"Hamlet tem cara do princípio e do fim do mundo", diz Gabriel Villela


"Primeiro Hamlet", direção de Gabriel Villela em cartaz até 16 de junho 
Foto: João Caldas Filho

 

Ao desenhar o esqueleto do meu texto sobre Primeiro Hamlet, de Wiliam Shakespeare, na encenação de Gabriel Villela, fui checar o número de encontros entre ele e o bardo inglês, no belo livro Imaginai – O Teatro de Gabriel Villela, assinado por Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi e publicado pelas Edições SESC, em 2017. Abri o livro ao acaso na página de um texto intitulado “Barroca mineiridade”, assinado por Danilo Miranda. Resolvi, imediatamente, começar esse texto por essa citação, porque Primeiro Hamlet é também o primeiro Gabriel Villela feito em parceria com o SESC/SP, em que não teremos a presença de Danilo na plateia e nem nas coxias cumprimentando a todos. Presenciei vários desses encontros, há anos o SESC/SP viabiliza os espetáculos produzidos por Claudio Fontana e encenados por Gabriel Villela. O professor Danilo (eu nunca o chamei assim, abusada que sou!) assim escreveu sobre o trabalho desse encenador mineiro, de Carmo do Rio Claro, batizado com o nome de Antônio Gabriel Santana Villela: 


 “Suas obras trazem esse mundo do barroco brasileiro, com suas cores intensas, suas texturas marcadas, seus festejos populares, seus elementos circenses, procissões, bordados, sombrinhas, galinhas, flores, barro, colchas de retalho. As referências de seu barroco dramático são inúmeras, mas não as únicas. Por trás disso há muito mais: há o pesquisador e leitor compulsivo, o aluno reverente à faculdade que o formou e, sobretudo, o artista que exercita plenamente seu ofício de encenar histórias. Nisto Gabriel Villela é também hábil: seu grande apreço pelos clássicos, que alterna aos contemporâneos, seus cenários, seus figurinos, sua visão cênica nos transportam a um universo sensorialmente rico e, acima de tudo, capaz de voltar nossos olhares a nós mesmos e aos outros, as similitudes e diferenças que nos constituem e nos movem.”


E Danilo precisou de apenas dez linhas para nos apresentar esse diretor que é o feiticeiro dos meus sonhos teatrais mais loucos – ok, ele me deve um Molière, mas isso a vida há de cobrar dele. E o texto de Danilo me deu o mote para começar a falar do Primeiro Hamlet partindo exatamente do apreço que Gabriel tem pelos clássicos.


Há trinta anos, em fiel espectadora da Comédie-Française, primeiro teatro nacional da França, e responsável pela preservação e difusão dos grandes clássicos do repertório da língua francesa, mas também da dramaturgia universal, sempre questionei o fato de formarmos gerações e gerações de atores nesse país sem montar os grandes clássicos. 

Adoro ver que numa cidade como Paris numa mesma temporada existem diversas montagens do mesmo texto, seja ele de Molière, Shakespeare, Pirandello, Tchekhov ou Beckett. Eu mesma ano passado vi o Jardim das Cerejeiras em duas montagens em tudo opostas, a de Tiago Rodrigues com Isabelle Huppert no Odéon Théâtre de l’Europe e a, elegante e delicada montagem, de Clément-Hervieu Léger para a trupe da Comédie-Française. No Brasil isso é impossível. 


No entanto, revendo a trajetória de Gabriel, vejo inúmeros clássicos presentes. Parênteses: uma trajetória fora do comum em todos os sentidos, que outro encenador brasileiro tem mais prêmios que Gabriel Villela? Ele já recebeu 3 Prêmios Molière, 3 Prêmios Sharp, 12 Prêmios Shell, 10 Troféus Mambembe, 6 Troféus APCA, e eu tenho fotos para provar, mas não posto porque ele pode não gostar, faz a linha modesto. Que outro encenador brasileiro já fez duas temporadas no Globe Théâtre em Londres, o teatro do Shakespeare? Gabriel com o  Grupo Galpão, por lá apresentou o mais belo Romeu e Julieta que já vi na minha vida. 

