CLARA NUNES, ESSA TAL GUERREIRA
Esperei 41 anos para ver Clara Nunes ser homenageada da maneira que sempre sonhei. E após a estreia, no dia 2 de agosto de 2024, no Teatro Bravos, de Clara Nunes, a tal guerreira, musical dirigido por Jorge Farjalla, precisei esperar quase dois meses para ser capaz de escrever sobre o que vi, mas acima de tudo sobre o que vivi.
O que vocês lerão aqui não é uma crítica, não sou, nunca fui e jamais serei crítica de teatro. Deixo isso para o Dirceu Alves Jr que, recentemente, escreveu lindamente sobre o espetáculo. Nem um ensaio, nem um artigo, que um blog não é lugar para isso, e mesmo tendo todos os títulos exigidos pela academia, quem vos escreve aqui é a mulher de teatro que sou desde dezembro de 1976, já lá se vão quase 50 anos. E mais do que essa mulher de teatro que sou, portadora de uma carteira do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos Teatrais do Rio de Janeiro, assinada por Alice Viveiros de Castro e registrada nas funções de Diretora de Produção, Secretária Teatral e Secretária de Frente, quem vos escreve essas linhas é a Deolinda da Clara, a Deolinda da Bibi. A mulher que daqui a poucos dias completará 65 anos, mas que guarda a mesma paixão e a mesma crença no teatro dos anos vividos ao lado de Clara e de Bibi, dois dos maiores amores da minha vida. Alguém que foi abençoada, em algum momento, por deuses e deusas. Só isso explica o meu encontro com duas das maiores artistas desse Brasil de meu D‘us. Obra de alguém, a quem costumo chamar de Senhor do Universo, que decidiu que eu teria o privilégio e a honra de ser não apenas empresária, produtora, assessora de imprensa, secretária e camareira (sim, vesti as duas!), mas amiga, amiga de verdade dessas duas mulheres que se assemelham em talento e caráter. Mais do que isso, fui por elas adotada como filha, chamei a ambas de “mãe”, tenho provas de que elas me chamavam de “minha filha” e mais do que isso assinavam “mamãe” em cartas, bilhetes, dedicatórias que me foram escritas.
Impossível portanto, escrever sobre Clara Nunes, a tal guerreira, sem falar do imenso amor que nos unia e une, e que fez com que elas fossem parte da minha vida e eu, parte da vida delas.
E é em nome desse amor que me autorizo a escrever essas muitas palavras como uma forma de agradecer a cada uma das pessoas envolvidas na produção desse imenso espetáculo. Porque Clara Nunes, essa tal guerreira – o musical, nasce do amor de Vanessa da Mata por Clara Nunes e vai encontrar eco em Jorge Farjalla que, em parceria com André Magalhães, vai escrever não apenas o texto, que soa como um poema de amor, mas nos presentear com a sua visão da Clara. Esse mesmo amor vai também contaminar Marco e Daniella Griesi, sem esquecer de Felipe Heráclito Lima, os produtores – e como produtores apaixonados são fundamentais para um final feliz. Um espetáculo que nasce de tanto amor, gera uma história que foi escrita no planeta Terra, mas abençoada no astral.
Confesso que tinha muito medo de me decepcionar. Gato escaldado tem medo de água fria. Além disso, há dores que exigem quase uma renúncia do que foi vivido para que a sobrevivência seja possível. A vida me obrigou a me distanciar – e nem falo dos que tentaram e tentam me distanciar da história da Clara, atitude que se repetiria com a Bibi – de tudo o que tinha ligação com a Clara para que eu aprendesse a conviver com a maior dor sentida até os meus 23 anos, idade que eu tinha quando Clara morreu. Sem metáforas, uso a palavra nua e crua, morreu.
Ao ser contatada, via inbox do Facebook e na sequência por telefone, por Jorge Farjalla – a quem sou e serei eternamente grata – e tomar conhecimento da existência desse projeto, algo aconteceu em mim, pois decidi me abrir e contar em alguns encontros a história do que me foi permitido viver com Clara ao longo dos seus dois últimos anos de vida e que 41 anos latejam em mim como se fosse ontem.
