglomeração, o encontro presencial, indispensável para que o ato teatral aconteça. A arte da presença se viu condenada ao ostracismo e, como se não bastasse, da noite para o dia descobrimos – por decreto de governos os mais diversos – que não éramos essenciais à sociedade. E foi assim, que por durante longos 643 dias eu não pude ir ao teatro.

 

Durante todo esse período, confinada e reconfinada em Salvador, Bahia, certamente a Comédie-Française foi a minha maior companhia, a única em muitos momentos. A criação de um canal de televisão, a webtélé, com o objetivo primeiro de manter um vínculo com o público da casa de Molière, foi o grande ato de Éric Ruf, administrador geral da mais antiga trupe de teatro em atividade no mundo. Durante as infinitas semanas de confinamento na França, um canal de transmissão online, La Comédie continue! oferecia uma programação intensa das 16h à meia-noite. Programas criados especialmente para o canal e também a reapresentação de dois espetáculos do repertório previamente gravados. Os atores da trupe, verdadeiras máquinas de Fórmula 1, e que, independente de gostos ou marcas, são o top do top de linha na profissão, abriram as portas de suas casas e com seus aparelhos celulares conectaram-se ao mundo e deram início a mais bela aventura humana ligada ao teatro que me foi permitida viver e da qual tive conhecimento durante a pandemia. E como a aventura humana me interessa tanto quanto o projeto, acompanhei todas as etapas: o La Comédie continue!, La Comédie continue encore!, La Comédie d’automne e o Quelle Comédie! 


Nada mais natural que após 643 dias de abstinência teatral, a vida me proporcionasse a oportunidade única de voltar a uma sala de espetáculo, numa sala da Comédie-Française. E foi assim que, abençoada pelos deuses e pelas deusas do teatro, entrei no Théâtre du Vieux Colombier – VieuxCo para os mais íntimos – o teatro de Jacques Copeau, mestre de tantos dos meus mestres, para assistir Sans Famille, adaptação de Léna Bréban e Alexandre Zambeaux da obra de Hector Malot, com ninguém menos que Véronique Vella, minha DIVA, no papel de Rémi. 


Rémi que para mim era Renato, nome do personagem na versão brasileira da obra que integrou a coleção Clássicos da Literatura Juvenil, publicada pela Editora Abril Cultural, entre 1971 e 1973, conhecido como um dos principais romances sobre a temática da infância e, embora lançado no século XIX, o livro se tornou um clássico no século XX. A história do menino Renato, órfão que é vendido para um andarilho e sofre crueldades e explorações arrancará lagrimas mundo afora e integra a categoria dos romances de formação (ou de iniciação, de acordo com a definição vigente para cada um). Segundo, Fabiana Tavares 

 

“(...) a expressão "romance de formação" foi cunhada por um alemão em 1820, de nome Morgenstein, e serve para designar a história cujo enredo apresente um protagonista e sua história de crescimento e desenvolvimento físico, psicológico, emocional, educacional, moral e até mesmo religioso. Para que seja um romance de formação, a obra segue mais ou menos um "esquema", por assim dizer: a personagem principal, ainda pequena, sofre algum infortúnio e é afastada do convívio no qual se sente segura e feliz. A partir daí, sozinha, passa por diversas agruras e problemas, que servem para colocá-la à prova e para formar o seu caráter, até que, crescida, ela possa relatar a história que o leitor está acompanhando no livro que lê.”[1]

 



[1] http://classicosdaliteraturajuvenil.blogspot.com/2010/04/volume-15-sem-familia-hector-henri.html



Véronique Vella como sempre FORMIDÁVEL 
Foto: Marlène Schwartz

O meu amor pelo teatro tem ligação direta com a minha paixão pelos atores. E a qualidade do trabalho dos atores da Comédie-Française é de uma excelência tamanha, que em 27 anos frequentando-a com a assiduidade permitida a quem mora do outro lado do Atlântico, afirmo sem medo de errar: raros são os teatros que podem se dar ao luxo de colocar em cena tantos e tão bons atores num mesmo elenco quanto a Comédie-Française. Missão quase impossível. As condições de trabalho da casa e a alternância, que faz com que atores estejam em cena até três vezes por dia em espetáculos os mais diversos, com certeza contribui e muito para a excelência do jogo sublime que vemos nos três palcos do primeiro teatro nacional da França.

 

Em Sans Famille não é diferente. Thierry Hancisse (de tirar o chapéu por fazer o espetáculo nessa noite com máscara por causa da COVID-19), Clotilde de Bayser, Bakary Sangaré, Jean Chevalier e Antoine Prud’homme de la Boussinière, Camille Seitz, Alexandre Zambeaux, atores da casa e agregados, contribuem de forma categórica e indispensável para o resultado do conjunto apreciado em cena, mas toda orquestra tem seu spalla e aqui ele tem nome e sobrenome: Véronique Vella. 