Graças a esse “mineirim” e seus parceiros da arte e da vida, vimos no Brasil, país da ausência de políticas públicas para o teatro,  Romeu e Julieta (1992/1995/2012), Sua Incelença, Ricardo III (2010), Macbeth (2012), A Tempestade (2015) e agora esse Primeiro Hamlet. Cinco encontros com a obra do bardo inglês marcados, como bem disse Danilo, por festejos populares, elementos circenses, procissões, bordados, sombrinhas, galinhas (ou galo!) , flores, barro e muitas colchas de renda ou retalho. 


Ao contrário dos críticos e estudiosos da(s) arte(s) dramática(s), e principalmente das questões levantadas pela turma da academia (a única a Academia em que deposito minha confiança é a da Cachaça), eu não sou especialista em nada, muito menos em Shakespeare, que nunca foi “my cup of tea”, sou francesa demais pra isso. 

Mas, menina bem educada que fui,  li o texto pela primeira vez aos 12 anos naquela edição da coleção vermelhinha da editora Abril, ao longo de 47 anos como mulher de teatro e 16 como professora universitária ouvi muito falar em Hamlet e nas paixões que ele desperta mundo afora há mais de quatro séculos. Mas só vi três montagens de Hamlet ao longo da vida. Primeiro Hamlet é a quarta. 


Chico Carvalho a beleza de ver um grande ator em cena
Foto: João Caldas Filho


A primeira vez que vi A Tragédia de Hamlet foi em 2003, no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris, QG do encenador inglês Peter Brook. Lembro-me de coisas que li na época, no programa do espetáculo, e que estão disponíveis na Internet, onde Brook dizia mais ou menos assim: 


“Pare alguém, qualquer pessoa, na rua e diga: “O que você sabe sobre Shakespeare?” Provavelmente a resposta é: “Ser ou não ser, ser ou não ser…” Por que isso? O que está escondido por trás desta pequena frase? Quem disse isso? Em que circunstâncias? Por que razões? Por que esta pequena frase se tornou imortal? Representamos Hamlet em todos os lugares, o tempo todo... Como vagabundo, como camponês, como mulher, como pobre, como empresário, como estrela de cinema, como palhaço e até como fantoche... Hamlet é inesgotável, sem limites... cada década nos oferece uma nova análise, uma nova concepção... E ainda assim, Hamlet permanece um mistério, fascinante, inesgotável... Hamlet é como uma bola de cristal, girando no ar, imutável, suas facetas são infinitas... A bola gira e nos apresenta uma nova faceta a cada momento... Ela nos ilumina, podemos sempre redescobrir esta peça, a reviver , partir novamente em busca da própria verdade...”.


Até hoje, acho que fui ver o espetáculo por indicação do meu querido professor, Georges Banu, já que eu não gostava do teatro do Brook – eu gosto de espetáculos como de Mnouchkine, Gabriel Villela e Thomas Jolly, dá para entender a diferença? É puramente subjetivo, eu gosto do espetacular, dos cenários, dos figurinos, de muita gente em cena. Dois atores e uma mesa, preciso de DOIS IMENSOS ATORES para me deixar levar pela história – e nem morria de amores de amores pelo William. A prova é que não tenho a mais vaga noção do espetáculo, nada ficou em mim. Ok, pode ser a velhice, mas não me lembro. E mesmo o DVD, dei de presente a um aluno que com certeza faria melhor uso dele do que eu. 


Anos depois, em 2017, no Théâtre Les Gémeaux, na cidadezinha de Sceaux, subúrbio chique do sul de Paris, foi a vez de descobrir – com nove anos de atraso, a obra foi criada em 2008 e causou furor no Festival de Avignon – o Hamlet de Thomas Ostermeir, “l’enfant térible” do teatro alemão. Um Hamlet do qual disse a crítica que cheirava e enxofre e dava asas a Lars Eidinger, o ator fetiche, o Chico Carvalho, do Ostermeier. 