De longe acompanhei o processo. Foi longo o caminho entre o primeiro encontro com Farjalla, André e Marco até a emoção de receber o texto, lido duas vezes num curto espaço de tempo, entre lágrimas e muitos, muitos soluços. E nem conto para vocês como foi encontrar Vanessa e compartilhar minhas histórias com a cantora, disposta a encarar a realidade de vir a ser atriz, para dar vida a minha Clara. Nem a magia de, em meio a dengue, passar quase três horas, conversando por vídeo chamada com Carol Costa – que eu não conhecia pessoalmente – na tentativa de contar para ela um pouco do muito que foi a minha Bi. E na tarde desse mesmo dia, ser acolhida por Farjalla e toda a equipe num ensaio no teatro para conversar com eles sobre Clara, sobre Bibi, sobre a relação das duas, sobre elas e a vida, sobre elas e eu. Mais lágrimas e mais lembranças. E assim, à medida que eles iam gestando um espetáculo, eu pude me reapropriar de parte importante da minha própria história. E tudo isso por conta daquele amor transformado em projeto idealizado pela Vanessa.
A caminho para o aeroporto, indo de Salvador para a estreia em São Paulo, recebi uma mensagem do Farjalla: “não venha esperando o óbvio!”.
Como poderia eu esperar o óbvio? Mal sabia ele que, aquela altura dos acontecimentos, alguém já tinha soprado no meu ouvido, que a tal da visão dele, tocaria fundo nas cordas da minha alma. Vim preparada. O coração aos pulos e eu tentando aparentar serenidade, amparada pela presença do meu filho, Pedro Vilhena, tão esperado por Clara e que naquela noite veria, ao meu lado, Vanessa da Mata interpretar Clara Nunes. Ele que só viu os shows da Clara, confortavelmente instalado no camarote da minha barriga.
Entrar numa sala de espetáculos deixando do lado de fora a produtora, a jornalista, a professora e a pesquisadora de teatro que sou é sempre uma missão delicada. Permitir a Deolinda ser apenas público, não é uma experiência fácil. As referências acumuladas nessas quase cinco décadas como público, mas também como profissional do espetáculo, são enormes e a cada vez “desligar” todos os botões ativados no cérebro torna-se uma tarefa quase impossível. Abrir o coração para dar (ou não) vazão à emoção tem sido cada vez mais difícil. Imaginem então, o que foi para mim a experiência de estar na platéia do Teatro Bravos nas noites de 2, 3, 10 e 12 de agosto desse ano de 2024, para assistir Clara Nunes, a tal guerreira.
Mais do que um espetáculo se trata de uma homenagem à Clara Nunes, que para o grande público existe como a grande artista que foi (é e sempre será!) na memória dos que a viram em cena um dia. Há aqueles que graças as inúmeras gravações, em áudio ou em vídeo, criaram no seu imaginário a “sua” Clara. Gente que nunca a viu, mas que a trata com uma intimidade que só a paixão e/ou admiração por um ídolo permite.
No entanto, para mim a Clara é muito mais do que uma figura pública, muito mais do que uma artista de quem só passei a ser fã depois de vê-la pela primeira vez em cena no show Clara Mestiça, em março de 1981. Eu conheci a Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, e conheci de muito perto. Ao longo dos seus dois últimos anos de vida, ela foi primeiro minha patroa, depois minha amiga, uma pessoa por quem eu desenvolvi um amor e uma admiração imensos, desses que só uma garota de 21 anos cheia de sonhos pode alimentar.