 

Minha Diva excede, e isso não é novidade. Recentemente, em Sept Minutes, de Stefano Massini, na encenação de Maëlle Poésy, mesmo a unanimidade da crítica em relação aos elogios ao conjunto de onze atrizes em cena, teve que se render ao seu trabalho. Além de uma atriz memorável, Véronique é dona de uma belíssima voz, canta lindamente e com algo que a faz ainda mais especial para uma estrangeira: a dicção absolutamente perfeita, permitindo aos que não têm o francês como língua materna não perder uma única sílaba. 

 

Diversas vezes a vi em cena, não tantas quanto eu gostaria, perdi alguns momentos memoráveis, adoraria tê-la visto como Hermione em Andrômaca, encenada por Daniel Mesguich, assim como nunca a vi nos cabarés. Mas pude aplaudi-la em La Nuit des Rois, com direção de Andrzej Sewerin, em L’Espace Furieux de e dirigido por Valère Novarina, em Cyrano de Bergerac, encenada por Denis Podalydès, em As Preciosas Ridículas, de Molière por Dan Jemmett e mais recentemente em Fanny et Alexandre, de Bergman na encenação de Julie Deliquet e em La Vie de Galilée, de Brecht sob o comando de Éric Ruf. Anualmente estando em Paris na noite de 15 de janeiro – data do aniversário de batizado de Molière e tradicionalmente ocasião de uma grande homenagem na sala Richelieu da Comédie-Francesa – pude vê-la no palco dizendo dois versos a cada vez e, asseguro a vocês que, dois versos são suficientes para que ele seduza o mais exigente espectador, e se forem alexandrinos então, é questão de segundos, mestra total nos alexandrinos. 

 

Ver Véronique Vella interpretando Rémi foi uma bela maneira de voltar a ser público de teatro, em tempos de luta e de luto – dela inclusive, que perdeu a mãe, a também atriz, Lucette Sagnières, em fevereiro passado – foi uma espécie de encontro marcado com a pureza, com a amizade, com laços tecidos e renovados. 

 

Muitos presentes me foram ofertados nessa noite de 16 de dezembro de 2021, entre eles a descoberta de uma diretora, Sans Famille é o primeiro trabalho de Léna Bréban que vejo, mas foi o suficiente para saber que, daqui para frente, aceitarei de braços e coração abertos, as próximas viagens guiadas por ela. 

 

Gosto muito dos diretores capazes de imprimir sua marca sem sufocar o ator, sem “sujar” a cena ao impor sua presença obsessiva e que conseguem embarcar o público numa viagem de risos e lágrimas, de sonho e fantasia, onde o realismo não se faz presente e onde o prazer do jogo e da cumplicidade sejam a realidade.

 

Gosto dessa afinidade entre encenador e a equipe de criação, no programa da peça existem textos simples e fundamentais para a compreensão da importância dada por ela a cada fibra desse tecido, uma espécie de tear manual operado por várias mãos e possibilitando a ligação dos imaginários cruzados sobre a cenografia, os figurinos e a luz. 


Sendo a trama bem tecida, a platéia os acompanha pelos interiores da França, atravessa fronteiras para chegar a Inglaterra, sem necessidade de efeitos pirotécnicos ou excesso de vídeos que tanto me irrita e me causa a impressão de ter ido ao cinema e não ao teatro. Amo a opção pela criatividade, pelo dar asas à imaginação e pelo artesanato caro e preciso da arte teatral: alguns poucos elementos e a contribuição dos atores que preparam a cena diante dos olhos encantados do público e do som delicioso da risada das crianças. Há uma harmonia entre  luzes, espaços e cores e há a necessidade do olhar atento para que nada se perca. E sentimos frio, fome, ficamos de queixo caído diante da neve caindo sobre o palco, andamos de barco, cantamos, choramos a miséria e a morte, a morte de Joli-Cœur, cujo trabalho de manipulação feito por um jovem e grande ator Jean Chevalier, é de cortar coração, assim como a morte de Vitalis que transformará o menino Rémi, o sem família, em chefe de trupe e ao mesmo tempo chefe da família que compõe essa trupe.

 

Jean Chevalier (Mattia) e Véronique Vella (Rémy)
Foto: Brigitte Enguerand


Rémi é o protagonista de uma peça cheia de encontros, no melhor estilo de vida à la Vinícius de Moraes: "a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida" e ao final, sentada na primeira fila, tinha lágrimas nos olhos, o coração batia descompassado e havia me invadido uma imensa vontade de abraçar a humanidade. Pensei em Marcio Meirelles, amigo e irmão, que sempre disse que enquanto amarmos o teatro amaremos a humanidade. Isso tudo, sem falar na vontade de colocar Véronique Vella, ou melhor Rémi, no colo e levá-lo para casa com Joli-Coeur ressuscitado. 