Lembro-me do palco invadido por uma terra negra, dos rostos filmados em close e das confidências ao microfone diante de espectadores espantados com um Lars Eidinger sublime, que entra na pele de Hamlet sem medo de fazer com que ele pareça uma criança mimada, como bem sublinha a crítica: 


“O ator entra em transe, brinca com o público, provoca, choca, inventa-se como rapper, desafia os espectadores (“sem telefone, sem flash, aproveite o momento”). O que ele percebe da sala o leva a improvisar, o vínculo é permanente. Em Thomas Ostermeier, a infelicidade de Hamlet é a de uma criança perturbada e mimada que se permite tudo e não conhece limites.”. 

Mais do que o texto e o espetáculo, essa montagem me fez descobrir, para todo o sempre, um dos maiores atores que vi em cena: Lars Eidinger. Eu já confessei não ser apaixonada por Shakespeare, pelo Brook e agora completo a lista, dizendo que o alemão está longe de ser uma língua que eu admire, acho um horror, mas não perco um único espetáculo do Thomas Ostermeir que me ensinou a amar o teatro alemão e a educar meu ouvido para ouvir a língua alemã, me dando em troca o prazer inenarrável de descobrir um elenco impressionantemente bom e um encenador absolutamente genial. 


Em 2018, de volta ao Brasil após quinze meses em Paris, tive a sorte de poder ver em Salvador, o Hamlet do Paulo de Moraes para a Armazém Companhia de Teatro. Tão raro receber companhias como a Armazém nas terras do Senhor do Bonfim que corri para o Teatro Jorge Amado – péssimas condições na época – e vi o Hamlet interpretado por Patrícia Selonk duas noites seguidas. Fascinada pelo trabalho da atriz, uma das melhores da sua geração, pela encenação de Paulo de Moraes que entendeu que se havia algo de podre no reino da Dinamarca na época em que a peça foi escrita, há muito mais coisa de podre quatro séculos depois, e não apenas num país ou outro, mas no mundo. 

Em uma entrevista Paulo dizia:  “A questão central, para mim, é que “Hamlet” é a história da destruição de uma ordem estabelecida. Acho que o mundo vive isso hoje. A destruição de uma ordem, o colapso de um tempo. O momento em que certas palavras, como democracia, perderam seu sentido.”


Escrevendo esse texto sobre Hamlet e a obra de Shakespeare, no momento em que o resultado das eleições europeias acaba de ser anunciado, com a extrema-direita ocupando mais cadeiras no parlamento europeu e se impondo como uma força ascendente na Europa, levando o presidente da França, Emmanuel Macron, a dissolver a Assembléia Nacional francesa e a convocar novas eleições legislativas para daqui a três semanas, assustando o país e o mundo que ainda se preocupa com os caminhos tortuosos da democracia no mundo, ler as palavras do diretor Paulo de Moraes, que dizia, em 2017, acreditar que “é importante tratar Shakespeare como se ele fosse um genial dramaturgo recém-descoberto com algumas coisas urgentes a dizer sobre a guerra, sobre a loucura do mundo e sobre nossos líderes políticos modernos.”. Mais atual, impossível. 


Um elenco afinado reunindo atores de diferentes formações e gerações 

Foto: João Caldas Filho 


E depois dessa viagem pela presença do Hamlet em minha vida de espectadora, palpiteira, apaixonada por teatro, chego ao Primeiro Hamlet, e como diz o tradutor desse texto, José Roberto O'Shea, meu colega da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no programa do espetáculo:


 “se é notório que A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca talvez seja o texto mais frequentemente analisado de toda a Literatura Ocidental, contando com média superior a 400 publicações anuais mundo afora. O que não é, absolutamente, notório é que existem três Hamlets, fato relevante que incide sobre questões de adaptação, reescritura e encenação.”


E José Roberto O’Shea nos explica ainda mais:


 “as três versões de A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, publicadas, respectivamente, em 1603 (Primeiro In-Quarto, Q1), 1604-5 (Segundo In-Quarto, Q2) e 1623 (Primeiro Fólio, F1) ganham diferentes nomenclaturas devido à forma como foram impressas. Fólio é a folha de impressão dobrada uma vez, de que resulta um caderno com duas folhas e quatro páginas, enquanto in-quarto é a folha de impressão dobrada duas vezes, formando um caderno com quatro folhas e oito páginas.” . 