É verdade que Farjalla já havia me concedido o privilégio de ler o texto, assinado por ele e por André Magalhães, e sou incapaz de dizer para vocês o que senti quando, via whatsapp, na tarde de 24 de abril, esse texto invadiu meu celular. Não posso dizer que li o texto. Eu o devorei, aos prantos. E foi ainda entre lágrimas e soluços que telefonei para Farjalla e me lembro de ter dito que ele era o responsável por todos os sentimentos que me invadiram naquele momento e que ele teria que ser muito ruim como diretor para destruir o belíssimo trabalho que ele e André tinham feito. Disse ainda que o texto era preciso e precioso, que não era panfletário, que não era didático, que era um simples conto, contado e cantado, história contada, sem a pretensão de querer ensinar a contar. A poesia contida nas palavras dos poetas/compositores gravados por Clara se integrava ao texto ajudando na construção dramatúrgica dele, confirmando o acerto na escolha do vasto e belo repertório. E last, but not least, a surpresa maior: descobrir a presença de Bibi Ferreira como personagem, uma espécie de guia ou mentora da Clara, nessa história de vida que é narrada a partir da morte da personagem homenageada. “O tributo nasce da dor da perda, para que não haja o esquecimento”, como bem escreveu André Magalhaes em seu texto no programa do espetáculo.
Ou seja, ao chegar na platéia na noite da estréia eu já tinha sido fisgada pelo texto. Não vi nenhum ensaio. Não sabia nada além do que tinha visto em alguns vídeos delicadamente enviados, assim como algumas fotos das provas de figurinos, que só aumentavam minha angústia e minha expectativa. Angústia sim, porque existia o risco da decepção com a montagem. E expectativa porque um dos meus maiores sonhos era ver a vida da Clara em cena numa homenagem digna do talento e da paixão que ela tinha pelo trabalho que fazia. E essa turma fez ainda melhor: reuniu num único espetáculo as duas maiores paixões da minha vida: Clara Nunes e Bibi Ferreira. E mais, além da Bibi tinha a Claudina – sobre ela falarei mais tarde – e eu mesma, a Deolinda tinha encontrado seu espaço na história. Em síntese: teste para cardíaco. Assim eu me sentia sentada na poltrona I-15 na noite de 2 de agosto de 2024, exatos 43 anos após a última apresentação do Clara Mestiça, no Teatro Clara Nunes.
De repente, a euforia e o burburinho da platéia, em noite de estréia principalmente, dão lugar ao mundo mágico do espetáculo. A abertura do pano, mesmo que não tenha cortina, é sempre um momento de festa para quem, desde muito cedo, foi picada pelo vírus do teatro. Tem sempre o gosto da primeira vez. E aquela caixa cênica toda branca – primeira preocupação: “meu D’us que loucura!”. Quem é de teatro sabe o quão difícil é iluminar uma caixa toda branca. Penso na Bibi, grande iluminadora, imaginando o que ela diria. Quase sinto sua mão apertando a minha, como fazia sempre que víamos um ensaio ou um espetáculo juntas, e algo a tocava profundamente. Poucos minutos são necessários para que eu embarque de corpo, coração e alma na viagem onírica que Farjalla, numa sacada de gênio, havia imaginado. Do palco e da platéia chegam as primeiras vozes, o rufar dos tambores e os primeiros versos dizem de imediato o que posso esperar das próximas duas horas. Èsù (Reynaldo Machado) chega com força para nos mostrar os caminhos. Entram os atores, dançarinos, músicos pela platéia entoando Sabiá cantado com tanta força e alegria, ao mesmo tempo com tanta delicadeza e poesia, como a nos preparar para essa passagem da vida para a eternidade, anunciada pelos versos de Um Ser de luz. Eis que, surge no palco Vanessa da Mata, e é diante de todos nós que a cantora é vestida/habitada pela personagem que dará a ela o estatuto de atriz, nos primeiros minutos do espetáculo. E de repente, não mais do que de repente, estou décadas depois diante de Clara Nunes. Impossível não me arrepiar e a sensação não é apenas minha, a efervescência do público é imediata, e assim permanecerá, em crescendo, até o final.