Sans famille ao falar sobre a fragilidade da vida e, em assim sendo, fala também de como lidar com as nossas perdas, faz parte do teatro do meu credo pessoal: teatro bom é aquele em que a gente ri, chora, contrariando os que pensam que a emoção bloqueia a reflexão.  Não, as tragédias e as injustiças sociais não podem impedir o riso e a emoção, da mesma forma que o riso e a emoção nunca foram empecilhos para a reflexão e, muito menos, para a compaixão. Sans famille é teatro dos bons, compreendendo como bom teatro aquele que a gente nunca esquece. 

 

Ao sair do teatro, depois de um emocionante encontro com Véronique Vella, ando pelas ruas de Paris, em luta com a máscara e as lágrimas, arranco a máscara, as ruas estão vazias, repenso meu amor pelo teatro e mais uma vez me rendo a Ariane Mnouchkine, primeira e única, feiticeira maior dos meus sonhos teatrais,  quando ela diz: 


“Eu creio que o papel do teatro é fazer teatro. (...) a força do teatro não é de deixar de fazer teatro, a força do poeta não é de parar de escrever poemas. Neste momento, nessa hora, passa a ser um adversário a menos para a ditadura. Façam teatro, lutem pelo teatro. (...) E para esclarecer o público, é com o bom teatro, não com propaganda, mesmo quando a propaganda é boa, quando pensamos que ela é boa porque está falando o que nós pensamos. Mas esclarecer o público sobre a alma humana, sobre a sua avidez, sobre sua perversidade, sobre sua covardia e sobre seu heroísmo, sua beleza. É fazer teatro, meu amigo, o que precisamos fazer. É muito fácil parar de fazer teatro e sair distribuindo panfletos na rua.”

 

Três dias após ter visto Sans famille, “je ne me suis pas encore RÉMIse” exatamente porque eu vi TEATRO. E vou voltar, com certeza, já tenho ingresso na mão para o dia 4 de janeiro, mas antes disso voltarei, sabem a terceira dose da vacina contra a COVID-19, a tal dose de reforço? Pois é Teatro que é TEATRO não foi, não pode ser e jamais será sinônimo de tédio, sempre há de funcionar como uma dose de reforço contra a descrença no ser humano e contra a falta de esperança. Serei eternamente grata aos artistas capazes de compreender que em tempos de guerra um sorriso cativante, uma história bem contada, uma canção bem cantada podem ser o passaporte sanitário necessário para garantir o embarque numa aventura outra, em cumplicidade com a vida, que nos permita a delicadeza nos tempos do ódio e a busca da esperança em campos de poesia. 

 

 

SERVIÇO "SANS FAMILLE"
Thierry Hancisse (Vitalis) e Véronique Vella (Rémi)
Foto: Brigitte Enguerand

Texto: Sans famille

Autor: Hector Malot

Adaptação de Léna Bréban e Alexandre Zambeaux

Direção : Léna Bréban

Elenco : Véronique Vella, Thierry Hancisse, Clotilde de Bayser, Bakary Sangaré, Jean Chevalier et Antoine Prud’homme de la Boussinière, Camille Seitz, Alexandre Zambeaux

Cenografia : Emmanuelle Roy

Figurinos : Alice Touvet

Luz : Arnaud Jung

Música original : Raphaël Aucler e Victor Belin

Marionete : Carole Allemand

Maquiagem e cabelos : Julie Poulain

Dramaturgia : Alexandre Zambeaux

Assistente de direção : Axelle Masliah

Assistente de cenografia : Chloé Bellemère, cenógrafa da Académie de la Comédie- Française

Duraçao : 1h35

Onde? Théâtre du Vieux-Colombier, Paris 

Quando?  11 de dezembro de 2021 a 9 de janeiro de 2022

Maiores informações: https://www.comedie-francaise.fr/fr/evenements/sans-famille2122


GALERIA DE FOTOS "SANS FAMILLE"

Fotos de Marlène Schwartz feitas na noite de 16/12/2021

Jean Chevalier, Véronique Vella e Bakary Sangaré
Foto: Marlène Schwartz 
Véronique Vella é Rémi, impossível não se apaixonar
Foto: Marlène Schwartz
Thierry Hancisse e o desafio da máscara 
Foto: Marlène Schwartz
Rémi (Véronique Vella) e Mère Barberin (Clotilde de Bayser)
 Foto: Marlène Schwartz
Mattia (Jean Chevalier) e Rémi (Véronique Vella)
Foto: Marlène Schwartz
Aplausos no final, muitos aplausos para "Sans Famille"
Foto: Marlène Schwartz
Alexandre Zambeaux e Véronique Vella
Foto: Marlène Schwartz

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