Confesso que até sabia que existiam essas três versões, mas com todos esses detalhes, nem pensar. Fui descobrir isso tudo conversando com Gabriel via whatsapp, e aí a curiosidade que é a marca da jornalista, da produtora, da professora e da pesquisadora que sou, me levou a buscar a tradução do O’Shea (obrigada, Claudinho!) e a enveredar um pouco por essa viagem por um texto que começa a ser escrito em 1603 para chegar até nós em sua terceira versão, datada de 1623. 


Gabriel Villela nunca montou um Shakespeare na íntegra, (as condições sócio-econômico-culturais do país dão total razão a essa opção dele!), ele é um fiel adepto das adaptações que ele mesmo assina, encontrou nessa versão inicial do texto, ainda que menos conhecida, a que lhe parecia ideal: os monólogos de Hamlet são enxutos, resultando em uma trama mais direta. 

Segundo o diretor: “Shakespeare dedicou a vida a escrever a versão metafísica de Hamlet que conhecemos. Mas, para isso, passou anos elaborando essas versões a partir de um rascunho. (...) Aqui, tudo o que acontece é ação, e menos pensamento.”. Em síntese, menos literatura e mais teatro. 


Sabendo disso tudo, saio eu de Salvador, meu amor, Bahia, num sábado pela manhã, dia da estreia, com suspeita de dengue – diagnóstico confirmado horas depois – com destino a São Paulo para descobrir mais um espetáculo daquele que é publicamente, descaradamente, para desespero de muitos que acreditam que só é levado a sério o palpiteiro, seja ele acadêmico ou não, que deixe transparecer apenas a razão e nunca a emoção, meu diretor preferido em terras brasileiras: Gabriel Villela. Já não se coloca a questão de ver um Shakespeare, ou um Hamlet, para mim. Antes de tudo, significa ver um espetáculo do maior diretor de teatro brasileiro em atividade. 


Em boa espectadora faço meu dever de casa: não apenas li o texto usado no espetáculo, como leio o release, de onde tiro trechos para melhor informá-los.  Descubro que Primeiro Hamlet, tem um elenco de onze atores interpretando vinte personagens. No papel de Hamlet, Chico Carvalho, ator que em 2013 recebeu o Prêmio Shell de melhor ator do ano, interpretando Ricardo III. Acrescento que, sob a batuta de Gabriel, ele fez grandes espetáculos, destaco aqui A Tempestade, onde seu Ariel encantava pela leveza e pela magia, e nem falo dos figurinos. No palco ao lado de Chico, o grande Elias Andreato interpreta Corambis (chamado de Polônio nas outras versões), Claudio Fontana faz o Rei Cláudio e, ao seu lado, como Rainha Gertred (Gertrudes, nas outras versões), está Luciana Carnieli. Ciça de Carvalho é Ofélia. Ciça é atriz   do grupo de teatro Os Geraldos, com quem Gabriel fez seus dois mais recentes espetáculos: Cordel do Amor sem fim, da dramaturga Claudia Barral e Ubu Rei, de Alfred Jarry. Completando o elenco, Ivan Vellame faz o melhor amigo do protagonista, Horácio; André Hendges, o irmão de Ofélia, Laertes; Gabriel Sobreiro e Breno Manfredini são os colegas de Hamlet, aqui chamados de Rosencraft e Gilderstone; por fim, João Attuy interpreta tanto o Coveiro, quanto o invasor norueguês, Fortimbrás. No palco veremos ainda a presença de Dan Maia, executando a trilha sonora ao vivo, ele que é o diretor musical e responsável pelos arranjos instrumentais e vocais. 