Ainda tomada pelas emoções iniciais, ouço a voz de Bibi Ferreira, e um foco de luz me indica que é ela, vestida de Joana – personagem criada para ela por Paulo Pontes e Chico Buarque de Hollanda, inspirados na adaptação da Medéia de Eurípides, feita pelo grande Oduvaldo Vianna Filho, para um caso especial da TV Globo, essa é a origem da Gota d’agua. E quem viu a estreia da Gota d’agua, em 26 de dezembro de 1975 na primeira fila do Teatro Tereza Rachel, e voltou para ver a Joana da Bibi mais 16 vezes, como foi o meu caso, pode medir o exato impacto de ouvir aquela voz a poucos metros da minha poltrona e o mesmo vestidinho preto. Mesmo que eu quisesse não acreditar no que via e ouvia, e não era o caso, seria difícil não ver em Carol Costa a real interpretação de Bibi. Ou seria Joana? Ou seriam ambas? Mas é um momento de tirar o fôlego. E apenas um aperitivo do que Carolzinha – ela se apresentou assim para mim, via um áudio no WhatsApp e adorei, será eternamente Carolzinha – reservava para todos nós. O humor de Bibi, inteligente e ácido, encontra em Carol uma intérprete na medida exata, e as gargalhadas do público vão comprovar essa afirmação que faço, ao longo do espetáculo. É impressionante o trabalho de corpo e voz de Carol, uma estrela dos musicais. A dedicação dela na construção da personagem, interpretar a maior atriz do teatro brasileiro - na minha nada modesta opinião - é ao mesmo tempo um presente e um enorme desafio, só uma atriz talentosa, respeitando o mito sem temer a responsabilidade de interpretá-lo, pode chegar ao resultado obtido e aplaudido imensamente pelos que se deixam encantar pela mulher misto de aço e renda que sempre foi Bibi Ferreira.
Além do mais, a primeira grande licença poética de Clara Nunes, a tal guerreira é fazer de Bibi a pessoa que vai guiar Clara, nessa passagem, afinal Bibi morreu trinta e seis anos após a morte da Clara. E é também a grande sacada dos autores, (ou seria do Farjalla?), pois eles colocaram em cena a força de uma amizade, que existia na vida real, mas que ganhou uma veracidade ainda maior no palco, uma vez que Bibi era mais fechada em suas demonstrações de afeto, e raramente se deixava levar pelas emoções, embora fosse uma emotiva. E essa cena se passa num palco, num teatro, exatamente como as vi tantas vezes afinando a luz com Hugo, operador de luz do Teatro Clara Nunes e do Clara Mestiça, cuja luz foi criada pela própria Bibi. Quantas vezes elas chegavam ao teatro, duas horas antes da apresentação e a cada vez Bibi trazia uma informação para Clara, algo que tinha sempre a intenção de tornar ainda mais bela uma cena ou outra do show. Conciliar as cenas vividas com as cenas que desfilavam diante de mim foi um exercício dos mais difíceis. Ter visto Clara Nunes, a tal guerreira por quatro vezes foi fundamental para que eu me livrasse das minhas lembranças e ser capaz de receber o que me estava sendo oferecido sem tecer comparações. Talvez por isso, no dia 12 de agosto de 2024, quando comemoramos juntos os 82 anos da Clara, sentada entre meu filho e Dani Calicchio, diretora residente do musical, eu tenha finalmente liberado as emoções e chorado – de soluçar – do começo ao fim.
Nessa cena ouço a voz da Bibi dizer: “ô Deolinda, minha filha, cadê a água da cantora? Gelada, não, gelada nem pensar.” . Impossível transformar em palavras um gesto de carinho. Na sequência elas cantam juntas, Basta um dia. Única música comum ao repertório das duas, a minha preferida entre todas as canções compostas por Chico Buarque e Paulo Pontes para a Gota d’água, com os inesquecíveis arranjos de Dori Caymmi até hoje nos ouvidos.
O trabalho de Jorge Farjalla é digno de aplausos em todos as etapas da cadeia criativa do espetáculo. Como diretor, a figura que tem a responsabilidade de agregar todas as equipes, ele escolhe parceiros que acompanham a sua viagem, e contribuem para que a realização de um sonho, deixe de ser apenas uma idéia para se transformar num projeto cujo resultado explica o sucesso retumbante na temporada paulistana que chega ao fim com todas as sessões esgotadas. Sucesso de público e de crítica.
A parceria com André Magalhães no texto é vitoriosa, apostam num musical diferente, nada de cronologia histórica, mas fatos encadeados de uma maneira que nos permitem compreender a trajetória da cantora sem o tal didatismo que tanto temia.