Elias Andreato faz também o fantasma do Rei da Dinamarca
Foto: João Caldas Filho

O que dizer do cenário de José Carlos Serroni que ainda não tenha sido dito e cuja beleza é constatada a cada apresentação? A começar pela cortina, que fotografei da coxia e do avesso consegue ser ainda mais impactante. Que ele me lembrou o cenário de Estado de Sítio?  Sim, mas as “teias de aranha” que ameaçavam nos emaranhar de cima, dessa vez estão a nos emaranhar pelos pés. O que dizer depois de ler sua conceituação cenográfica do espetáculo no programa, um texto cujo título é fortíssimo: Primeiro Hamlet: Um grito cênico contra a destruição da natureza? Que ele buscou inspiração nas obras de Frans Krajcberg, que “carregam uma forte dimensão ética que vai além da sua vida e de sua arte”? Exatamente como ele, como Gabriel, como Claudio, como Chico, como Elias, como Ivan, como Babaya e os que vão se agregando a esse núcleo criativo que gira em torno da figura do encenador. Mestre e guia. 


E os figurinos do Gabriel? Chega a ser covardia o que esse homem faz. E eu há 40 anos me pergunto de onde ele tira tantas ideias. Um dia, para mim bastava um dia, pensando com a cabeça do Gabriel para entender onde ele vai buscar tudo isso. Vestido de noiva em plástico bolha é o mínimo que ele faz. As cores, a mistura de tecidos, os cortes, os rasgados, os bordados, a reciclagem de um espetáculo para o outro. Os figurinos do Rei Claudio são deslumbrantes. Viraram grife. A gente olha e reconhece um figurino do Gabriel. 


A qualidade vocal dos intérpretes é tradição nos espetáculos de Gabriel:  “Os atores têm um aparelho fonador capaz de dizer essas palavras, de narrar um texto épico, mesmo que esse épico tenha, no curso da história, virado um discurso interior", diz o encenador já no release para a divulgação do espetáculo. A exigência villeliana é conhecida dos que trabalham com ele e dos que acompanham sua trajetória.     


Claudio Fontana, produtor e ator do espetáculo, chegou a contar nas redes sociais que muitos espectadores de Primeiro Hamlet ficam procurando onde estão instalados os "microfones" no palco para gerar a "perfeita compreensão da palavra falada" do espetáculo. Segundo ele, “o verdadeiro teatro é baseado na voz do ator sem microfones. E na perfeita projeção vocal.”. Nos espetáculos do Gabriel há pelo menos três décadas, o segredo dessa perfeição atende pelo nome de Babaya Morais, ela é a responsável pela preparação vocal do elenco desse e de tantos outros trabalhos com a grife do Gabriel. Em Pimeiro Hamlet ela assina a direção musical, canto e arranjos vocais. Os ensaios com Babaya assim como a preparação diária antes da entrada em cena sao lembranças que levarei para a vida toda.


Uma outra frase de Gabriel, pinçada no programa da peça, diz claramente o papel ocupado pelo trabalho de Babaya no espetáculo: 


“A despeito de revisionismos históricos e de uma cultura de cancelamentos, ninguém conseguiu descredenciar Shakespeare e sua capacidade de fazer o homem imaginar. Cabe aos atores dar voz ao gênio. A prioridade absoluta dessa montagem é a qualidade sonora, do canto e da fala, do argumento e do pensamento. A midiatização do nosso entorno tem nos deixado preguiçosos, restritos a um registro de interpretação intimista e personalizado. O teatro elisabetano deixa-nos o legado da desobediência, do jogo e do esmero com a palavra.”


A realidade da produção teatral no Brasil é lamentável, e por mais que conheça as dificuldades e os entraves é impossível entender como um espetáculo, com uma qualidade que o habilita a estra em qualquer palco do mundo, nasce com data marcada para nascer e morrer?  Nada me exaspera mais do que isso, seja em São Paulo, seja em Salvador ou Paris, produzir para não circular é uma doença que se alastra. 


Pergunto para Claudio Fontana, esse ator que interpreta como ninguém meu produtor preferido, o que vai acontecer depois do dia 16 de junho de 2024, data anunciada para o final de uma temporada de casa lotadas no Teatro Antunes Filho, do SESC Vila Mariana? 


“Em um país sem uma política cultural para as artes cênicas voltada a viabilização de clássicos com grandes elencos em uma linguagem de pesquisa não comercial como é a estética de Gabriel Villela, cabe ao Sesc SP realizar essa produção de Primeiro Hamlet. Obrigado, SESC ! Caberá a ele em parceria conosco decidir o futuro do espetáculo. Que seja promissor !”  


Agradecendo ao SESC, torcendo para que o espetáculo circule nos diversos espaços da instituição, entro no carro completamente “dengada”, com uma frase do Gabriel martelando em meus ouvidos: 


“Não é possível acessar Hamlet na sua totalidade. Ele tem cara do começo e do fim do mundo, é dono do firmamento, o disco de Newton foi ele que inventou primeiro, A Divina Comédia, El Cid, A Ilíada e a Odisséia, foram escritas por ele. Ele consta em Édipo Rei, Esperando Godot, A vida é sonho. Ele está todinho no Antigo Testamento, ele é o quinto evangelho! E seu irmão gêmeo chama Dom Quixote, da Triste figura!”.


No caminho para casa conto para meu filho, Pedro, companheiro de mais esta aventura teatral, o privilégio de poder chegar três horas antes e acompanhar os momentos que antecedem a estreia. Ciceroneada por Gabriel, pude fazer fotos nos camarins, descobrir o que não pude descobrir antes, acostumada que estou a assistir aos três últimos ensaios das obras dele, conversar com amigos queridos, que não se incomodam com a minha presença, cuidando para não ser invasiva e amando cada encontro e cada pedacinho de tecido. Divido com vocês, logo ao final do texto, uma galeria de fotos feitas na estreia e duas semanas após, dessa vez vi só duas apresentações.  Suficientes para estar apaixonada. Mais uma vez saio de um espetáculo de Gabriel fascinada pelos detalhes e pela riqueza. 


Ao chegar em casa, entre o exausta pela viagem, pela doença, mas com a adrenalina em alta após ver TEATRO, e teatro bom, muito bom, fui folhear o belo programa – desses que a gente não vê mais –, com as informações necessárias, luxo dos luxos: sem QRcode. Impresso e acessível a todos que passam naquele teatro, uma vez que é distribuído gratuitamente, dou de cara com a frase do Chico Carvalho, aquele que faz o Hamlet e que fecha esse texto com chave de ouro: “quem souber quem é Hamlet afinal de contas, e o que é tudo isso, que me conte depois.”.

 

FICHA TÉCNICA “PRIMEIRO HAMLET”  
Foto Deolinda Vilhena
Ana Lucia Laurino, camareira competente e querida
Foto: Deolinda Vilhena


Autor: William Shakespeare

Tradução: José Roberto O´Shea

Direção e figurinos: Gabriel Villela

Diretor-adjunto: Ivan Andrade

Elenco: Chico Carvalho, Elias Andreato, Claudio Fontana, Luciana Carnieli, Ciça de Carvalho, Ivan Vellame, André Hendges, Breno Manfredini, João Attuy e Gabriel Sobreiro

Iluminação: Wagner Freire

Direção Musical, canto e arranjos vocais: Babaya Morais

Direção Musical, órgão, viola e arranjos instrumentais e vocais: Daniel Maia

Cenografia: J C Serroni

Assistente de cenografia: Débora Ferreira

Adereços de cenário e pintura de arte: Beatriz Leandro, Gonzalo Michel, Lis Macedo, Nayara Andrade, Matheus Rondelli e Viviana León

Designer gráfico de cenografia:  Paula dia Paoli

Produção de cenografia: Matheus Muniz

Cenotécnico: Wagner de Almeida

Marcenaria cenográfica: Douglas Vendramini

Maquinistas de montagem: Benilson Alves, Bruno Torato, Douglas Vendramini e Gonzalo Michel

Assistente de Figurinos: Nour Koeder, Emme Toniolo e Nayara Andrade

Costureira: Zilda Peres

Pintura e texturização: Cirqueira e Priscila Chagas

Maquiagem: Claudinei Hidalgo

Assistente de Maquiagem: Patrícia Barbosa

Fotografia: João Caldas Fº

Assistente de Fotografia: Andréia Machado

Diretor de Palco: Márcio Félix

Operador de luz: Rodrigo Sawl

Camareira: Ana Lucia Laurino

Produção Executiva: Augusto Vieira

Direção de Produção: Claudio Fontana

Apoio: Marcelo Araújo Hair


SERVIÇO "PRIMEIRO HAMLET"

Foto: João Caldas Filho

Onde? Teatro Antunes Filho – Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141.