Ao trazer Fernanda Maia para assinar a direção musical e os arranjos, essenciais num musical, o diretor encontra alguém consciente da trajetória de Vanessa da Mata, uma cantora famosa, respeitada, com uma imagem forte. Fazê-la cantar como Clara seria um erro. Além do mais, a proposta não era um show da Vanessa cantando o repertório da Clara, então ela também não poderia ser Vanessa. Como resolver o problema? Quatro décadas se passaram, não caberia uma simples cópia. Os arranjos são belíssimos, e mesmo se por vezes sentia que tinha algo diferente daquilo que meus ouvidos estavam acostumados, a viagem musical foi perfeita. Ao lado do trabalho da direção musical e dos arranjos, Farjalla – que na carreira de Vanessa ocupa agora o papel que Bibi significou na carreira de Clara – deu a Vanessa os elementos necessários para despertar a atriz que existia dentro dela. Musicalmente Clara Nunes, a tal guerreira é uma delícia. O elenco e os músicos, presentes o tempo todo em cena, levantam a platéia, literalmente, em vários momentos. E é perceptível o cuidado com a preparação vocal, feita por Rafa Miranda, também assistente de Fernanda Maia na direção musical. E o casamento com a direção coreográfica assinada por Gabriel Malo.
Ao entrelaçamento canto/dança/instrumentos/vozes junta-se a beleza do cenário. Ora barracão de escola de samba, ora teatro, ora catedral do samba, ora terreiro de umbanda/candomblé, ora palco de uma roda de capoeira, ora um carro alegórico ou abre alas da Portela. Marco Lima foi feliz na concepção, limitado pelo branco, que ganha todas as cores, sem deixar de ser branco. Sem esquecer do azul na hora precisa. Os figurinos de Luiz Claudio Silva – e com certeza uns pitacos do Farjalla, ou me engano? – são o que precisavam ser: fazer jus aos figurinos usados por Clara. Como ela zelava pelos figurinos, como era importante para a mulher bela e vaidosa que ela era ao se tratar de estar em cena, ou diante do público. Tive o privilégio de conviver com Reinaldo Cabral, parceiro mais fiel de Clara nos últimos anos da sua carreira, e a cada vez que chegava, às vezes eu mesma trazia, uma caixa com o figurino da ocasião ou do dia, Clara se encantava. Reinaldo sabia exatamente o que Clara esperava dele. E excedia a cada vestido que fazia. Mas não apenas os figurinos usados por Clara, a beleza e o efeito dos figurinos de todos compõem verdadeiros quadros em cena. Com a leveza necessária para os movimentos coreográficos que permeiam o espetáculo do início ao fim. Sem falar na surpresa do vestido de veludo, escuro. Conto nos dedos de uma mão as vezes em que vi Clara de roupa menos clara. Pesquisa nota dez. Em todos os quesitos. Esse é também um ponto a considerar em Clara Nunes, a tal guerreira. Nada está ali por acaso. E a coroa? Morria de medo. Tinha visto umas coroas tão chinfrins, verdade que nem todo mundo tem uma produção desse nível, mas a coroa que emoldurava o rosto de Clara e que se tornou numa marca, oscilando entre a de conchas e a de flores, precisava ser feita com um mínimo de fidelidade ao original. Aqui a cópia não seria criticada, seria a demonstração do cuidado, do zelo pela imagem da cantora. E pelo imaginário dos muitos fãs e admiradores.
E, o que pode parecer detalhe, para mim é o mais importante: o amor que transborda do palco e envolve a platéia é amplamente visível. Credito isso a maneira de trabalhar de Jorge Farjalla, que conheço pouco e já admiro muito. Afinal de contas, de nada adiante ter toda uma equipe disposta a acertar se o maestro não souber conduzi-la. Farjalla abusou do direito de ser um chefe de trupe, e poucas coisas me ganham tanto na vida quanto alguém que sabe conduzir uma trupe. Eu sou devota de Molière. E discípula de Ariane Mnouchkine.
A Claudina, a criança interpretada por Carol Costa, merece um parágrafo à parte. Cada um cria e imagina quem é e o que significa esse “erê” que invade a cena, como uma outra faceta de Bibi Ferreira. Claudina era um personagem de Bibi. Uma filha imaginária? A maneira que Bibi escolheu para poder dizer o que ela mesmo não ousava? Todas as respostas estão certas. A minha Claudina, ela era minha afilhada e me chamava de “ma marraine”, minha madrinha em francês, era a criança mais linda do mundo. Privilégio de poucos. Era também o termômetro do humor da Dona Abigail Izquierdo Ferreira. Claudina só se fazia presente quando Bibi estava bem-humorada. Muitas das mais belas lembranças que tenho de Bibi estão ligadas a participação de Claudina em nossas vidas. Clara era completamente apaixonada por ela. Claudina era a chave que abria todas as portas para a Bibi na vida da Clara. Vê-la em cena no Clara Nunes, a tal guerreira foi uma emoção à parte. Mesmo se a Claudina que está no palco não é a minha Claudina. Nem poderia ser. A Clara e a Bibi podem ser vistas, ouvidas, existem imagens aos montes disponíveis, mas não da Claudina. A Claudina da Carolzinha, que conquista o público como a Claudina da Bibi nos conquistou um a um, foi uma belíssima homenagem da atriz e dos autores ao lado menos conhecido da Dona Abigail. Graças a eles, cada um agora pode criar a sua Claudina. A da Carol é um sucesso. Mais do que merecido.
Não posso deixar de citar, de forma especial, a grande Badu Morais. Seguindo a tradição dos musicais, Badu foi escolhida para ser a alternante/cover de Vanessa da Mata. O que isso significa? Substituir Vanessa da Mata no papel de Clara Nunes, nas ausências programadas por compromissos profissionais assumidos anteriormente pela cantora, cuja agenda de shows é disputadíssima.
Tarefa nada fácil. Porque se o espetáculo não é centrado na figura de Vanessa da Mata, ela é o seu grande nome, graças a uma visibilidade construída e adquirida em vinte anos de carreira, some-se a isso, o fato de ser a idealizadora do projeto.
Tive a oportunidade – e agradeço aos deuses do teatro – de ter visto Badu Morais como Clara. Não conhecia o trabalho da atriz, perdoe minha ignorância Badu, querida, mas desde que me escondi em Salvador, não consigo acompanhar a cena teatral nacional, centrada em muito, no eixo Rio-São Paulo, ainda que você seja a prova de que o teatro brasileiro é feito por cada ator/atriz que pisa diariamente nos palcos desse nosso Brasil, como aprendi com Bibi Ferreira, que aprendeu com seu pai, Procópio.
Registro aqui que no meu panteão pessoal de atrizes o seu nome já está inscrito. Que Clara Nunes, a tal guerreira seja luz em sua vida. Caminhos abertos. Você é enorme. Talento e técnica. Atriz e cantora. Manda para mim o Instagram do fã-clube e se ainda não existe um, vamos criar para ontem.
Aprendi com Ariane Mnouchkine que “no teatro quero ver o que está vivo, o que é mais do que vida. (...) Quando só vejo o que vejo, é que não há teatro”. E o que acontece de mais bonito durante as apresentações de Clara Nunes, a tal guerreira, no palco do Teatro Bravos, e certamente por todos os palcos por onde esse musical passar, é exatamente o descobrir que ali existe TEATRO. A Vanessa da Mata não é a Clara Nunes, a Carol Costa não é a Bibi Ferreira. Elas são Vanessa da Mata e Carol Costa. Que sorte a nossa. Pelo menos a minha. Porque eu não queria ver a Clara e nem a Bibi, o que eu queria mesmo era ver duas profissionais competentes e talentosas, abraçadas por toda uma equipe dentro e fora do palco, da parte criativa à parte técnica, nos fazendo acreditar que a história que estão nos contando é tão verdadeiramente verdadeira, que muitos podem jurar que viram incorporações em cena. Não se enganem meus amigos. Nem sessão espírita. Nem terreiro de umbanda ou de candomblé. Teatro, puro teatro. Garanto a vocês meus caros, que naquele palco o que existe é uma equipe de profissionais das artes do espetáculo ao vivo oferecendo a cada pessoa da platéia o resultado de um longo processo de trabalho, meses de pesquisas somados aos meses de ensaio. Tudo feito com dedicação, com superação, com esforço, mas acima de tudo, com muito amor. E num pódio invisível, Jorge Farjalla, o maestro regendo a todos, em bom chefe de trupe, sem trupe oficial, mas com um “ensemble” tão harmônico e presente em cena que, se eu não soubesse como foi escolhido o elenco, poderia afirmar, sem medo de errar, que eles não são um elenco, mas sim uma trupe.