Horário? Quinta a sábado, 21h. Domingos, 18h. 

Dias 7 e 8 de junho, sexta e sábado, haverá sessões extras às 15h. 

Em todas as quatro sessões dos dias 7 e 8 de junho haverá tradução em libras.

Quando? Até 16 de junho.

Informações? https://www.sescsp.org.br/programacao/primeiro-hamlet/


GALERIA DAS COXIAS DO "PRIMEIRO HAMLET"

A beleza de mais uma cortina da "griffe" José Carlos Serroni
Foto: Deolinda Vilhena
Chico Carvalho o sonho de todo ator, Hamlet 
Foto Deolinda Vilhena

Cláudio Fontana, um Rei Cláudio impagável 

Foto: Deolinda Vilhena

 Luciana Carnieli, a Rainha GERTRED 
Foto: Deolinda Vilhena
Cláudio Fontana a caminho de perturbar Elias Andreato 
exibindo um figurino de mestre Gabriel Villela. 
Foto: Deolinda Vilhena
Os figurinos, da griffe Gabriel Villa, organizados na coxia 
Foto: Deolinda Vilhena
Gabriel Villela não brinca em serviço, reunião todo dia e, 
quando ele não está, Ivan Andrade, o assistente, assume.
Foto: Deolinda Vilhena
Hamlet e a madeira calcinada invadindo o palco
Foto: Deolinda Vilhena
Aos cuidados de Ana Lucia e/ou Márcio Félix acessórios e adereços
 ocupam seus lugares à espera do momento de completar 
beleza desse espetáculo
Foto: Deolinda Vilhena
Cláudio Fontana e Elias Andreato, dois IMENSOS atores
Foto: Deolinda Vilhena
Chico Carvalho e os retoques finais para dar vida a Hamlet
Foto: Deolinda Vilhena
As três graças do Gabriel: eu, Babaya e Ana Lucia em dia de estreia 
Foto: Gabriel Villela
Encontro de gênios: Gabriel Villela e José Carlos Serroni
Foto: Deolinda Vilhena 
O que pensa o criador minutos antes da abertura do pano? 
José Carlos Serroni em foto de Deolinda Vilhena
Ivan Andrade, diretor assistente e homem de confiança do Gabriel
Foto: Deolinda Vilhena

Rainha Babaya, Luciana Carnielli e Ciça só no aquecimento 
Foto: Deolinda Vilhena
Os baldes da Babaya, cada ator tem o seu, esse é do Chico
Foto: Deolinda Vilhena
Fazer teatro SEM microfone é isso: só no cachimbinho 
Cláudio Fontana e Dan Maia que o digam
Foto: Deolinda Vilhena 
"as personagens habitam uma floresta devastada pela ação humana", 
frase de Gabriel Villela 
Foto: Deolinda Vilhena
Aquecimento sob a batuta de Dan Maia
Foto: Deolinda Vilhena
Galo cantou às quatro da manhã, mas o céu não azulou 
como na canção de Paulinho da Viola
Foto: Deolinda Vilhena
Meu produtor e meu diretor preferidos nesse Brasil, obrigada pelo privilégio
Foto: selfie feita por Cláudio Fontana
Gabriel agora tem um Shakesperare para chamar de seu 
(obra de João Perene)
Foto: Deolinda Vilhena 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UM OLHAR FRANCÊS SOBRE CLARA NUNES, A TAL GUERREIRA

A MEDEA DE SÊNECA E DE GABRIEL COMO EU VI

O Fantasma da Ópera existe e está em SP