Contar histórias, cantar canções, executar coreografias, ouvir, se ouvir e ser ouvido, seduzir e encantar a cada apresentação um grupo de desconhecidos que mais do que ver um espetáculo, optou por participar de um momento de comunhão, de humanidade, como só o TEATRO (em maiúsculas!) pode nos proporcionar. Ao sair de um teatro o maior elogio que posso fazer é dizer: “eu vi teatro”. E nas quatro vezes em que estive na platéia do Teatro Bravos, vi Clara Nunes ser devolvida ao povo brasileiro. Ainda que o teatro, infelizmente, não seja ainda acessível a todos os brasileiros nesse nosso Brasil tão carente de políticas públicas para as artes do espetáculo. (Obrigada a Petrobras e a todos os que ajudaram a levantar esse momento de beleza!). Muito mais do que homenagear uma das maiores cantoras desse país, Clara Nunes, a tal guerreira coloca essa mineira-guerreira nos braços do público, que reage eufórico e sai do teatro carregando Clara no coração.
Elenco:
Vanessa da Mata (Clara Nunes)
Badu Morais (Ensemble/Cover Clara Nunes)
Carol Costa (Bibi Ferreira)
André Torquato (Aurino)
Gui Leal (Ogum)
Bel Lima (Ensemble/Cover Bibi Ferreira)
Caio (Adelzon)
Reynaldo Machado (Èsù)
Ananza Macedo (Nanã)
Leilane Telles (Iansã)
Fabio Enriquez (Mané Serrador)
Paulo Viel (José/Músico/Violino)
Jessé Scarpellini (Ensemble/Cover Aurino/Adelzon)
Vitor Vieira (Poeta, Ensemble)
Edmundo Vitor (Ensemble/Cover Èsù/Ogum)
Preta Ferreira (Ensemble/Cover Nanã)
Larissa Grajauskas (Ensemble/Cover Iansã)
Flavio Pacato (Ensemble)
Jade Ito (Ensemble)
Elix (Ensemble)
Jesus Jadh (Ensemble)
Guilherme Gila (Ensemble/ Músico/Piano, Percussão, Cavaco, Violão)
Silvia Lys (Ensemble/ Músico/Percussão)
Thiago Brisolla (Ensemble/ Músico/Violino, Viola, Viola Caipira, Bandolim, Cavaco)
Daniel Warschauer (Ensemble/Músico/Sanfona)
Abner Paul (Músico/Bateria)
Carlos Augusto (Músico/Violão, Violão 7 Cordas)
Pedro Macedo (Músico/ Baixo Elétrico)
Idealização: Vanessa da Mata
Argumento, direção e encenação: Jorge Farjalla
Texto: André Magalhães e Jorge Farjalla
Direção Musical: Fernanda Maia
Direção Coreográfica: Gabriel Malo
Cenografia: Marco Lima
Figurino: Luiz Claudio Silva e Jorge Farjalla
Desenho de luz: César Pivetti
Desenho de som: Bruno Pinho
Preparador Vocal e Ass. Dir. Musical: Rafa Miranda
Visagismo: Simone Momo
Diretor de Arte: Kelson Spalato
Fotografia: Priscila Prade
Diretora Residente: Dani Calicchio
Produção: Daniella Griesi e Marco Griesi
Produtor Associado: Felipe Heráclito Lima
Apresentação: Ministério da Cultura e Petrobras
Realização: Palco 7 Produções, Solo Entretenimento e Sevenx Produções











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